Dor no joelho: sucesso no tratamento envolve definição de objetivos, exercícios e autocuidado

Danos às articulações tornam-se mais comuns com o envelhecimento, mas não preocupam apenas os idosos. Trauma, sobrecarga e processos degenerativos atingem diferentes idades e partes do corpo, mas em especial os joelhos, a maior articulação do corpo humano. Em 2019, 365 milhões de pessoas conviviam com a artrose no joelho, a articulação mais afetada pela doença, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Caminhar, levantar-se e subir escadas dependem dela. Preservar sua mobilidade significa um grande passo para manter a mobilidade e preservar autonomia.
Movidas pelo incômodo da dor, muitas pessoas esperam encontrar alívio em um procedimento simples. Essa expectativa não surge por acaso. Ela está associada à publicidade em torno das infiltrações veiculada nas redes sociais, em reportagens e em relatos de pacientes. O discurso destaca histórias de sucesso, novidades e produtos. Raramente, porém, contempla o fato de que essas terapias têm indicações específicas, podem ter resultados e duração variáveis.
Os procedimento passam a ser percebidos como uma tacada certa, de efeito completo e aplicável a qualquer joelho dolorido. Corticoide, ácido hialurônico, gel alemão, hidrogel, plasma rico em plaquetas (PRP), células-tronco, BMA e BMAC aparecem como alternativas para o mesmo problema. Não são. Começar pelo produto antes de compreender cada joelho é inverter o raciocínio.
Exercício é parte importante do cuidado
Quantas pessoas você conhece que já fizeram diversos tratamentos e continuam com dor? Por que ela sempre volta? Um dos aspectos a serem considerados é o ponto de partida do tratamento. A pergunta a ser feita não é “qual é a melhor infiltração”, mas qual é o problema. Depois, é preciso definir o objetivo do tratamento e a evidência para as terapias a serem aplicadas em cada caso. Parece óbvio, mas nem sempre esse caminho prevalece.
Também é fundamental os pacientes saberem que há quatro objetivos possíveis para o tratamento: aliviar sintomas; modificar inflamação, líquido sinovial e sinalização biológica; reparar uma área lesada ou regenerar tecido próximo da cartilagem original. Um recurso pode aliviar a dor sem regenerar cartilagem. Isso não o torna um fracasso, apenas define o que se pode esperar dele. Tudo isso precisa estar bem pactuado e compreendido entre o médico e a pessoa à sua frente.
O médico explica benefícios, limites, riscos e duração do efeito. O paciente participa com seus sintomas, necessidades e possibilidades. Mais um aspecto a ser considerado é que medicamentos e procedimentos integram a estratégia de recuperação ou manutenção, mas não substituem sua base. Diretrizes internacionais mantêm no centro do cuidado com as articulações, em especial o joelho, medidas como a prática de exercício estruturado, o controle do peso quando necessário e o autocuidado. Músculos mais fortes e coordenados ajudam a distribuir e absorver cargas.
Entre adultos com sobrepeso ou obesidade e artrose, por exemplo, cada quilo perdido foi associado em pesquisas a cerca de quatro quilos a menos de carga sobre o joelho por passo. No ensaio clínico IDEA, dieta combinada a exercício promoveu perda média superior a 10% do peso em 18 meses e melhores resultados em parte dos desfechos que as intervenções isoladas. Essas medidas não produzem cartilagem nova, mas podem melhorar dor, função e autonomia.
Diante da massa de informações misturadas e veiculadas constantemente sobre infiltrações e outros tratamentos apresentados como promessas de melhora rápida, é importante entender o que cada recurso pode realmente oferecer. Corticoide, ácido hialurônico, hidrogéis, PRP e derivados da medula óssea têm composições, mecanismos, indicações e graus de evidência distintos. Não são versões concorrentes de uma mesma terapia. Alguns podem aliviar sintomas ou modificar o ambiente articular; outros são associados a promessas de reparação ou regeneração que ainda não foram comprovadas. Examinar cada um separadamente ajuda a ajustar expectativas e a avaliar com mais clareza seus possíveis benefícios, limites e riscos.
Substâncias com efeitos diferentes
As aplicações de corticoide intra-articular reduz a inflamação e pode aliviar sintomas no curto prazo, mas não regenera cartilagem. Em um ensaio com 140 pacientes, o uso trimestral de triancinolona durante dois anos não foi melhor do que injeções de uma solução salina para controlar a dor. Ainda por cima, o uso da triancinolona se associou a uma perda maior de cartilagem. O resultado se refere àquele esquema de aplicações repetidas e não condena todo uso de corticoide. Mostra, porém, que indicação, frequência, duração do efeito e possíveis riscos precisam ser discutidos.
Outros nomes que aparecem com frequência são gel alemão, hidrogel e ácido hialurônico. Gel alemão é um apelido comercial, não uma categoria científica. Hidrogel, por sua vez, pode designar produtos com composições diferentes. Antes de compará-los ou atribuir benefícios a esses recursos, é necessário identificar a substância, a formulação e a indicação.
O ácido hialurônico está presente no líquido sinovial e participa de suas propriedades viscoelásticas. Algumas formulações podem aliviar a dor e melhorar a função, mas as recomendações divergem. Mais uma vez, alívio de sintomas não significa formação de cartilagem nova.
Em outro grupo estão os ortobiológicos, materiais derivados do próprio organismo usados para modificar o ambiente articular. O mais conhecido é o PRP, plasma obtido do sangue do paciente com maior concentração de plaquetas e de moléculas relacionadas à inflamação e ao reparo. Nem todo PRP, porém, é igual: o método de preparo, a concentração de plaquetas e a quantidade de leucócitos variam, produzindo materiais com características distintas.
Essa heterogeneidade ajuda a compreender por que os estudos chegam a resultados diferentes. No ensaio RESTORE, com 288 participantes, três aplicações de PRP não superaram as injeções de solução salina na redução da dor nem na preservação do volume da cartilagem após 12 meses.
Outras revisões encontraram resultados mais favoráveis ao PRP do que ao ácido hialurônico. Diferenças entre produtos, pacientes, métodos e desfechos avaliados ajudam a explicar a divergência. Nenhuma dessas evidências, no entanto, comprova ter ocorrido uma regeneração da cartilagem.
BMA e BMAC também são apresentados como ortobiológicos. BMA é o aspirado de medula óssea; BMAC, seu concentrado. Eles não correspondem a uma “seringa de células-tronco”, como às vezes são divulgados, mas a uma mistura de células sanguíneas, plaquetas, citocinas, fatores de crescimento e uma proporção muito pequena e variável de células progenitoras. Esses materiais podem modular o ambiente articular, mas não têm capacidade comprovada de regenerar a cartilagem.
As terapias celulares propriamente ditas, com células selecionadas, manipuladas ou expandidas em laboratório, pertencem a uma outra fronteira da ciência e continuam investigacionais. Uma revisão de 16 ensaios randomizados, com 807 participantes, concluiu que esses tratamentos provavelmente oferecem pouca ou nenhuma melhora clinicamente importante da dor e da função no período de três a seis meses. Também persistem incertezas sobre eventos adversos e resultados de longo prazo.
Como é possível perceber, o avanço no cuidado com os joelhos não está apenas em dispor de mais ferramentas, mas em distinguir aquilo que cada uma pode oferecer. Quando a publicidade e o produto ocupam o início da conversa, diagnóstico, exercício, educação, peso, sintomas e função passam para o segundo plano. Se o joelho volta ao centro, a ferramenta recupera seu lugar: não como promessa ou solução para todos, mas como parte de uma estratégia construída para cada paciente.
*Gabriel Pecchia é Cirurgião e especialista em trauma esportivo, Hospital Alemão Oswaldo Cruz
*Carlos Luiz Mendes é Cirurgião especializado em joelho e preceptor, Hospital Alemão Oswaldo Cruz
**Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.



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