Uma das chaves para o bom funcionamento do time e para mandar bem nas competições, explica a psicóloga Aline Wolff do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), está na habilidade de comunicar bem. Um tema que nem sempre é fácil, especialmente para jovens.
— Para um time funcionar bem, é importante que o ambiente seja seguro, e as pessoas possam tirar suas dúvidas, discordar e apresentar outras ideias. Economizar nisso ou deixar as coisas encobertas, indiretamente respondidas, pode trazer mais problemas do que solução — diz ela. — O esporte é um laboratório da experiência humana. O atleta precisa aprender a falar sobre o que para ele é importante, sobre o que ele está sentindo e o que avalia que é necessário corrigir. Isso é algo que precisa ser facilitado pelo ambiente, pelas lideranças, e ter o apoio para que a pessoa vá consolidando essas habilidades.
A ideia de que a comunicação é uma das chaves para o bom desempenho esportivo é reforçada por uma pesquisa com 241 praticantes de curling da liga turca do esporte, que é disputado na pista de gelo, entre 2021 e 2022. Na pesquisa, os participantes responderam questionários sobre a relação da equipe, além de aspectos como empatia, comunicação e relação com o grupo. Os pesquisadores da Universidade Tércnica de Ezrum, e de outras instituições, chegaram à conclusão que a boa comunicação dos esportistas era um atalho para empatia entre o grupo e uma ferramenta para permitir o bom relacionamento entre os atletas.
Angélica Kvieczynski é ex-atleta do time brasileiro de ginástica rítmica e conta que falar sobre as experiências pessoais, por exemplo, é uma forma de plantar a “sementinha” da comunicação entre os times. Hoje, ela é treinadora da modalidade na Irlanda e vê que num mesmo time, por exemplo, as atletas um pouco mais velhas podem oferecer suporte e conversas quando há pequenos conflitos entre as mais jovens.
— A adolescência é muito delicada, há mudanças hormonais e do corpo, somadas à necessidade de se encaixar. Tudo isso pode levar a atritos — conta. — A necessidade de conversar não deve ser imposta, isso pode levar a mais distanciamento do grupo e também a desentendimentos internos. Mas se elas se sentem num ambiente seguro, também terão mais abertura. Quando os atletas aceitam se colocar no lugar do outro, a comunicação e a convivência melhoram muito.
Já a campeã mundial de Jiu-Jítsu Carina Santi, à frente da escola a Almeida JJ Woman and Kids, em São Paulo, diz que rodas de conversa, mesmo que de cinco minutos ajudam muito. E que modelos alternativos, com menos pessoas trocando ideias ao mesmo tempo, podem incluir quem é mais tímido e prefere falar mais reservadamente.
— O tímido participa muito quando começa em grupo pequeno, de dois ou três, e quando ninguém força. Já o mais sentimental precisa saber que sentir não é fraqueza, e no tatame isso se ensina de forma natural: quem chora numa luta perdida e volta no outro treino é muito forte — conta. — O mais quieto da sala muitas vezes é quem mais precisa ser ouvido. Não dá pra deixar a voz alta ser a única.
Especialistas indicam como fundamental para estabelecer uma boa comunicação em quadra, no campo, no tatame ou nas pistas a escuta, entender quais as necessidades do grupo, e saber criticar a prática quando necessário — e não a pessoa que está praticando.
— O primeiro ponto é entender que cada jogador recebe e interpreta uma mensagem de uma maneira diferente. Por isso, é importante que o líder conheça as características individuais de cada atleta e saiba qual é a melhor forma de transmitir um feedback — diz o educador físico e personal trainer Rafael Akira. — Quando o atleta entende o propósito daquela orientação, a mensagem fica mais clara e ele consegue compreender melhor o que precisa fazer para contribuir .
Há estratégias para, inclusive, tornar as críticas mais fáceis de assimilar:
— Falar sobre falhas e pontos que precisam de melhora é sempre difícil, porque gera desconforto. Não dá para não falar, mas é importante estruturar uma comunicação que deixe claro que aquilo não é uma crítica pela crítica. Escolha bem as palavras. É uma crítica, sim. Mas é uma crítica ao que a pessoa fez, e não a quem ela é — comenta Aline Wolff, que diz que lembrar de erros anteriores já solucionados pode ser uma boa tática de motivação.
A habilidade de se expressar propriamente e liderar times, aspectos bem comuns no esporte, podem ser trunfos no futuro dos adolescentes, quando chegar a hora de entrar no mercado de trabalho. Seja qual for a área de atuação. Isso quem explica é Fábio Salomon, sócio-diretor da Brava Executive Search, além de diretor de RH voluntário da União Brasileiro Israelita do Bem Estar Social (Unibes).
— A tal da inteligência artificial coloca o fator humano em evidência — opina. — A liderança hoje no mercado, em primeiro lugar, se revela na capacidade de tomar decisões, resolver problemas. Tudo isso não apesar das pessoas, mas com as pessoas. A escuta ativa, habilidade (necessária do esporte) é outro aspecto amplamente demandado pelo mercado. Assim como a cooperação.




