Cria de Xerém, Martinelli transforma as críticas em protagonismo no Fluminense


Com a bola que poderia deixar o Fluminense em situação delicada na disputa de pênaltis contra o Independiente Rivadavia-ARG, o volante Martinelli tinha na marca da cal uma oportunidade que ia muito além do triunfo tricolor. Apontado diversas vezes por torcedores como um jogador que sentia partidas importantes, o atleta converteu sua penalidade, a penúltima antes de o tricolor garantir a vaga nas quartas de final da Libertadores, e colocou seu nome mais uma vez como um dos protagonistas de êxitos da equipe.

— Na hora que vai para os pênaltis, todo mundo fica um pouco tenso, né? Você não tem muito controle da situação. Depois que acabou o jogo, conversamos com o Marcão. O Thiago Silva também falou para a gente ter convicção no pênalti, fazer o que treinamos — detalhou Martinelli, escolhido para conceder entrevista coletiva nesta sexta-feira, no CT Carlos Castilho.

Formado em Xerém e estreante no profissional em dezembro de 2020, Martinelli viu a pressão da categoria principal chegar cedo para si nos gramados. Em um Fluminense que buscava resultados melhores após subsequentes campanhas de luta contra o rebaixamento, o volante, então com 19 anos, entrava nos gramados como uma joia da base que poderia agregar ao elenco, o que foi provado por sua ascensão meteórica em um time que buscou uma ida à Libertadores após hiato de sete anos.

Dupla entrosada com André

No primeiro ano, fez pouco mais de 13 jogos com a camisa tricolor, como um dos atletas importantes na reta final do time no Brasileirão de 2020. Da temporada seguinte em diante, firmou-se no time titular, com uma média de 52 jogos por ano, formando uma entrosada dupla com André, com quem já havia se destacado na base.

Mesmo com o crescimento e a participação efetiva nos jogos do Fluminense, a torcida do clube entendia que faltava a Martinelli maior poder de controle nos momentos mais agudos e decisivos. Com falhas em jogos específicos, o atleta chegou a ser apelidado de “jogador de condomínio”, como forma de simbolizar que não lidava bem com a pressão.

— Tinha muita vontade, mas, às vezes, não conseguia entender o jogo e acabava sofrendo com as cobranças da torcida. Meus companheiros, a comissão e o estafe me ajudaram muito. Acho que é com o tempo e a rodagem que você entende melhor o jogo e ganha confiança. Mas é preciso ter cabeça e saber quem você é para superar os momentos ruins — explicou o volante.

No ano de 2023, por exemplo, Martinelli foi expulso ainda no primeiro tempo, na derrota por 3 a 0 do Fluminense para o Cuiabá, válida pela 25ª rodada do Campeonato Brasileiro. Na oportunidade, os cariocas jogavam com equipe reserva, em vista da final contra o Boca Juniors, que aconteceria menos de uma semana depois. Nesta mesma final, em que o Fluminense se sagrou campeão, lá estava o jovem volante, que entrou no lugar de Felipe Melo e ajudou a sustentar a pressão dos argentinos em um dos jogos mais importantes da história do clube.

Martinelli também foi alvo na derrota de sua equipe para o Palmeiras no Brasileirão de 2025, após falha que resultou em gol do alviverde paulista. Nas redes sociais, à época, tricolores mantiveram as críticas ao camisa 8.

Em 2024, o jogador precisou lidar com a saída de André do elenco, que se transferiu para a Inglaterra ainda no meio da temporada. Sem uma das referências e grande parceiro de posição, Martinelli se viu na iminência de assumir a responsabilidade e se tornar um dos protagonistas no plantel. As temporadas seguintes seriam a então redenção de um dos principais ativos de Xerém. No Mundial de 2025, ao lado de Hércules, fez jogos notáveis com a camisa tricolor, naquele que foi o ano em que — até o momento — o volante mais atuou.

Visto no início da carreira como um potencial de venda para reforçar o caixa tricolor, Martinelli acabou perdendo o “timing” de negociação para o futebol europeu. E, aos 24 anos, vai trilhando uma sólida carreira no futebol brasileiro, com forte identificação com o tricolor.

No total, já soma mais de 300 jogos como profissional, com conquistas notáveis como a Libertadores de 2023, os Campeonatos Cariocas de 2022 e 2023 e a Recopa Sul-Americana de 2024. Entre todos os jogadores formados nas categorias de base do Fluminense, é o que mais vestiu as cores do clube, superando nomes como Wellington Nem e Leandro Euzébio.

Agora, em 2026, firma-se como um dos pilares de uma equipe que ainda sonha com novos triunfos que tenham o volante da base entre os protagonistas.



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