Em Niterói, São Gonçalo e Itaboraí as promessas se repetem: de saúde integrada à Linha 3 do metrô

São Gonçalo e Niterói integram o Leste Fluminense, ao lado dos municípios de Maricá, Itaboraí, Tanguá e Rio Bonito. Violência, transporte público insuficiente, déficit em saneamento básico, falta de oportunidades de emprego e mobilidade urbana precária são alguns dos problemas da região apontados pelos moradores. O Leste é marcado por forte desigualdade entre os municípios e por promessas que se repetem a cada eleição, como a expansão da rede de saúde regional e a Linha 3 do metrô (Rio-Itaboraí).
É na região que está o segundo maior município do Rio em população, São Gonçalo, com 896,7 mil moradores. O município é um dos mais violentos do estado, segundo o Atlas da Violência de 2026. A cidade ainda aparece entre as piores posições do Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM), ocupando o 90º lugar entre os 92 municípios. Já a vizinha Niterói se encontra na 11ª colocação.
As reivindicações da população dialogam com as propostas apresentadas pelos principais candidatos ao governo do estado: Eduardo Paes (PSD), Douglas Ruas (PL) e Anthony Garotinho (Republicanos).
Na segurança pública, Paes defende a reunificação das polícias Civil e Militar sob uma única Secretaria de Segurança, o que possibilitará, segundo o plano de governo, ações mais eficientes na recuperação de áreas dominadas por facções, a partir de ocupação, e não operações “de um dia”. São Gonçalo estará entre as regiões beneficiadas. Ruas também reafirma a retomada de territórios dominados pelo crime organizado e prevê aumento do efetivo policial. Já Garotinho propõe a criação do programa Bope 2.0, tropa de ocupação integrada a programas sociais e à atuação da Polícia Civil. Promete combater o crime organizado em áreas críticas de São Gonçalo, como Jardim Catarina e Salgueiro.
Na mobilidade urbana, Paes propõe dar o pontapé inicial na implantação da Linha 3 do metrô em direção a São Gonçalo, mesma promessa de Ruas, que fala em levar o trajeto até Itaboraí. Enquanto Garotinho sugere transformar o projeto da Linha 3 do metrô em 70 linhas com “superbarcas”, ligando Niterói, São Gonçalo, Baixada Fluminense, Praça XV e Barra da Tijuca. Segundo ele, o sistema é uma alternativa mais econômica ao metrô subterrâneo tradicional
Unidades de saúde regionais
Na saúde, Paes e Ruas convergem para a ampliação de estruturas regionais. O candidato do PSD promete concluir o Hospital da Mãe em São Gonçalo e criar oito supercentros de especialidades, enquanto o candidato do PL propõe centros integrados regionais com exames de imagem e pequenas cirurgias. Garotinho afirma que complementará a tabela do SUS para credenciar e utilizar leitos da rede privada com o objetivo de desafogar as filas de espera.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a região Leste soma cerca de 1,66 milhão de eleitores. Aproximadamente 1,43 milhão (86% do total) está concentrado em quatro municípios: São Gonçalo, Niterói, Maricá e Itaboraí. As vocações econômicas divergem entre as cidades. São Gonçalo, considerada uma cidade-dormitório, se apresenta como polo de comércio. Niterói é forte em serviços e na indústria naval. Itaboraí e Maricá têm a economia atrelada ao petróleo, a primeira pelo Complexo de Energias Boaventura (antigo Comperj) e a segunda pelos royalties do pré-sal, que financiam programas como o transporte gratuito e a moeda social Mumbuca.
O Leste tem o terceiro menor Índice IFDM entre as regiões fluminenses: 0,6011 (3,4% abaixo da média estadual, veja o quadro). O índice avalia educação, saúde, emprego e renda.
Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM)
Editoria de Arte
Entenda as alianças políticas: cidades têm embates polarizados
Segundo maior colégio eleitoral do estado, São Gonçalo reúne 653.494 mil eleitores. A cidade possui forte influência bolsonarista e as urnas têm refletido o peso dos votos conservador e evangélico. É reduto político de Douglas Ruas, filho do prefeito, Capitão Nelson (PL). Dos 175.977 votos de Ruas a deputado estadual em 2022, 149.576 (85%) vieram do município.
Para fazer frente a Ruas em seu berço político, Eduardo Paes construiu uma importante sinalização a São Gonçalo. Em manifestação no Supremo Tribunal Federal (STF), o então prefeito do Rio se posicionou favorável ao acordo que prevê a redistribuição dos royalties do petróleo entre municípios da Região Metropolitana, garantindo cerca de R$ 300 milhões para São Gonçalo.
São Gonçalo: movimento no calçadão de Alcântara, área de forte comércio no município.
Roberto Moreyra / Agência O Globo
Na vizinha Niterói, quinto maior colégio eleitoral do Rio com 411.412 votantes, o prefeito Rodrigo Neves (PDT) apoia Paes. Essa parceria política se fortalece desde as eleições municipais de 2024, quando ambos firmaram uma aliança. Além disso, Neves apoia a candidatura ao Senado de Benedita da Silva (PT), da chapa de Paes, contra a de Carlos Jordy (PL). Com reduto eleitoral em Niterói, o deputado federal Jordy é adversário político de Neves, aliado de Ruas e nome da direita.
Já Maricá consolida um papel estratégico da esquerda no estado. O prefeito Washington Quaquá, vice-presidente nacional do PT, ampliou sua influência política para além do município, fortalecendo articulações com prefeitos de diferentes partidos. Quaquá é aliado de Paes.
Sem ajuda de prefeitos, Anthony Garotinho segue com apoio de nomes de seu partido na região.
O que a população quer para a região
Robson Tavares, agente cultural e morador de São Gonçalo
Arquivo pessoal
Niterói e São Gonçalo possuem infraestruturas diferentes, mas os problemas das cidades se cruzam.
Agente Cultural, morador em São Gonçalo, Robson Tavares, 33 anos, aponta como desafios saneamento, mobilidade e violência. Para ele, “a sensação de insegurança é bem alta”. Robson também enxerga a falta de ofertas de trabalho como um problema:— São Gonçalo se configura como cidade-dormitório. As pessoas procuram emprego e trabalham em outros lugares, como Rio e Niterói.
Morador em Niterói, João Guilherme Beltrão, 25 anos, pós-graduando em Computação na UFF, afirma que a qualidade de vida na cidade é boa. Apesar disso, reclama que algumas políticas públicas de outras cidades já deveriam ter sido adotadas, como a tarifa zero para ônibus. Ele ainda chama a atenção para os engarrafamentos:
— Muito trânsito e locomoção muito difícil
* Mestranda em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED/UFRJ), sob a supervisão de Marcelo Remigio
PROJETO TAMO JUNTO: É uma parceria do EXTRA com o Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em que jornalistas e pesquisadores focalizam o processo eleitoral deste ano em sete regiões do Estado do Rio de Janeiro, abordando problemas, apontando soluções e apresentando propostas dos planos de governo dos principais candidatos.



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