Fazer mais exames nem sempre significa prevenir melhor, alerta médico

Exames anuais, painéis com dezenas de marcadores e procedimentos de imagem realizados mesmo sem sintomas costumam transmitir uma sensação de segurança. A ideia de procurar qualquer alteração antes que ela se transforme em um problema parece lógica. Mas, na medicina, fazer mais nem sempre significa prevenir melhor.
A prevenção depende de fatores como idade, histórico familiar, hábitos, condições de saúde e exposição a riscos específicos. Fora desse contexto, um exame pode identificar alterações sem importância clínica, produzir resultados falso-positivos e abrir caminho para novas investigações que talvez não fossem necessárias.
Médico de Família e Comunidade, professor e gestor público, Roberto Rangel explica que a medicina preventiva não deve ser entendida como uma lista fixa de exames.
“A lógica da prevenção não é procurar tudo em todas as pessoas. É identificar o que precisa ser avaliado em cada fase da vida e de acordo com o risco de cada paciente. Isso exige critério, evidência e acompanhamento”, afirma.
O assunto ganhou espaço em agosto, mês em que é celebrado o Dia Nacional da Saúde, diante de um cenário de avanço das doenças crônicas no Brasil. Dados do Vigitel mostram que a proporção de adultos que relatam diagnóstico de diabetes passou de 5,5%, em 2006, para 12,9%, em 2024. No mesmo período, a hipertensão avançou de 22,6% para 29,7%, enquanto a obesidade subiu de 11,8% para 25,7%.
Os números não significam apenas que mais pessoas adoeceram. A ampliação do acesso ao diagnóstico e o envelhecimento da população também interferem nos resultados. Ainda assim, a tendência reforça a necessidade de identificar riscos, acompanhar quem já possui alguma condição crônica e evitar complicações.
Prevenção, rastreamento e diagnóstico não são a mesma coisa
Embora sejam frequentemente usados como sinônimos, prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce representam estratégias diferentes.
A prevenção reúne medidas destinadas a reduzir a possibilidade de uma doença ou de suas complicações. Vacinação, alimentação adequada, atividade física, redução do consumo de álcool, combate ao tabagismo e controle da pressão arterial estão entre elas.
O rastreamento consiste na realização de determinados exames em pessoas que não apresentam sintomas, mas pertencem a grupos nos quais aquela investigação oferece mais benefícios do que riscos. A indicação pode considerar idade, sexo, antecedentes familiares e outras características.
Já o diagnóstico precoce ocorre quando sinais ou sintomas são investigados em tempo oportuno, aumentando a possibilidade de iniciar o tratamento em estágios menos avançados.
“Uma pessoa sem sintomas, outra que apresenta um sinal de alerta e uma terceira que já possui uma doença crônica não precisam do mesmo tipo de avaliação. Quando essas situações são tratadas da mesma maneira, existe o risco tanto de investigar em excesso quanto de deixar passar o que realmente importa”, explica Rangel.
As recomendações para rastreamento são definidas a partir do equilíbrio entre benefícios e possíveis danos. No caso do câncer de mama, por exemplo, o Instituto Nacional de Câncer destaca que a mamografia pode contribuir para a redução da mortalidade quando realizada na população e na periodicidade recomendadas.
Ao mesmo tempo, o instituto alerta para riscos como falsos positivos, que podem gerar ansiedade e novos exames; falsos negativos, capazes de produzir uma falsa sensação de segurança; e sobrediagnóstico, quando é identificada uma alteração que não ameaçaria a vida da paciente, mas pode resultar em tratamentos desnecessários.
Quando o excesso também provoca danos
Um resultado alterado não representa necessariamente uma doença. Os valores de referência utilizados pelos laboratórios indicam faixas observadas na maior parte de uma população, mas precisam ser interpretados junto com o histórico e o estado clínico do paciente.
Quanto maior o número de exames feitos sem indicação, maior também pode ser a possibilidade de aparecer alguma alteração isolada. Isso pode levar à repetição de testes, consultas com diferentes especialistas e procedimentos invasivos.
O problema não está no exame em si, mas na sua utilização fora de um contexto clínico.
“É natural que as pessoas procurem segurança, mas nenhum conjunto de exames consegue eliminar todos os riscos. Um resultado normal não substitui o acompanhamento, assim como uma alteração isolada nem sempre confirma uma doença”, ressalta Roberto Rangel.
Isso não significa adiar consultas ou deixar de investigar sintomas. Alterações persistentes, mudanças no funcionamento do organismo e sinais que preocupem o paciente devem ser avaliados por um profissional. A diferença está em realizar essa investigação de forma orientada.
Doenças silenciosas exigem acompanhamento
A hipertensão e o diabetes ajudam a explicar por que a ausência de sintomas não deve ser confundida com ausência de risco. As duas condições podem evoluir por anos sem sinais claros e provocar complicações cardiovasculares, renais, neurológicas e oftalmológicas.
Nesse caso, exames e medições têm papel importante, mas precisam estar associados à avaliação dos fatores de risco e à continuidade do cuidado. Uma medida alterada da pressão arterial, por exemplo, pode precisar de confirmação. Um resultado de glicemia também deve ser interpretado considerando o histórico e outros critérios clínicos.
Depois do diagnóstico, o trabalho continua. É necessário verificar a resposta ao tratamento, o uso correto dos medicamentos, a alimentação, a prática de atividade física e as dificuldades que cada paciente enfrenta para seguir as recomendações.
“Prescrever é apenas uma parte do cuidado. Se a pessoa não compreende o tratamento, não consegue acessar o medicamento ou não tem condições de modificar determinados hábitos, o plano pode não funcionar. O acompanhamento permite reconhecer essas barreiras e buscar alternativas possíveis”, diz Rangel.
O papel da atenção primária
É na atenção primária que boa parte desse acompanhamento deve acontecer. Ela reúne ações de promoção da saúde, vacinação, prevenção, diagnóstico, tratamento e controle de doenças crônicas. Também é responsável por encaminhar o paciente para outros serviços quando há necessidade de avaliação especializada.
Segundo o balanço mais recente do Ministério da Saúde, o Brasil encerrou 2025 com 60,4 mil equipes de Saúde da Família e de Atenção Primária, número 15% maior que o registrado em 2022. O país também contava com 277,4 mil agentes comunitários de saúde.
Para Roberto Rangel, a principal contribuição desse modelo está na possibilidade de conhecer a trajetória do paciente, em vez de observar apenas episódios isolados.
“Uma consulta ou um exame oferece informações daquele momento. O acompanhamento permite comparar, perceber mudanças e organizar o cuidado ao longo do tempo. Prevenção depende dessa continuidade”, afirma.



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