Fábio faz 46 anos em alto nível como ídolo do Fluminense e desafia os limites da longevidade


O recordista de partidas no futebol mundial, o jogador mais velho a entrar em campo na Libertadores… a longevidade de Fábio entrou definitivamente para a história. Mas, além da carreira “interminável”, impressiona o nível técnico de um goleiro que completa hoje 46 anos como um bom e velho vinho. A decisão do Cruzeiro, em 2022, de abrir mão do arqueiro, fez o Fluminense contar com um atleta que desafia a própria lógica do esporte e dá sinais, dentro e fora do campo, de que não existe limite para quem ainda parece ter muita lenha a queimar.

É acreditando justamente no futuro que a diretoria optou por renovar com Fábio até dezembro de 2027. Seria uma decisão questionável por conta da idade avançada, mas os tricolores que acompanharam a trajetória do ídolo no clube só viram motivos para comemorar a extensão do vínculo. Afinal, trata-se de um jogador que definitivamente honra os compromissos assumidos. Pelo que ele vem apresentando, essa história tem tudo para ganhar novos capítulos com o time na semifinal da Libertadores.

— O Fábio de 20 anos atrás tinha características diferentes das de hoje. Quando trabalhei com ele, já demonstrava muitos recursos técnicos, força, explosão e uma ótima capacidade de leitura. Hoje, além dessas qualidades, ele conta com toda a experiência acumulada ao longo dos anos. Isso permite compensar algumas mudanças naturais da idade com posicionamento, antecipação e tomada de decisão, chegando antes à bola sem precisar ser necessariamente mais rápido — destaca Cassius Hartmann, preparador de goleiros e hoje treinador principal do Metropolitano-SC, ao GLOBO.

Fábio, do Fluminense, em treino na véspera do duelo com a Chapecoense, pelo Campeonato Brasileiro — Foto: Lucas Merçon / Fluminense

Hartmann foi o responsável por indicar Fábio ao Cruzeiro, em 2005, clube pelo qual é ídolo. O profissional também trabalhou com outros jogadores da posição que ultrapassaram os 40 anos, como Fernando Prass (ex-Vasco e Palmeiras) e Harlei (ex-Goiás), que caíram de rendimento na reta final da carreira por conta de lesões.

Não é o caso de Fábio. No ano passado, atuou em 74 jogos pelo Fluminense, que foi semifinalista da inédita Copa do Mundo de Clubes. Nesta temporada, já são 50 partidas, com atuações que seguem um padrão: o alto nível. Não bastassem o destaque no título da Libertadores de 2023 e os milagres operados para salvar a equipe do rebaixamento no Campeonato Brasileiro de 2024, a atual campanha no torneio continental é mais uma demonstração da sua genialidade.

A máxima de que os grandes jogadores crescem justamente nos momentos decisivos serve perfeitamente para Fábio. Nas oitavas de final contra o Independiente Rivadavia-ARG, o goleiro não só deu conta do recado com a bola rolando, como também se tornou o herói da classificação ao defender duas cobranças na disputa de pênaltis. Diante do Platense-ARG, nas quartas de final, lá estava ele novamente para fechar o gol quando o cenário era adverso.

Fábio foi o herói da classificação do Fluminense às quartas de final — Foto: Andres LARROVERE / AFP
Fábio foi o herói da classificação do Fluminense às quartas de final — Foto: Andres LARROVERE / AFP

A liderança de Fábio não é só técnica. Com quase 30 anos de carreira profissional — estreou no União Bandeirante-PR, em 1997 —, ele carrega uma bagagem que o tornou uma das vozes da experiência no vestiário. Prova disso é que sempre incentiva os companheiros com palavras de motivação nas preleções antes da entrada em campo.

Essa seriedade é acompanhada de um jogador extrovertido e brincalhão atrás das câmeras. Mas o seu diferencial é que sabe exatamente quando precisa levar o profissionalismo à risca. Perto de completar cinco anos de Fluminense, ainda há pessoas de dentro do clube que ficam chocadas com a sua dedicação no dia a dia e até brincam com o fato de querer atuar em todos os jogos possíveis na temporada. Fábio é um dos primeiros a chegar aos treinamentos e um dos últimos a deixar o CT Carlos Castilho.

— Já trabalhei com outros atletas que, ao chegarem a certa idade, por diversos motivos, já não têm mais esse entusiasmo. Ir para o campo se torna algo pesado, quase um sacrifício. Ele melhorou muito, tem maior protagonismo na saída de bola e deixa o gol cada vez “menor” — elogia Flavio Tenius, coordenador técnico da preparação de goleiros do tricolor.

Diante de raríssimas lesões, Cassius trata Fábio como “geneticamente diferenciado” por resistir à rotina de “cair e levantar” embaixo da trave. Não à toa, é difícil lembrar a última vez que o goleiro se machucou pelo Fluminense. Na goleada por 7 a 0 sobre o Volta Redonda pela semifinal do Campeonato Carioca de 2023, sofreu um corte profundo na altura da boca após dividida e precisou ser substituído. Apesar disso, o veterano levou apenas pontos no local e se recuperou rapidamente.

Desde então, o contato com o departamento médico é praticamente nulo. Isso não quer dizer que Fábio deixe de passar pelos cuidados físicos necessários. Pelo contrário, conta com esse acompanhamento para prevenir lesões. Levando o histórico do atleta em consideração, o Fluminense trata com cautela a passagem de bastão do veterano. Os reservas são Vitor Eudes, de 27 anos, e o Moleque de Xerém Marcelo Pitaluga, de 23, que teve passagem pela base do Liverpool-ING. No fim de 2024, o tricolor desistiu de contratar Lucas Arcanjo, do Vitória.

— Com um goleiro mais experiente, a preparação tende a ser cada vez mais individualizada, principalmente porque você conhece bem as características, o histórico e as necessidades do atleta. Isso não significa necessariamente treinar mais, mas treinar melhor e com mais precisão, controlando volume, intensidade, recuperação e os diferentes estímulos utilizados. Hoje, a tecnologia ajuda muito nesse processo, assim como a atenção especial à prevenção de lesões, mobilidade, força e recuperação desses atletas mais experientes — diz Cassius.

Se é um exemplo de sucesso da longevidade no futebol, Fábio também se apega à fé, sempre exposta em suas comemorações e entrevistas, para que ela interceda dentro e fora de campo. Agora, aos 46 anos, ele é praticamente uma prova de que milagres existem. Resta ver o que eles reservam ao goleiro do Fluminense nesta reta final e nas próximas temporadas. Afinal, o futuro a Deus pertence.



Source link

- Advertisement -spot_img

More From UrbanEdge

Ausência de Arrascaeta vira um grande problema para o Flamengo

Ortopedistas que consultei dizem que o...

veja mansão de Susana Werner que não será vendida em Portugal

Foi nessa mansão que Julio comemorou...

‘Estou bem e pronta para continuar vivendo’

A central Carolana, medalhista...
- Advertisement -spot_img