Seja pela maturidade dos 36 anos recém-completados, os dez anos de carreira batendo à porta, ou o quase um ano e meio em que está sóbria, desde que se internou em uma clínica de reabilitação em maio do ano passado, Linn da Quebrada mudou a visão que tinha sobre “esperança”. A cantora saiu da rejeição da palavra, para transformá-la em novo lema.
— Não gostava do termo, porque “esperança”, para mim, vinha de uma espera por algo acontecer e pronto. Mas, hoje, acredito que significa se encher de desejo. É uma espera para algo acontecer, mas que envolve começar algo. É uma paciência desesperada. E o trabalho fez isso comigo. Não sou de ficar olhando para trás, mas por conta dos dez anos de carreira, revisitei algumas coisas e fiquei emocionada ao perceber o quanto a minha arte é um presente, quantos lugares maravilhosos, bons encontros eu tive por causa dela — reflete Linn, em entrevista por videochamada com o EXTRA, enquanto passava um café.
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O pensamento combina com a missão que a artista assumiu neste sábado, dia 19. Às 19h, ela vai fazer o show de abertura do novo espaço da Queerioca, o primeiro centro cultural de referência LGBTQIAPN+ no Rio. A performance também acontece logo após a 5ª marcha trans e travesti. Linn ainda está preparando uma turnê comemorativa dos dez anos de carreira cantando “Pajubá”, álbum que a projetou nacionalmente. E tem desenvolvido um monólogo para o teatro, previsto para maio do ano que vem, com tom bem confessional.
— Estou me reconstruindo. Ainda é tudo muito recente pelo que passei. E estou olhando para o meu trabalho como se tudo fosse a primeira vez, o que está sendo incrível. É a primeira vez na vida que não estou me abandonando. O que me permite não abandonar minha comunidade. Eu sempre senti e assumi a responsabilidade pela representatividade, mas talvez isso tenha me assustado. Como eu poderia abraçar essa convocação se eu não dava conta de mim?
Linn da Quebrada fala de retomada da carreira
Gustta/Divulgação
Antes da última internação, Linn viu a vida ficar completamente exposta. De uma forma que não experimentou nem quando ficou confinada no “BBB 22”. Vídeos no ano passado foram compartilhados dizendo que a artista estava na Cracolândia, em São Paulo. Algo que ela negou pela região, mas falou abertamente mais tarde que estava sofrendo pelo abuso de substâncias químicas.
— A exposição me assustou bastante. Mas, ao olhar para aquilo hoje, sinto que era o meu pedido de socorro, mesmo não sabendo como pedir ajuda. Claro que atualmente tenho reconstruído essa sensação de intimidade comigo mesma. Tenho feito coisas para mim que não quero mostrar para ninguém. Até mesmo hobbies simples, sei lá, estou desenhando agora. Estou alimentando a criança que existe em mim e que eu ouvia chorar, sem saber como calar.
Linn da Quebrada participou do “BBB 22”
Instagram
Já entre o que tem mostrado, aos poucos, a nova era da artista dá às caras. No fim de junho, a paulistana lançou uma regravação de “Nuvem negra”, composição de Djavan, que já foi cantada por Gal Costa. No geral, a expressão fica mesmo só como título de música.
— Estou muito bem. As nuvens negras na vida são passageiras. E elas me convocam a olhar para lugares onde estava fragilizada, para o que precisa chover para passar. Fui adoecendo porque evitava olhar para as questões da minha vida. Hoje, o que não consigo resolver, eu peço ajuda, busco ferramentas. Ainda lido com muitas incertezas, mas estou mais confiante em mim. Tenho aprendido a brilhar no escuro. Isso me emociona.
O áudio de Fernanda Montenegro
Logo que foi internada numa clínica de reabilitação, Linn da Quebrada recebeu uma onda de apoio pessoalmente e nas redes sociais. Fernanda Montenegro, que contracenou com ela no filme “Vitória”, mandou um áudio, pelo Whatsapp, que emocionou:
Linn da Quebrada e Fernanda Montenegro em cena do filme “Vitória”
Divulgação
“Lina, querida, a gente tem que se conduzir na vida, tem que ter fôlego, tem que ter sonho. A vida é sonho. Então, se é sonho, a gente tem que realizar o sonho com o nosso fôlego! Acorda e canta, tá? Acorda você, põe a mão na sua alma e canta. Você é um ser muito bonito, uma artista, uma atriz. Seu trabalho é espetacular e nesse filme, queria ter a alegria de ter mais cenas com você. Estou te falando com coragem, te passando esse sentimento de acordar e cantar”, disse Fernanda Montenegro.
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O reencontro entre elas se deu quase um ano depois, em maio deste ano, no Festival LED, da Globo.
— Foi tão gostoso esse reencontro. Fernanda me deu um abraço, é muito carinhosa. Gosta muito de mim, e eu gosto muito dela mesmo. Ela demonstrou ter ficado realmente feliz pela minha recuperação — relembra Linn.
Fernanda Montenegro e Linn da Quebrada se reencontram nos bastidores do segundo dia do Festival LED Globo, edição Rio de Janeiro
Beatriz Damy/Rede Globo
O áudio, no entanto, ela não escuta sempre. A não ser que surja em algum vídeo enquanto ela rola a timeline. Mas ele evidenciou algo importante.
— O mais interessante deste áudio foi o que ele desencadeou. Eu só consegui me resgatar porque tiveram pessoas ao meu lado que não desistiram de mim. A gente vê muitas pessoas em situações de vulnerabilidade todos os dias, mas a gente se esquiva, porque a vida cotidiana quase nos obriga a isso. Mas tiveram pessoas que não desistiram de mim, quando eu queria que desistissem. Tive o áudio da dona Fernanda, que nos seus 96 anos, poderia estar fazendo qualquer outra coisa, mas me enviou aquela mensagem. Tive amigos que foram me visitar. E tanta gente rezando, orando, torcendo. Esbarrar nesse áudio é um lembre de que não posso me esquecer de mim.
Queerioca ocupa casarão em Centro histórico do Rio
A Queerioca agora ficará instalada na Rua da Quitanda, no Centro, do Rio. O espaço tem uma programação voltada para iniciativas LGBTQIAPN+, além de desenvolver ações sociais focadas aos grupos minoritários.
Queerioca ganha sede em novo casarão no Centro do Rio
Ana Alexandrino/Divulgação
— É o único centro cultural LGBTQIAPN+ no Rio. Ou seja, além de encontro, segurança e acolhimento, é um espaço que pensa e promove a cultura queer da nossa cidade. Ampliar nosso espaço com a nova sede é ampliar o alcance. E cultura é um motor poderosíssimo para quebrar preconceitos e mudar realidades — diz Laura Castro, atriz e gestora da Queerioca.
Além do show de Linn da Quebrada, a programação do dia 19 começa com um encontro de mães pela diversidade, às 11h, e a marcha trans terá início a partir das 16h. Entre as ações sociais, a partir das 11h, haverá retificação de nome e gênero, além de testagem de HIV para a população.
A sede da Queerioca também integra a programação da Semana de Arte do Rio, com outras atividades até o dia 26 de setembro. A programação completa está disponível no Instagram, @queerioca, e no site queerioca.com.br.
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Linn da Quebrada fala de retomada da carreira e relembra áudio de apoio de Fernanda Montenegro: 'Não posso me esquecer de mim'




