Ler, escrever e compreender o mundo


Todos guardamos alguma memória, ainda que sutil, de quem nos ensinou a ler e a escrever. Talvez seja uma lembrança quase apagada, uma mão segurando a nossa, uma letra torta no papel, uma palavra que demorou a nascer. Mas há conquistas que, mesmo antigas, continuam acontecendo dentro de nós. Aprender a ler é uma dessas coisas.

No começo, as letras são apenas letras. Depois aprendemos que elas podem se juntar e dizer alguma coisa. E então acontece o espanto: saímos à rua e descobrimos palavras onde antes havia apenas placas, anúncios, nomes. O mundo estava escrito e nós ainda não sabíamos. Até que passamos a saber.

E cada palavra reconhecida é como uma pequena janela que se abre. Aos poucos, aquilo que estava diante dos nossos olhos começa também a existir dentro de nós. Podemos ler o nome das coisas, escrever o nosso próprio nome, contar aquilo que pensamos, compreender aquilo que alguém deixou escrito.

É uma das primeiras grandes conquistas da vida: perceber que somos capazes de decifrar o mundo e, mais tarde, também de deixar nele as nossas próprias palavras.

Alfabetizar nunca foi apenas ensinar letras, sílabas ou palavras. Alfabetizar é abrir uma passagem. É dar a alguém a possibilidade de compreender melhor o mundo e de encontrar nele um lugar para a própria voz.

É por isso que o Dia Internacional da Alfabetização, celebrado em 8 de setembro, vai muito além de uma data no calendário. A celebração é uma oportunidade para reconhecer a importância da alfabetização e refletir sobre como esse processo vem se transformando diante das mudanças da sociedade.

 Cada criança tem seu próprio tempo

Para quem acompanha uma criança aprendendo a ler, essa transformação acontece diante dos olhos, dentro de casa e também na sala de aula. Fernanda Rocha, fotógrafa e mãe de três filhas, de 10, seis e quatro anos, vive novamente essa experiência com Maria Flor, de seis anos, enquanto lembra do caminho percorrido pela filha mais velha, Manu.

Ter passado pelo processo mais de uma vez fez Fernanda perceber que, embora a alfabetização esteja associada a uma determinada fase da infância, cada criança tem seu próprio tempo. Manu demonstrou interesse e facilidade muito cedo. Antes mesmo de chegar à idade convencional de alfabetização na escola, já sabia ler e escrever, estimulada também em casa.

Com Maria Flor, o caminho tem sido diferente. A menina está na fase de alfabetização e ainda não desenvolveu a leitura da maneira que gostaria. A escola utiliza uma metodologia que trabalha a partir dos sons, e a família tem aprendido a confiar nesse processo.

Maria Flor, no entanto, parece já saber exatamente onde quer chegar. Mesmo sem conseguir ler sozinha, passa boa parte do tempo com um livro nas mãos, tentando descobrir o que está escrito, fazendo perguntas e dizendo que quer entender as histórias.

A diferença entre as duas irmãs ensinou Fernanda a observar menos o calendário e mais a criança. Fernanda Rocha contou que Maria Flor é uma das mais novas da turma, fará sete anos no início do próximo ano, enquanto boa parte dos colegas já completou essa idade. Para a mãe, compreender essa diferença e respeitar o ritmo da filha também faz parte da alfabetização.

Essa percepção encontra eco na trajetória da professora Dione, que há 31 anos trabalha na educação e, durante 25 deles, esteve à frente de turmas de alfabetização. Ao longo da carreira, quase mil crianças e adultos passaram por suas mãos.

Mesmo depois de tantos anos, Dione Cristina não considera alfabetizar uma tarefa simples. Para ela, uma professora não sai da faculdade pronta para a tarefa. É necessário buscar formação complementar, estudar, ler e acumular experiência. Mas, antes de qualquer técnica, existe uma pergunta fundamental: quem é a criança que está sentada diante dela?

Conhecer a história do aluno, entender de onde ele vem e descobrir o que já sabe são, para a professora, pontos essenciais para que o aprendizado faça sentido. Afinal, uma criança não chega à escola sem conhecimento. Ela traz consigo experiências, palavras, histórias e diferentes formas de perceber o mundo.

Quando as letras começam a fazer sentido

A professora explanou que, na sala de aula, transformar essas experiências em conhecimento exige fazer a criança pensar sobre a própria língua. Quantas letras são necessárias para representar um som? Quantas partes sonoras existem em determinada palavra? Que palavras começam com determinada letra? São questionamentos que ajudam a criança a compreender, aos poucos, como funciona a escrita.

É nesse processo que, segundo Dione, o significado ganha importância. Para uma criança, uma letra precisa estar ligada a algo que faça parte do seu universo. O aprendizado acontece quando aquilo que está sendo ensinado consegue estabelecer uma conexão com a realidade que ela conhece.

“Mas as diferenças entre as crianças vão além do ritmo de aprendizagem. Dentro de uma mesma turma, há alunos que chegam tendo contato diário com livros, histórias e diferentes experiências culturais e outros que encontram no ambiente escolar seu principal contato com materiais de leitura”, explica a professora.

Por isso, a rotina da alfabetização também precisa considerar essas diferenças. Dione utiliza, entre outras estratégias, os chamados “agrupamentos produtivos”, colocando em interação crianças que estão em níveis próximos de desenvolvimento da escrita. Durante determinado período, elas trabalham juntas, aprendendo também umas com as outras, enquanto a professora acompanha e faz as intervenções necessárias.

A ideia é simples: uma criança muitas vezes consegue compreender a linguagem de outra criança com mais facilidade. E, nesse encontro, o aprendizado deixa de acontecer apenas entre professor e aluno e passa a acontecer também entre os próprios colegas.

Em casa, a fotógrafa Fernanda conta que procura construir um ambiente que estimule esse contato com a leitura. Os livros sempre fizeram parte da rotina das filhas. Antes mesmo de saberem decifrar as palavras, elas já ouviam histórias, observavam as ilustrações e acompanhavam os adultos durante os momentos de leitura.

Quando a filha mais velha, Manu, finalmente passou a ler sozinha, Fernanda percebeu uma mudança que considera marcante: a autonomia.

A criança passa a não depender mais de alguém para descobrir o que está escrito. Uma placa na rua ganha significado. O nome de um restaurante pode ser reconhecido. Uma embalagem no supermercado deixa de ser apenas uma imagem. Os letreiros que sempre estiveram ali passam, de repente, a dizer alguma coisa. É uma nova forma de pertencer ao mundo.

Fernanda detalha que Maria Flor ainda está justamente nessa fronteira. Ela não consegue ler tudo o que gostaria, mas já demonstra a curiosidade de quem percebe que existe algo escondido nas páginas dos livros, e quer descobrir.

Alfabetizar também é ensinar a pensar

Enquanto isso, existe outro universo disputando a atenção das crianças: o das telas. Na casa de Fernanda, o acesso é limitado. A televisão é compartilhada entre as irmãs e o YouTube aparece apenas ocasionalmente, sempre com acompanhamento. A escolha é deliberada. Para ela, a quantidade de informação disponível não significa necessariamente mais conhecimento.

À medida que as crianças crescem, o desafio passa a ser também ensinar a selecionar aquilo que merece atenção. Fernanda acredita que saber ler não pode significar apenas decifrar palavras. É preciso compreender o que está sendo lido, questionar e desenvolver capacidade crítica diante daquilo que chega até elas.

A filha mais velha já sabe, por exemplo, que pode recorrer ao Google ou à inteligência artificial para encontrar respostas. Mas a mãe tenta preservar um espaço para o raciocínio próprio. Em vez de simplesmente buscar uma resposta pronta, incentiva a filha a pesquisar, comparar diferentes fontes, encontrar informações em comum e construir sua própria conclusão.

Para Fernanda, essa é uma das grandes questões da educação atualmente. Informação nunca esteve tão disponível. O desafio está em saber o que fazer com ela.

Dione também vê a tecnologia como uma ferramenta que pode contribuir com a alfabetização. Jogos de letras, atividades digitais, leituras com animações e sons podem ajudar no desenvolvimento da consciência fonológica e estimular a reflexão sobre a língua. Mas existe uma condição: a tecnologia não pode ocupar o lugar da mediação humana.

Depois de mais de três décadas em sala de aula, a professora ainda acredita na força do livro de papel, no contato direto e na observação atenta de cada criança. Para ela, nenhuma plataforma digital, sozinha, consegue substituir a professora que percebe uma dúvida, identifica uma dificuldade ou encontra uma maneira diferente de explicar determinada palavra.

Uma criança que tenta descobrir o que está escrito em uma página. Uma mãe que percebe a ansiedade da filha para conseguir ler. Uma professora que muda uma estratégia porque entendeu que aquela criança precisa de outro caminho. E, finalmente, o instante em que uma palavra deixa de ser um conjunto de letras e passa a ter significado.

Para Dione, esse momento continua emocionante mesmo depois de tantos anos. Ela lembra das famílias que chegaram contando, quase como quem relata uma pequena descoberta extraordinária, que o filho havia conseguido ler o nome do prédio, da rua onde morava ou do supermercado.

“É sempre emocionante quando uma criança aprende a ler, pois é um mundo que se abre diante dela. Um mundo que ela não conhecia e que agora ela pode ter contato. As palavras estavam ali o tempo inteiro. A criança é que ainda não conseguia enxergá-las. Até aquele dia. Consegue imaginar a importância e o quanto é mágico esse momento?”, frisa Dione Cristina.

A professora destaca que alfabetizar é muito maior do que ensinar a ler e escrever. “Formar pessoas que respeitam as outras, o ambiente, os animais… pessoas que conheçam o mundo em que vivem, que sejam capazes, por meio do conhecimento, de avaliar uma mensagem como verdadeira ou falsa; de conviver com colegas diferentes e perceber que todos somos diferentes e igualmente importantes, em formar cidadãos de fato, conscientes e participativos na sociedade”.

A experiência de Dione dialoga com o pensamento do educador brasileiro Paulo Freire, um dos mais importantes nomes da educação no país. Ao falar sobre alfabetização, Freire defendia que aprender a ler não deveria se limitar à decodificação das palavras, mas estar relacionado à compreensão da realidade. Em sua reflexão sobre a leitura, sintetizou essa ideia na frase: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”.



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