A estudante Teresa Loew, aluna do 3º ano do Ensino Médio do Colégio Bandeirantes, em São Paulo, passou a se interessar pelos treinos de futebol e futsal ainda durante a pandemia da Covid-19. Com a prática, ela conta, precisou lidar com um aspecto muito importante na adolescência: o medo de errar em público.
— Por vezes eu ficava nervosa ao fazer algo que não estava certo durante a partida. Thiago, meu treinador, me perguntava o que estava acontecendo e dizia para que eu mantivesse a calma e jogasse da maneira que aprendi. Esse incentivo me ensinou que errar era natural e que eu precisava aprender com isso. O erro virou ferramenta — avalia.
Thiago Hipolito Haddad, técnico de futsal de alunos como Teresa e professor de educação física do colégio, explica porque casos assim são tão comuns nessa fase da vida. E também explica o que dá para fazer para acudir um adolescente que “trava” na prática esportiva diante do medo de não mandar bem.
— O medo não pode tirar a vontade de acertar. O quanto antes der para identificar esse sentimento é melhor. Porque nessa fase da vida, há um receio grande da exposição, de passar vergonha. Há medo até de ser visto. É uma idade crítica. O medo no esporte aparece como vergonha ou expressões como ‘não consigo’, ‘não quero’, ‘deixa para lá’ — diz o treinador. — É preciso que o aluno entenda que tudo bem ele falhar, é assim no esporte e na vida. Deixamos isso claro, e ressaltamos que se o erro acontecer está tudo certo. E se acertar, melhor ainda.
O medo de falhar, contam professores e treinadores que lidam diariamente com alunos que se dedicam ao esporte, pode sim ser decisivo para que um adolescente deixe as quadras, os campos e as pistas. Nesse sentido, contam os profissionais, é preciso criar um ambiente acolhedor para que esse receio seja recebido com atenção e trabalhado em conversas de incentivo. Trata-se da melhor maneira de evitar que essa sensação atrapalhe a prática esportiva e até outras áreas da vida.
— Uma das coisas que pode proteger o estudante desse tipo de medo é justamente a sensação de pertencimento a um time. Técnicos que mesmo em ambientes de grande exigência conseguem manter o senso de coesão do time permitem que esses atletas possam avançar dentro de suas capacidades — afirma Rodrigo Bressan, presidente do Instituto Ame Sua Mente. — Lugares de pertinência (em que a pessoa se sente adequada) são fundamentais. Para jovens isso é ainda mais importante.
Clarice Gil Barreira Camargo, orientadora educacional da 3ª série do ensino médio do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, também diz que as redes sociais, considerando o medo de errar, devem ser olhadas com atenção, pois colocam uma pressão ainda maior nos meninos e meninas.
— Cria-se essa impressão de que é preciso “chegar lá”, existe uma pressão maior. Há esse receio de que o fracasso, o erro, ganham uma importância maior, porque são expostos, se espalham — conta. — Nas conversas que temos, é possível reconhecer que esse medo existe e dizer que tudo bem ele existir. É importante falar sobre esse sentimento e entender suas razões. Desse modo, é possível estabelecer vínculos para que o jovem tenha espaço para pensar como lidar com essa situação.
É importante ter em mente, diz Alexandre Calixto, diretor de esportes do Colégio Visconde de Porto Seguro, que o esporte nessa fase da vida não serve apenas para tornar-se uma prática competitiva de alta performance. Tomar coragem de experimentar esse tipo de atividade tão jovem pode ser a semente de um hábito cultivado para o resto da vida, com diversos impactos positivos.
— Esse processo permite que os alunos saiam da escola no ensino médio e possam, ao longo da vida, ir a uma praia jogar vôlei com os amigos, correr no parque, e outras atividades que não sejam apenas alta performance. Essa é a maior entrega que podemos fazer como escola, como área esportiva: despertar o gosto pela prática — conta.
Os benefícios de persistir no esporte, mesmo com medo, podem ser colhidos ainda na adolescência. É o que conta Sophia Joesting Simões, de 17 anos, aluna do 1° ano no Visconde de Porto Seguro. Desde que passou a dedicar-se ao handebol, ela conta que viu uma mudança global em sua vida. E isso só foi possível, segundo ela, após encarar o receio de errar em quadra, que antes de ser conversado com a mãe e treinadora chegava a paralisá-la em partidas.
— O esporte muda a rotina, o sono, a alimentação. Fiquei mais saudável mentalmente e fisicamente. Isso me ajudou muito, porque até minha disposição dentro da sala de aula mudou — conta ela, que treina em categorias de base da modalidade. — Minhas notas hoje são muito boas, meu comportamento também mudou.




