Se o medo da violência sexual assombra meninas e mulheres diariamente, quem já foi vítima pode desenvolver transtornos mentais em diferentes níveis de gravidade, como depressão, ansiedade e crises de pânico, dizem especialistas. Os impactos se agravam ainda mais quando os crimes recaem sobre pessoas ainda em formação, como é o caso da adolescente de 17 anos vítima de um estupro coletivo em Copacabana, Zona Sul do Rio, no dia 31 de janeiro.
Estupro coletivo em Copacabana: o que se sabe até o momento
‘Ela quis desistir da vida por vergonha’: diz avó de adolescente vítima de estupro coletivo em Copacabana
— A violência sexual coletiva faz com que a pessoa se sinta com a vida ameaçada, humilhada e desumanizada. E a degradação é um grande combustível para traumas. A partir de então, a vítima pode entrar num processo de quebra de confiança no outro, e fica com receio de se relacionar. Há quem não consiga mais sair de casa, por medo, vergonha e culpa, alimentando até vontade de morrer — pontua a psicóloga Roberta Barzaghi, mestre em Saúde Coletiva.
Um dos primeiros efeitos de um episódio de violência como o de Copacabana na vida da vítima é a alteração da sociabilidade. A pessoa pode se tornar mais antissocial, além de ter dificuldades em futuras relações amorosas. As consequências podem se estender para a vida escolar, com problemas de concentração na aprendizagem, explica Maria Beatriz Ferreira, psicóloga do Instituto de Defesa da Mulher Érica Paes.
— A vítima perde a confiança não só nos outros, mas em si mesma. E, sem autoconfiança, acaba se retraindo, por medo de se expor. Isso pode impactar seu futuro, já que a vida exige certa exposição em alguns momentos, como na faculdade ou no mundo do trabalho. Além disso, o episódio de violência pode se tornar um marco sempre lembrado, abalando a autoestima — observa.
‘Sociedade machista’
No caso de Copacabana, a avó da vítima relatou que a neta disse se sentir culpada e com ideações suicidas logo após o episódio. Na visão das especialistas, a sensação de constrangimento da vítima é causada por uma “sociedade machista”.
— A mulher é sempre revitimizada por indagações como “Com que roupa ela estava”, “Será que ela consentiu” e “Será que ela disse sim e depois disse não”. Isso é fruto do machismo estrutural e torna o cenário ainda mais cruel — analisa Maria Beatriz Ferreira.
Após crime de Copacabana vir à tona e os acusados do crime se tornarem conhecidos, outras adolescentes foram até a Polícia Civil denunciar dois deles por outros dois casos de estupro. São réus no caso Bruno Felipe dos Santos Allegretti e Vitor Hugo Oliveira Simonin, ambos de 18 anos, Mattheus Veríssimo Zoel Martins e João Gabriel Xavier Bertho, que têm 19, podem pegar penas de até 18 anos de prisão. Mattheus e João foram presos na terça-feira. O quinto envolvido, um adolescente, que já havia tido um relacionamento com a vítima, é apontado como articulador do encontro e teve seu caso encaminhado para apuração na Vara da Infância e Juventude.
— Essa repetição de comportamento violento diz muito do papel em que a sociedade coloca a mulher e da objetificação dos seus corpos. Assim, os homens, principalmente, acham que podem fazer o que quiserem com esses corpos. Isso traduz o quanto a misoginia dá a ideia de poder sobre o feminino. É um movimento crônico e que faz com que várias mulheres se calem. Quando uma mulher levanta para falar, ela salva muitas outras. E isso é muito importante que consigamos criar um ambiente de proteção para que as elas possam, sim, expor as situações, para que haja consequências maciças para agressor. Isso faz com possamos colaborar para a construção de uma sociedade melhor — ressalta Roberta Barzaghi.
O recomeço
A reconstrução após a vitimização envolve o fortalecimento da autoestima, destaca Maria Beatriz Ferreira:
— É um trabalho de formiguinha. Inclui um exercício de reconhecimento da própria história e do próprio valor antes do trauma, o que de bom foi vivenciado e as relações positivas, num esforço para um resgate da identidade. A família é fundamental nessa etapa. Deve exercer uma função de escuta cuidadosa, sem julgamentos e culpabilização da vítima. E os parentes também precisam buscar apoio psicológico.
Já o caminho para que o ciclo se violência seja interrompido envolve um mudança de comportamento na formação dos meninos.
— O mais importante é que não se reproduzam práticas e narrativas que sustentam a submissão da mulher. Em vez de ‘lugar da mulher é na cozinha’, lançar mão da equidade da divisão das tarefas e exercitar o cuidado e a parceria com o sexo oposto, por exemplo. Isso é fundamental para que criemos crianças capazes de romper com essa estrutura patriarcal.
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