O mundo presenciou, na quinta-feira (19), a primeira prisão da era contemporânea de um herdeiro direto ao trono da família real britânica. Na manhã do aniversário de 66 anos, o ex-príncipe Andrew foi detido sob suspeita de má conduta no exercício de função pública após a divulgação de e-mails que indicam o compartilhamento de informações comerciais confidenciais com Jeffrey Epstein, o financista pedófilo que foi encontrado morto em prisão de Nova York em 2019.
Antes de entrar nos holofotes do mundo por causa do envolvimento com o magnata americano acusado de pedofilia, Andrew também tinha enfrentado a Justiça por causa de denúncia de abuso sexual vinculada ao caso Epstein e perdido os títulos reais.
Polícia chega a propriedade de Sandringham para prender Andrew
AFP
Entenda a cronologia da queda do filha caçula da rainha Elizabeth II:
Pizza Express
Em 2019, surgiram as primeiras acusações de abuso sexual ligadas ao ex-príncipe. A vítima era Virginia Giuffre, que alegava a existência de fotos dela, ainda na adolescência, e Andrew, juntos, na casa de Ghislaine Maxwell em Londres (Inglaterra).
Virginia Giuffre, com o príncipe Andrew e Ghislaine Maxwell
Reprodução/Florida Southern District Court
Ghislaine foi namorada e cúmplice de Jeffrey Epstein e hoje cumpre pena de 20 anos de prisão por ajudar seu ex-companheiro a abusar de menores. À época, Ghislaine contratou Virginia para trabalhar como massagista depois da passagem da jovem pelo spa do resort Mar-a-lago, empreendimento de Donald Trump na Flórida (EUA). Virginia tirou a própria vida no ano passado.
Para escapar da acusação, Andrew deu uma entrevista à rede de televisão britânica BBC, alegando ter visitado o restaurante Pizza Express, na cidade de Woking (Inglaterra), na noite em que as fotos foram tiradas.
Perguntado como se lembrava de uma simples visita a uma pizzaria, que teria acontecido dezoito anos antes da entrevista, Andrew respondeu que ir ao Pizza Express em Woking era “algo incomum” para ele e, por isso, lembrava-se do fato. O ex-príncipe também alegou que as fotos poderiam ser falsas. Mesmo com as negativas, Andrew se afastou das funções reais quatro dias depois da entrevista, que caiu muito mal no seio da realeza.
Virginia Giuffre e o acordo de 12 milhões de libras
Depois de se libertar da rede de abuso de Epstein, Virginia Giuffre se tornou uma das grandes vozes contra o financista. Em 2015, ela fundou a associação sem fins lucrativos “Victims Refuse Silence” (vítimas que recusam o silêncio), voltada a vítimas de abuso sexual no Reino Unido.
Seguindo na luta por justiça, em 2021 ela oficializou uma ação judicial contra Andrew, alegando abuso sexual durante a adolescência. Um ano depois, com o processo ainda em curso, a rainha Elizabeth II afastou o filho caçula das atividades de honraria militares, e o próprio Andrew abriu mão do título de “Sua Alteza Real”.
Foto de Virginia Giuffre é exposta em homenagem durante seu velório, realizado no ano passado
AFP
Em setembro de 2022, no entanto, as investigações foram encerradas depois de um acordo firmado entre Virginia e Andrew, que estabelecia o pagamento de 12 milhões de libras (R$ 84 milhões) à vítima dos abusos. Posteriormente foi divulgado que o dinheiro do acordo foi cedido pela própria rainha Elizabeth II e, também, retirado da herança do Príncipe Phillip, ex-marido de Elizabeth, falecido em 2021.
Em abril do ano passado, a ativista foi encontrada morta na própria casa, em Neergabby (Austrália), aos 41 anos. As investigações concluíram suicídio, mas a família descarta essa possibilidade.
Vínculo com Epstein
Com a recente divulgação de milhões de documentos referentes a Epstein, a relação do financista e Andrew pode ser compreendida com mais profundidade. O ex-príncipe não mantinha boas relações apenas com a namorada de Epstein, mas também mantinha um vínculo próximo com o americano, compartilhando informações confidenciais de suas viagens enquanto enviado comercial britânico.
Epstein com uma figura feminina (não se sabe a idade) no seu colo a bordo de avião
Reprodução/DOJ
Os e-mails revelaram que Andrew compartilhou detalhes de visitas a China, Hong Kong, Singapura, Vietnã e Afeganistão. As conversas giravam em torno de oportunidades de investimento. No caso do Afeganistão, por exemplo, o governo britânico financiava a reconstrução do país em 2010, depois de sucessivos conflitos militares, e Andrew buscava ouvir a opinião de Epstein a respeito de possíveis bons investidores para o país. Em um dos e-mails, Andrew chegou a reclamar da Fundação Gates, financiada pelo bilionário da tecnologia BIll Gates, por “não fazer nada” no Afeganistão.
Andrew e Epstein também planejaram lançar um negócio juntos na China durante seu período como enviado comercial. O planejamento aconteceu depois que Epstein já havia sido condenado por crimes sexuais contra menores, segundo indicam outros e-mails. Além disso, as discussões comerciais entre os dois continuaram por mais de cinco anos após a libertação de Epstein da prisão.
Novos arquivos de Epstein mostram ex-príncipe britânico Andrew ajoelhado ao lado de mulher
AFP
Nos arquivos liberados pelo Departamento de Justiça do EUA (DOJ), com milhares de e-mails de Epstein, também foram encontradas fotos do ex-príncipe ajoelhado e tocando a cintura de uma mulher não foi identificada. E-mails enviados por um remetente identificado apenas como “A” para Ghislaine perguntando sobre novas “amigas inapropriadas” para se divertir também aumentam as suspeitas sobre o ex-príncipe. O nome de Andrew aparece centenas de vezes nos milhões de documentos recém-divulgados relacionados ao caso Epstein.
11 horas na prisão
A prisão do ex-príncipe, na quinta-feira (19/2), no dia do seu aniversário, foi uma consequência da divulgação dos e-mails. Com carros descaracterizados, a polícia chegou às 8h na propriedade Sandringham, para onde ele tinha se mudado depois de perder os últimos títulos reais e ser retirado das festividades da família real britânica, incluindo o natal.
A propriedade foi submetida à uma operação de busca e apreensão e Andrew foi encaminhado à delegacia de Aylsham, no norte da região de Norfolk (Inglaterra). Segundo veículos ingleses, ele não teria usado algemas e não há confirmação se o ex-príncipe ficou numa cela ou numa sala com os seguranças.
Durante o período de detenção, Andrew teve uma amostra de saliva coletada para exames e as autoridades coletaram suas impressões digitais e o fotografaram para o registro de fichamento policial como qualquer outro suspeito.
Ele passou onze horas sob custódia e foi liberado por volta das 19h, do horário local. Apesar da liberação, as investigações acerca da ligação dele e Epstein continuam. O atual rei da Inglaterra, Charles III, comentou a prisão do irmão mais novo. Segundo ele, a família real recebeu as notícias da prisão “com profunda preocupação”, mas enfatizou que “a lei deve seguir seu curso”.
(*) Estagiário sob supervisão de Fernando Moreira
Source link
Do 'álibi' em pizzaria à detenção no aniversário: a cronologia da queda do ex-príncipe Andrew



