Execução por fuzilamento pode ser 'prolongado espetáculo de tortura', dizem especialistas

A execução de Nidal Hasan, um ex-major do Exército americano que massacrou 13 pessoas numa base militar no Texas, programada para 3 de dezembro — e que poderia ser transmitida publicamente, segundo o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth — pode se transformar num “prolongado espetáculo de tortura”, de acordo com especialistas.
Em vez de morte instantânea, Hasan pode morrer de hemorragia diante de milhões de pessoas caso as balas não atinjam seu coração.
Nidal Hasan matou três militares em base militar do Texas em 2009
AFP
Especialistas em pena de morte expuseram a realidade aterrorizante dos fuzilamentos, alertando que balas fora do alvo, disparos malfeitos e falhas humanas podem submeter os prisioneiros a uma morte agonizante.
A polêmica surge poucos dias depois de a condenada Christa Pike, de 50 anos, ter sobrevivido a duas doses de injeção letal no Tennessee, que alimentou a discussão sobre a crueldade dos métodos usados para a aplicação da pena capital nos EUA. A possibilidade de transmissão de uma execução desencadeou uma intensa discussão sobre se os EUA estariam levando a pena capital de volta à sua era mais sombria.
Condenada à pena de morte, Christa Pike sobreviveu a duas injeções letais; estado americano cancelou outra execução após episódio
Tennessee Department of Correction/AFP
Maya Foa, uma importante pesquisadora sobre pena de morte da organização Reprieve, afirmou ao “Sun” que o fuzilamento é uma “execução extremamente brutal e sangrenta por sua própria natureza”.
“Se as balas não atingirem o coração, a situação pode ser extraordinariamente brutal, e o prisioneiro pode sofrer uma morte extremamente prolongada e agonizante. No caso de um pelotão de fuzilamento, a brutalidade é explícita”, acrescentou ela.
Os riscos ficaram evidentes em abril do ano passado, quando o assassino Mikal Deen Mahdi foi executado por fuzilamento na Carolina do Sul. Três atiradores receberam instruções para disparar contra um alvo posicionado sobre o coração dele.
Contudo, uma autópsia posterior identificou apenas dois ferimentos de entrada, sendo que nenhum deles atingiu o órgão pretendido.
Em vez disso, as balas perfuraram o fígado e outros órgãos internos, levantando receios de que ele tenha permanecido consciente enquanto morria de hemorragia.
“O caso mais recente é particularmente ilustrativo”, destacou Maya. “Especialistas acreditam que ele morreu de hemorragia, em vez de morrer instantaneamente, o que resultou em uma execução prolongada e torturante”, emendou ela.
A execução desencadeou uma disputa acalorada sobre se os atiradores haviam errado o alvo, se suas armas haviam falhado ou se duas balas haviam entrado pelo mesmo ferimento.
“Como foram identificados apenas dois ferimentos a bala, e nenhuma delas atingiu o coração, ele sofreu um ferimento fatal, mas passou por uma execução muito mais prolongada e agonizante. Patologistas concluíram que levaria algum tempo para ele morrer de hemorragia e que ele pode ter permanecido consciente após os disparos. Isso pode acontecer novamente”, comentou Maya.
O caso de Mikal não foi isolado. Numa das falhas de execução mais notórias dos EUA, o assassino condenado Wallace Wilkerson ficou se contorcendo em agonia depois que um pelotão de fuzilamento errou seu coração. O caso ocorreu em Utah, em 1879.
Wallace Wilkerson
Reprodução
Wallace se recusou a ser amarrado à cadeira ou a ter os olhos vendados, insistindo que queria encarar os homens que se preparavam para matá-lo. Mas, quando os atiradores se preparavam para disparar, ele teria levantado os ombros, deslocando o alvo fixado em seu peito. Quatro balas perfuraram o seu corpo, mas nenhuma atingiu o coração. O impacto o arremessou da cadeira. O condenado, então, gritou: “Oh, meu Deus! Meu Deus! Eles erraram!”
Uma bala estraçalhou seu braço esquerdo e outras atingiram uma área acima do alvo pretendido. Testemunhas horrorizadas observaram Wilkerson se contorcer no chão antes de ser finalmente declarado morto, 27 minutos depois.
Outra execução se transformou num episódio sangrento e angustiante em setembro de 1951, quando Eliseo Mares enfrentou quatro atiradores na prisão Point of the Mountain (Utah).
O assassino condenado deveria ter morrido em decorrência de disparos direcionados ao seu coração. Em vez disso, duas balas atingiram seu quadril e abdômen, deixando-o mortalmente ferido, mas não morto de imediato.
Os detalhes macabros vieram à tona anos mais tarde, quando a testemunha e jornalista Clark Lobb recordou que Eliseo “morreu em silêncio e de forma horrível”.
A execução mal-sucedida alimentou as exigências pelo abandono dos pelotões de fuzilamento em favor de outro método de execução. Vários estados, incluindo o Tennessee, onde Christa sobreviveu a duas tentativas de execução, abandonaram a aplicação da pena capital por pelotão de fuzilamento. A condenada, entretanto, pediu para ser fuzilada, pois se sentia “aterrorizada” com a injeção letal.



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