Estudo revela que escanteios aumentam eficiência ofensiva e defensiva, o que exige preparação especializada dos clubes


É verdade que os dribles e as triangulações são sempre mais vistosos na hora do gol, mas, se um clube pensa em ser campeão, o “campo e bola” vem mostrando que ele deve se aprofundar na preparação de um fator que se tornou uma das armas mais decisivas no futebol: os escanteios. Foi assim, por exemplo, que o Arsenal comandado por Mikel Arteta investiu pesado na bola parada e foi recompensado com o título da Premier League na temporada passada, após um jejum de 22 anos.

De acordo com a Sportradar — empresa de dados esportivos —, que analisou os números das últimas dez temporadas das principais ligas europeias (Inglaterra, Alemanha, Espanha, França e Itália), os gols de escanteio contribuíram para que o Arsenal somasse 14 pontos na campanha vitoriosa do título inglês. E a eficiência nesse aspecto não é por acaso.

— A frequência dos escanteios, com média de dez a 12 por partida, segundo estudos recentes, permite trabalhar jogadas ofensivas de forma planejada, controlando a batida, o setor de ataque e os bloqueios. Além disso, a proximidade da meta faz com que a bola esteja sempre em uma área perigosa, permitindo controlar variáveis como espaço, zona e movimentação — destaca Thiago Mehl, preparador de goleiros do Coritiba.

Normalmente, os times marcavam aproximadamente um gol a cada 28 escanteios. Na temporada 2025/26, essa média passou para um a cada 23, o que representa um aumento de cerca de 22%. A Premier League, por exemplo, lidera nessa proporção: um a cada 18 cobranças.

Kai Havertz, do Arsenal, comemora gol sobre o Burnley — Foto: Glyn KIRK / AFP

Se foi essencial para o Arsenal, esse fundamento também ajudou o Tottenham a se livrar do rebaixamento. O time foi o mais eficaz da Europa ofensivamente ao converter 9,57% (20 de 209) de suas cobranças. Já os atuais campeões marcaram o mesmo número de gols, mas em 216 oportunidades (9,26%).

De forma individual, Casemiro teve destaque. O volante brasileiro, ex-Manchester United e hoje no Inter Miami-EUA, marcou oito de seus nove gols no Campeonato Inglês de cabeça, sendo seis deles em escanteios.

— O critério de contato e falta da Premier League, principalmente com goleiros e bloqueios, é mais permissivo. Isso torna os bloqueios mais físicos e pode contribuir para o alto número de gols de escanteio. Já no Brasil, se aceita menos contato — aponta Thiago.

O avanço da eficiência dos escanteios não é exclusividade da Europa. Com a ressalva de que foi disputada com 48 seleções em vez de 32, a Copa do Mundo de 2026 também registrou um aumento na taxa de conversão. Foram 40 gols marcados a partir desse fundamento contra apenas 17 no Mundial de 2022.

Levando isso em consideração, os clubes passaram a dar mais relevância ao tema dentro e fora de campo. A preparação envolve profissionais especializados na bola parada que analisam uma série de estatísticas e colocam em prática nos treinamentos e jogos.

— Os dados são importantes para a gente identificar e priorizar aquilo que vai ser treinado, obviamente. Mas a eficácia do escanteio depende exclusivamente de uma boa cobrança. Então, o tipo de batida, o efeito que a bola gera, onde ela cai e toda a estratégia envolvida nessa ação são fundamentais — ressalta Rafael Vieira, analista de bola parada da seleção sub-20 do Peru e de mercado do Remo.

Ainda de acordo com a Sportradar, os escanteios fechados foram mais eficientes do que os abertos nas cinco principais ligas da Europa na temporada passada. A Premier League (cerca de 80%) e a Bundesliga (70%), da Alemanha, estavam entre as competições que mais utilizaram esse tipo de cobrança — um aumento em relação aos cerca de 50% registrados antes de 2023/24.

— A batida fechada é muito eficiente porque consegue atingir o espaço entre a linha de defesa e o goleiro, além de gerar mais possibilidades de desvio, principalmente na primeira trave. A bola chega mais rápida e pesada — analisa Thiago.

Mas não é só o aspecto ofensivo que influencia na tomada de decisão. O Real Madrid apresentou o melhor desempenho defensivo em escanteios entre os 96 clubes analisados. A equipe merengue sofreu apenas dois gols em 138 cobranças dos adversários, o que significa que eles converteram apenas 1,45% de suas oportunidades. A La Liga (Espanha), inclusive, também contou com Alavés e Elche entre os cinco times mais eficientes da Europa nesse tipo de marcação.

Para Rafael Vieira, o principal objetivo na marcação do escanteio é proteger a área e o gol, o que exige concentração, atenção aos movimentos do adversário e preparo para diferentes situações. Ele também valoriza a criatividade nas jogadas ensaiadas, buscando referências em diferentes imagens e movimentos para desenvolver novas estratégias.



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