Você sabia que o homem mais longevo do mundo é um brasileiro? No top 10 mundial de supercentenários, também figuram duas mulheres que nasceram aqui. Na segunda reportagem da série “Vidas Longas”, que começou ontem e vai até a próxima quarta-feira, reunimos curiosidades e histórias sobre longevidade no Brasil e no mundo e contamos alguns desafios de ter uma idade tão avançada.
Em artigo publicado este ano na revista Genomic Psychiatry, a pesquisadora Mayana Zatz e colegas do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da USP afirmam que o Brasil guarda um grande tesouro do mundo para desvendar os segredos da longevidade humana extrema. Desde a colonização portuguesa, passando pela migração forçada de cerca de 4 milhões de africanos escravizados e pelas ondas de imigração europeia e japonesa, o país desenvolveu o que os autores do estudo descrevem como “a maior diversidade genética do mundo”. Eles têm estudado estes genes para tentar desvendar ‘marcadores’ da longevidade, que podem ter sido favorecidos pela miscigenação.
— Acreditamos que esses casos de supercentenários brasileiros sejam resultado da combinação de diversos fatores, entre eles genética, hábitos de vida, ambiente e aspectos sociais e familiares — diz Gabriel Ainsworth, pesquisador da Longeviquest que mapeia supercentenários e tem parceria com o grupo da USP.
Como é chegar lá?
Moizes Batista, médico especialista em longevidade, pondera que não há uma regra, mas no geral, aos 80 anos muita gente ainda consegue manter uma boa autonomia, mesmo com perdas de força, equilíbrio e de alguns sentidos.
— Aos 90 anos, o organismo já está mais vulnerável. Uma queda, uma infecção ou alguns dias internado podem fazer a pessoa perder muita força. Às vezes ela entra no hospital andando e sai precisando de ajuda para levantar. Aos 100 anos, essa vulnerabilidade é ainda maior. Pode haver mais dificuldade para andar, ouvir, enxergar, lembrar e fazer atividades do dia a dia.
Mas isso não significa que toda pessoa com 100 anos esteja acamada ou tenha demência, ele explica. Muitas ainda realizam muitas atividades sozinhas, conversam bem e tomam decisões.
— Não avalio uma pessoa só pela idade. Quero saber se ela consegue andar, levantar da cadeira, tomar banho, comer sozinha e cuidar da própria rotina. É isso que mostra o nível de autonomia dela.
Para os cuidadores, a dica de Batista é tentar manter a pessoa ativa e independente: se ela consegue fazer algo sozinha, é bom deixar que faça, em vez de se antecipar a ajudar.
— Aos 90, precisamos ficar mais atentos a movimentos e a medicamentos. Qualquer mudança rápida precisa ser investigada: se ficou confusa de repente, parou de comer, começou a dormir demais ou perdeu força, por exemplo.
Dez curiosidades sobre supercentenários*
O ser humano que mais viveu até hoje, oficialmente, foi a francesa Jeanne Calment, que morreu aos 122 anos e 164 dias em 1997. Ela chegou a conversar, quando criança, com o pintor Vincent Van Gogh, a quem descreveu como sujo e mal-educado. Embora as irmãs Levita de Deus Nunes, de 109 anos, Zoraide de Deus Mota, de 104, e Zulina de Deus Nunes, de 103, do Rio de Janeiro, atualmente detenham o título de trio de irmãs vivas mais velhas do mundo, elas ainda não superaram o recorde absoluto. Essa distinção provavelmente foi alcançada em 2009 pelas irmãs americanas Maggie Renfro (1895–2010), Carrie Lee Miller (1902–2010) e Rosie Lee Warren (1906–2009). Na época da morte de Warren, em dezembro de 2009, a soma das idades das irmãs era de extraordinários 325 anos.
Atualmente, há 61 pessoas vivas validadas com 108 anos ou mais no Brasil. Dentre elas, 40 pessoas têm entre 108 e 109 anos, e 21 são supercentenárias (110 anos ou mais).
Hoje, o homem mais longevo do mundo é o brasileiro cearense João Marinho Neto, nascido em 5 de outubro de 1912, com 113 anos, validado pela LongeviQuest.
Entre as dez pessoas mais longevas do mundo, estão duas brasileiras: Yolanda Beltrão de Azevedo, com 115 anos, nascida em 13/01/1911, que ocupa a primeira posição no Brasil e a quarta no mundo, e Beatriz Ferreira Duarte, também com 115 anos, nascida em 21/06/1911, que ocupa a segunda posição no Brasil e a quinta no mundo. Nesta semana, o Rank Brasil, sistema de homologação de recordes nacionais, divulgou que Deolira Glicéria Pedro da Silva, moradora de Itaperuna de 121 anos completados em março tinha se tornado oficialmente a mulher mais longeva do país. A Longeviquest e o Guinesse não reconhecem este dado por falta de comprovação.
Não há atualmente um levantamento específico sobre a distribuição de todos os centenários no Brasil. Na região amazônica, há poucos casos (verdadeiros). Ao longo do litoral, são muito mais.
No Brasil, 80% dos supercentenários são mulheres.
Alguns supercentenários são homenageados com nomes de escolas e ruas, homenagens em câmaras municipais, ganham mensagem de Bispo e até bênção apostólica do Papa.
Mais de 700 pessoas no Brasil afirmam ter 115 anos ou mais e recebem aposentadoria. Entre elas, a idade declarada pela pessoa mais velha ultrapassa os 130 anos. No entanto, desse universo, apenas duas pessoas (ambas com 115 anos) foram consideradas verídicas e devidamente validadas pela Longeviquest. Esse dado evidencia a fragilidade probatória de registros dessa natureza
Lista de supercenteários do Rio: 1. Clelia Valentina dos Santos (24 de março de 1915), do Rio de Janeiro, RJ; 2. Maria José Guimarães (16 de abril de 1915), de Barra Mansa, RJ; 3. Dulce de Oliveira Ramos (12 de abril de 1917), de Niterói, RJ; 4. Levita de Deus Nunes (7 de junho de 1917), do Rio de Janeiro, RJ; 5. Conceição da Silva Felizardo (11 de agosto de 1917), de Cordeiro, RJ; 6. Eva Alberti (11 de novembro de 1917), de Niterói, RJ; 7. Ruy de Mendonça (10 de fevereiro de 1918), de Areal, RJ; 8. Maria Eunice de Andrade Guimarães (2 de abril de 1918), do Rio de Janeiro, RJ; 9. Achillina Bueno Matta (12 de abril de 1918), de Niterói, RJ.
Com 117 anos, Ethel Caterham é considerada a pessoa mais velha do mundo. A senhora britânica passou a ocupar o posto que pertencia à freira brasileira Inah Canabarro Lucas, que faleceu em 2025 aos 116 anos. Ethel fez aniversário no último dia 21/08.
Como a checagem de supercentenários é feita pela Longeviquest?
A LongeviQuest é uma organização fundada em 2022, referência no monitoramento e no mapeamento de supercentenários pelo globo e é formada por pesquisadores de todo o mundo. Interessados em terem a validação do grupo precisam submeter documentos para avaliação. A primeira análise é feita por um pesquisador da LongeviQuest. Depois disso, precisa encaminhar ao órgão documentos de diferentes períodos da vida: infância, fase adulta e velhice.
Os documentos são avaliados pela organização e levados para votação por um comitê, que atesta ou não a pessoa como uma das mais velhas do mundo. A organização mantém parcerias com diversas instituições científicas nacionais e internacionais, incluindo uma parceria com o Guinness World Records, para o qual casos extraordinários validados podem ser encaminhados para análise e eventual reconhecimento. O trabalho da LongeviQuest começa a partir dos 108 anos de idade, quando passam a acompanhar e investigar esses casos de forma mais sistemática. São considerados semissupercentenários as pessoas que têm 108 ou 109 anos e como supercentenários aquelas que já atingiram 110 anos ou mais.
* As informações sobre o Brasil foram fornecidas pelo instituto LongeviQuest
Source link



