Formar jogadores de elite e preservar uma identidade de jogo. Esse equilíbrio delicado faz parte das últimas décadas de história de França e Espanha, que fazem a primeira semifinal da Copa do Mundo 2026 hoje, às 16h, em Dallas. Um encontro entre duas das maiores “fábricas” de talentos do planeta.
Numa França que tenta chegar à sua terceira final consecutiva, a safra de talentos que ultrapassa as próprias fronteiras — um estudo da Opta apontou que 99 atletas do Mundial nasceram no país — é fruto da capilaridade das redes de observação de grandes clubes, de investimentos governamentais de décadas em estruturas de formação e de um cenário de clubes menores, regionais, com alta capacidade de formação.
Uma parte significativa do grupo tem as carreiras perpassadas pela região de Paris e seus subúrbios, um celeiro de talentos impulsionado pela imigração e pelo estabelecimento de famílias.
Dos 26 convocados por Didier Deschamps, 11 atuaram em clubes ou academias da região ao longo da formação. É o caso de Kylian Mbappé, criado na comuna de Bondy, no município de Seine-Saint-Denis, a apenas dez quilômetros do centro da capital francesa. O camisa 10 jogou no modesto AS Bondy antes de ser recrutado pelo badalado centro de treinamentos Clairefontaine, de onde rumou à base do Monaco.
Correspondente do jornal L’Équipe no Brasil, Eric Frosio ressalta a diferença de oportunidades e aponta semelhanças entre os subúrbios de Paris e as raízes do futebol brasileiro:
— Há sempre umas quadras, que chamamos de city stade, de cinco contra cinco e gramado sintético. Os jovens passam o dia inteiro brincando, jogando e desenvolvendo talento, exatamente como pode acontecer no Brasil. Só que depois, à frente, está tudo bem organizado, há clubes locais no subúrbio que têm competência para formar jogadores, uma estrutura boa — explica, citando justamente o caminho até Clairefontaine.
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A academia, a mais famosa das ligadas ao governo e à Federação Francesa de Futebol (FFF), inauguradas desde os anos 1970 e que preparam jovens atletas, contribui com a formação de talentos promissores e revelou, além de Mbappé, nomes como Thierry Henry, Anelka, Ben Arfa, Gallas e Saha.
— Os treinos em Clairefontaine misturam a habilidade do jogo de rua com a organização, incluindo muitos um contra um ou dois contra dois. Se você é bom driblando e dominando, passa a organizar a posse de bola, num cinco contra dois. Assim que recebê-la, precisa mostrar bom controle — explicou o diretor Franck Bentolila à emissora Al Jazeera, ressaltando que a instituição tem passado a focar em atletas mais jovens. Um movimento que vai ao encontro do avanço dos scouts dos grandes clubes.
Se antes passava longe de ser uma potência, a Espanha acumulou uma Copa do Mundo e três Eurocopas nas últimas duas décadas sob um modelo que criou uma identidade de jogo característica associada a fortes ecossistemas de formação de jogadores. Talvez o mais famoso seja La Masia, do Barcelona, que revelou uma geração dourada para o país na década de 2000 — e até o ídolo argentino Lionel Messi. No entanto, os centros de Athletic Bilbao (Lezama), Real Sociedad (Zubieta) e Villarreal são outros que mantêm forte influência.
No elenco montado por Luis de la Fuente, treinador que assumiu a seleção principal após uma década comandando as categorias de base, 16 dos 26 jogadores foram formados em um desses quatro clubes. Os catalães contribuíram com oito, um deles Lamine Yamal, grande referência da atual geração mesmo aos 19 anos completados ontem.
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Do time que iniciou a vitória por 2 a 1 sobre a Bélgica, nas quartas de final, nove jogadores tiveram uma dessas escolas participando ativamente de sua formação: quatro do Barcelona (Yamal, Cubarsí, Cucurella e Dani Olmo); três do País Basco, território onde estão Athletic e Real Sociedad (Unai Simón, Laporte e Oyarzabal); e dois do Villarreal (Rodri e Baena).
A origem geográfica não indica o local de nascimento do jogador, mas sim onde se lançou como profissional. Na Espanha, é comum que o talento seja incorporado cedo ao ambiente de um grande centro formador — o que inclui moradia, acompanhamento escolar, treinamento técnico e tático e preparação física.
Há exceções neste processo, como Dani Olmo, que passou parte da infância e da adolescência em La Masia, mas completou sua formação na Croácia, sendo revelado pelo Dinamo Zagreb. No caminho contrário, Laporte nasceu na França, mas chegou a Lezama ainda cedo. Rodri deu os primeiros passos no Atlético de Madrid, mas foi dispensado por questões físicas antes de ser lançado no Villarreal. Já David Raya é fruto do futebol inglês, onde atua até hoje no Arsenal.
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Porém, o grosso dos jogadores de elite sai dos principais ecossistemas regionais, estabelecidos para captação e desenvolvimento de talentos. A Comunidade de Madri e a Andaluzia, de clubes como Sevilla e Betis, também fazem parte de circuitos reconhecidos.
A Uefa aponta o sistema da Federação Espanhola como referência desde as categorias de base, não só pelo trabalho regional, mas também pelas competições organizadas em nível nacional para maior integração e aprimoramento dos modelos de jogo.
— O sentimento de pertencimento é importante. Queremos que os meninos sintam a seleção como algo próprio. Dizemos que isso é deles, que esta é a casa e o time deles. Não queremos que apareçam aqui de repente e que seja algo abstrato — explicou o treinador Albert Celades ao jornal El País, quando comandava a seleção espanhola sub-21.



