'Laranjões' mudam paisagem e acumulam críticas no Rio

Quem circula pela cidade, principalmente a pé, já percebeu algo diferente nas ruas. A bem da verdade, nas calçadas. São lixeiras gigantes na cor laranja, que não passam despercebidas. Os contêineres de 1.200 litros — alguns bem próximos uns dos outros — mudaram até mesmo a paisagem da orla. Em Copacabana, enquanto os na Avenida Atlântica estão novinhos, aqueles que ficam nas ruas internas provocam insatisfação entre moradores e comerciantes: estão enferrujados, sujos, malcheirosos, com lixo transbordado e atraem catadores, que remexem os detritos e deixam parte no chão. A Comlurb já instalou 15 mil dessas caçambas em todas as regiões e promete mais 20 mil até o fim do ano.
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Há cerca de 25 quilômetros da Zona Sul, ao passar na semana passada pela Rua Santa Basilissa, na Penha, o geógrafo Hugo Costa não encontrou mais o “laranjão” colocado no canto da pista, logo após a curva de quem sai da Rua Leopoldina Rego. Ele foi informado por um guardador de carros que, há alguns dias, a lixeira foi “atropelada” por um caminhão, sendo os pedaços removidos pela Comlurb.
— A da Santa Basilissa ficava numa ladeira. Dava medo até de que sairia andando sozinha. Parece que ocupam calçadas e pistas ignorando boas práticas urbanísticas — reclama Costa. — Queriam evitar sacos rasgados e lixo espalhado pelas ruas, o que usuários de drogas faziam diariamente em Ramos, por exemplo. Agora, esses usuários entram na caçamba, tiram o lixo e rasgam da mesma maneira.
Segundo a Comlurb, a escolha dos pontos para a colocação dos tais contêineres de alta capacidade obedece a “critérios técnicos consolidados, como classificação viária, fluxo de pedestres, volume de geração de resíduos, presença de áreas turísticas e locais de alta visibilidade”.
Mas o modelo dos futuros coletores deve ser outro. Sem dar detalhes, a companhia municipal informa que a nova solução, em fase de implementação, está “alinhada às melhores práticas internacionais, já consolidadas em cidades como Barcelona e Buenos Aires”. Para áreas icônicas e de valor simbólico da cidade, existem estudos para mudar a cor, de laranja para cinza, reduzindo o impacto visual.
Cofre e cachorro morto
O fato é que os “laranjões” viraram alvo de reclamações que lotam as redes sociais de associações de moradores e de seus dirigentes. O mau uso, a falta de fiscalização para evitar descarte irregular e até o modelo são criticados, embora haja quem defenda a instalação de contêineres, desde que levando em consideração determinadas regras.
Para o presidente da Sociedade Amigos de Copacabana, Horácio Magalhães, embora a ideia seja interessante, os coletores não são adequados para colocar em qualquer lugar:
— Tivemos um caso na Nossa Senhora de Copacabana em que a calçada era estreita e o coletor ficava bem na frente no prédio. A síndica reclamava do mau cheiro, do barulho. Esse contêiner é muito pesado e, quando está cheio, o manuseio é complicado e barulhento, principalmente se a coleta ocorre de madrugada. Há reclamação de mau cheiro, porque a limpeza é muito difícil e sempre fica resíduo. É preciso lavar com pipa d’água, mas o chorume fica no chão.
Como exemplo de mau uso, Magalhães cita comerciantes flagrados jogando seu lixo dentro desse coletor. E ainda o corpo de um cachorro morto, encontrado num desses equipamentos na Rua Dias da Rocha. Já o objeto mais inusitado encontrado pela Comlurb foi um cofre de ferro velho, de 200 quilos, jogado numa lixeira em Botafogo.
A despeito das críticas, a companhia municipal contabiliza ganhos com o novo sistema. Afirma que os “laranjões”, somados aos 110 ecopontos — locais de entrega de resíduos junto a comunidades —, reduziram em 28% o lixo jogado nas ruas da cidade, o equivalente a 2.200 toneladas por dia.
Nos contêineres está escrito que ali é para ser depositado apenas lixo e não entulho. A Comlurb explica que o lixo domiciliar pode ser colocado neles, desde que ensacado, além de embalagens. No entanto, não informa se aplicou multas por descarte irregular.
Uma equipe do EXTRA percorreu ruas da Zona Sul, do Centro e da Zona Norte. Foi fácil flagrar “laranjões” superlotados, com lixo fora de sacos, entulho, pedaços de móveis, colchões e travesseiros, entre outros objetos que deveriam ser descartados por meio do serviço gratuito oferecido pela Comlurb. Quando o material não cabe, é largado do lado de fora da caçamba.
Difícil também, ao longo do trajeto, foi encontrar lixeiras tampadas. Embora possam ser fechadas, é necessário puxar manualmente as duas tampas que ficam penduradas na lateral. Ao longo da Rua do Riachuelo, no Centro, por exemplo, nenhum dos 20 contêineres estava coberto.
Em Botafogo, Robson Guilherme, gerente do Bar Bukowski, lembra que, antes do “laranjão”, o “depósito” era no chão, na Rua Álvaro Ramos em frente à Travessa Dona Marciana. Agora, é no contêiner e ao lado dele:
— Se não botassem entulho, não lotava tanto. Também não passam para recolher todos os dias o lixo, o que agrava a situação.
Presidente da Associação de Moradores de Botafogo, Regina Chiarádia não é contra os contêineres, desde que voltem as lixeiras de poste — as “laranjinhas” —, que hoje são raras.
— As pessoas não entenderam que o lixo deve ser colocados nos “laranjões” apenas no dia que vai ter coleta. Jogam lixo o dia inteiro, e eles não dão conta — afirma.
Em Ipanema, a presidente da associação de moradores (Amipanema), Maria Amélia Loureiro, ressalta que tais coletores não são apropriados para ruas internas do bairro, sobretudo na cor laranja, mas sim para praças, parques e locais onde haja eventos, como feiras livres. Na orla, onde já são colocados, acrescenta, devem ser inseridos na medida certa, para não cair no exagero ou na escassez.
— É muito importante ter atenção e cuidados para não interferir na bela paisagem.
Educação ambiental
Em Barcelona, um exemplo que o Rio quer seguir, como há foco na reciclagem, existem contêineres coloridos para vidro, papel, plástico e material orgânico. Boa parte dos bairros tem um sistema enterrado: neste caso, ou é usado um guindaste para içar as caixas; ou os resíduos são sugados por tubulações subterrâneas até centrais de triagem.
Buenos Aires também tem contêineres para lixo comum e recicláveis nas ruas. Algumas lixeiras têm sensores que informam se estão cheias. Elas são içadas para caminhões, permitindo que o lugar onde estão seja higienizado.
Diretor técnico da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), Antônio Januzzi explica que a conteinerização de lixo é uma tendência mundial, sendo a principal vantagem permitir que o descarte possa ser feito ao longo do dia e não em determinados horários. Para ele, um modelo como o de Barcelona é caro e difícil de ser implantado. Mas alerta para questões importantes a serem observadas:
— A primeira é a educação ambiental. As pessoas precisam aprender o papel importante de colocar o resíduo adequado em cada lugar. Outro ponto essencial é a manutenção dos contêineres, tanto quanto à higienização quanto à conservação. E tem o dimensionamento correto das lixeiras para cada local.



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