Irmãs Raquel e Rafaela Silva revivem a infância no tatame do Reação: 'Ela manda, e eu obedeço', diz campeã olímpica

As irmãs Rafaela Silva, de 33 anos, e Raquel, de 36, sempre foram muito unidas. Começaram a praticar judô juntas na infância, no Instituto Reação, projeto social então recém-inaugurado na Rocinha, onde moravam com os pais. Luiz Carlos, entregador de comida, e Zenilda, caixa de supermercado, trabalhavam o dia todo e precisavam de atividades que as ocupassem além da escola. Naquela época, Raquel tinha que cuidar da caçula também fora do tatame. O trabalho era árduo.
— A gente brigava por tudo, normal. Uma pegava a roupa da outra, era beliscão, discussão. Rafaela aprontava demais — lembra Raquel, hoje treinadora-chefe da equipe feminina da ONG que virou referência em judô. — Mas agora sou a autoridade no tatame também.
Campeã olímpica e bicampeã mundial, Rafaela anunciou seu retorno ao Reação no início de fevereiro, após defender o Flamengo por cinco anos. Passou a ser treinada pela irmã mais velha, que pode “pegar no pé” dela sem ser contestada. Mas as duas garantem que o relacionamento é de respeito, confiança e intimidade. Ambas se sentem confortáveis em seus papéis atuais, mesmo com “armadilhas”.
Rafaela é mais graduada que a irmã: alcançou o 6º Dan. Os dez Dans são os graus subsequentes da faixa preta, e é exatamente no 6º que o judoca se torna um kodansha (Mestre de Grau Superior) e passa a usar a faixa coral (vermelha e branca), penúltima da hierarquia. Raquel é faixa preta 3º Dan.
— Eu era uma criança bem agitada em relação ao respeito. O judô me moldou. Quando entro no tatame, sei meu lugar. Sou mais graduada que a Raquel, mas no tatame ela é minha treinadora, e eu sou a aluna — diz Rafaela, que tem de se policiar para não usar apelidos. — Evito chamá-la de Diro, pois ela é autoridade. Mas ela manda mensagem me chamando de Kiranda.
As duas se chamam assim desde a infância, mas não sabem explicar o motivo. Embora possam parecer carinhosos, os codinomes são mais usados na hora do “pega pra capar” — e geralmente em recados no celular. Rafaela costuma responder com uma figurinha em que se lê “vou até orar”, porque sabe que “vem bomba”.
— Quando vem escrito Diro, já sei que vem alguma coisa nada carinhosa — concorda Raquel. — E eu a chamo mais de Kiranda do que ela me chama de Diro. Sou sensei, e ela não pode me chamar por apelido, tem de me respeitar como treinadora. Eu é que esqueço.
Para evitar que outros judocas pensem que Rafaela é favorecida, a cobrança de Raquel é maior com a irmã. E a caçula não acha ruim:
— Ela não dá mole, mas não é chata. É insuportável (risos). Fala que está mandando, e eu respondo: “sim, senhora”. Sempre foi assim, tentava ser esperta, mas ela sempre foi mandona.
Invicta em 2026
A relação profissional das duas está dando mais que certo: Rafaela está invicta este ano. Foi ouro no Grand Slam de Paris, em fevereiro, e no Grand Prix da Áustria, no início do mês. Após os Jogos de Paris-2024, a judoca subiu dos 57kg, quando estava em quarto no ranking mundial, para começar do zero nos 63kg. O início não foi fácil. Como não tinha pontos no ranking, ficava “solta” na chave das competições e pegava rivais fortes. Não avançava.
A primeira medalha veio em abril de 2025, o bronze no Pan-Americano. E a virada aconteceu em maio, com o bronze no Grand Slam do Cazaquistão, importante para a convocação ao Campeonato Mundial (ficou em quinto). Depois deste torneio, Rafaela disputou medalha em todas as competições de que participou. A próxima será na quarta-feira: a seletiva nacional para o Pan-Americano, que acontece em abril, no Panamá.
Quase dois anos depois da mudança de categoria, a judoca afirma que ainda está em adaptação, pois o estilo de luta é bem diferente, segundo ela. Nos 57kg, Rafaela era uma das atletas mais altas (1,68m), o que lhe dava “leve vantagem”. Agora, não mais. Outra mudança é curiosa: antes, a maioria era destra. Nos 63kg, canhota.
— A estratégia é completamente diferente. E tem ainda o trabalho físico. Ganhei massa muscular. Mas ainda não consegui treinar, pegar no quimono da maioria das meninas da categoria — admite Rafaela.



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