Nos quase 150 milhões de quilômetros quadrados da superfície terrestre onde é possível caminhar, existem pessoas que simplesmente não desejam ser vistas. O isolamento é a marca delas. Conheça abaixo algumas tribos que se mantêm isoladas do mundo e dispensam qualquer contato com a sociedade. Relatório produzido pela organização de direitos humanos Survival International identificou 196 povos e grupos isolados distribuídos em dez países e fez um alerta de que quase metade deles (90) corre o risco de serem dizimados nos próximos dez anos.
Mashco Piro
Mashco Piro sentados na beira de um rio perto do Parque Nacional Manú, Peru, em 2011
Reprodução/Survival International
Os Mashco Piro são um povo isolado da Floresta Amazônica, localizado em território peruano.
O pesquisador e escritor Paul Rosolie é um dos poucos que teve contato com o grupo e compartilhou um pouco da sua experiência com o jornal “New York Post”.
Segundo ele, o contato inicial ocorreu sem problemas:
“Estávamos do outro lado do rio, e as pessoas saíram da floresta. Eles saíram nus, com os pênis enrolados. Estavam muito curiosos. Eu levantei as mãos para eles, eles levantaram as mãos para mim e começaram a cantar. Um dos meus amigos deu bananas a eles.”
Paul é fundador do grupo Junglekeepers (Protetores da Floresta, em tradução livre), que trabalha para preservar habitats ameaçados na Amazônia peruana.
O pesquisador observou que aquele foi o primeiro contato da tribo com pessoas de fora.
A receptividade, no entanto, mudou no dia seguinte. O amigo que levou bananas foi atingido por uma flecha e quase morreu.
“A flecha atravessou a escápula, saiu perto do umbigo e quase o matou”, disse Paul.
É possível que nem saibam que a água ferva ou congele
Apesar dos encontros violentos, o grupo aprendeu informações valiosas sobre os Mashco Piro.
Grupo Mashco Piro em aparição rara no Rio Las Pedras em Madre de Dios, no Peru
Reprodução/Survival International
Paul acredita que seu grupo foi abordado pelos Mashco Piro — e não o contrário:
“Eles são nômades, ou seja, não têm moradia física. Sabemos que se alimentam principalmente de macacos e tartarugas. Não fervem a água porque não têm panelas. É possível que nem saibam que a água ferva ou congele, já que vivem nos trópicos. E provavelmente não sabem que existem lugares que não se parecem com a selva.”
Sentineleses
Sentineleses tentam afugentar forasteiros
Reprodução/Instagram
A tribo dos Sentineleses é considerada “a mais perigosa do mundo”. Eles habitam a Ilha Sentinela do Norte, parte das ilhas Andaman e Nicobar, há mais de 60 mil anos, praticamente sem contato com a “civilização”.
Em 2018, o missionário americano John Chau foi morto ao tentar impor a sua religião ao grupo.
“Acreditamos que eles sejam o povo mais isolado do planeta.” A declaração é de Fiona Watson, diretora de pesquisa da organização inglesa Survival International, que apoia os direitos de povos indígenas.
Membro dos Sentineleses ameaça helicóptero que sobrevoa sua ilha no Índico
AFP
Missionário americano John Allen Chau foi morto pelos Sentineleses em 2018
Reprodução
Segundo a professora, o grupo expressa a vontade de permanecer isolado em seu espaço de várias maneiras:
“Podem deixar flechas cruzadas nas trilhas de caça. Podem atirar flechas contra helicópteros e aviões que sobrevoam a área. Eles vivem de forma completamente autossuficiente em seus territórios e deixaram muito claro que não querem contato.”
Acredita-se que o missionário foi morto porque, um dia depois de uma recepção nada calorosa, decidiu voltar à ilha, e nunca mais foi visto.
Mykhailo Viktorovych Polyakov é influencer de viagens
Reprodução
No ano passado, o americano de origem ucraniana Mykhailo Polyakov também invadiu o espaço dos Sentineleses e foi preso por autoridades indianas, em Port Blair, depois de deixar uma lata de Coca-Cola e cocos como “oferenda” aos nativos.
Yaifo
Benedict Allen com membros do povo Yaifo
Reprodução
A tribo dos Yaifo reside em uma parte remota de Papua-Nova Guiné.
Há cerca de 40 anos, o escritor e explorador britânico Benedict Allen relatou, por meio de seu agente, o que pode ter sido o primeiro contato com o grupo. Ele afirmou que a população era adepta do uso das cabeças dos guerreiros inimigos, derrotados em batalhas, como troféus.
Cabeças-troféu são remanescentes humanos (crânios ou cabeças mumificadas) tomados como troféus de guerra ou símbolos de poder por diversas culturas, com destaque histórico para povos andinos (Nazca) e indígenas amazônicos, como os Munduruku. Eram preparadas, secas e exibidas em rituais para demonstrar superioridade sobre o inimigo.
Benedict passou por um ritual de iniciação na tribo e a descreveu como “tão dura quanto qualquer outra no planeta”.
A pesquisadora Fiona Watson enfatiza que os Yaifo, assim como as demais tribos, têm tudo o que precisam exatamente onde vivem — em estado de isolamento.
“Enquanto a floresta estiver protegida e de pé”, disse ela, “essas pessoas podem viver de forma suficiente e independente”, completou.
Kawahiva
Tapiris abandonados por kawahivas, no interior da terra indígena de Mato Grosso, com redes, cestos e restos de alimentos deixados para trás
Reprodução/Funai
A tribo Kawahiva reside na região do Mato Grosso (Brasil) e possui aproximadamente 50 pessoas no grupo. Em entrevista ao “NY Post”, a professora Fiona também comentou sobre essa população com base em fotos de satélite fornecidas pelo governo brasileiro:
“Eles são incrivelmente autossuficientes. Mudam-se com frequência e montam acampamentos temporários. Fazem cestos de pesca, que servem como armadilhas para capturar peixes. Produzem redes usando lianas (cipós lenhosos enraizados no solo). Enquanto a floresta estiver protegida e de pé, conseguem viver de forma suficiente.”
Ayoreo
Moradia típica da tribo Ayoreo
Reprodução/Survival International
A tribo Ayoreo reside na região do Gran Chaco, que se estende pelo Paraguai e pela Bolívia. Entre as décadas de 1960 e 1980, missionários tentaram converter o grupo e, segundo a organização Survival International, causaram uma epidemia com doenças do mundo exterior.
Alguns membros da tribo conseguiram evitar os missionários e permanecer sem contato. Hoje, os sobreviventes tentam se integrar parcialmente à sociedade.
“Eles vão à cidade e à capital (do Paraguai) para reivindicar os direitos de seus parentes não contatados”, comentou Fiona Watson, observando que as terras da tribo estão sendo desmatadas para a criação de gado.
Hongana Manyawa
O valor das terras tribais também é um problema para os Hongana Manyawa, na Indonésia. A tribo tem o “azar” de viver sobre terras ricas em níquel.
Segundo a pesquisadora Fiona, a mineração de níquel “está penetrando cada vez mais fundo na floresta deles e a população está sendo expulsa das terras de forma gradual”.
Korowai
Membro da tribo Korowai
Reprodução/Wikipedia
A tribo Korowai, também de Papua-Nova Guiné, mantém contato limitado com o mundo exterior, vivendo em casas construídas no topo das árvores.
Eles preservaram suas tradições, que incluem métodos únicos de cura e a separação entre homens e mulheres. Ainda assim, tiveram alguns contatos pacíficos com o governo da Nova Guiné, que tentou introduzir um programa de saúde.
(*) Estagiário sob supervisão de Fernando Moreira
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