Como dar vida à moda?

André Carvalhal: “Olhe para aquilo que fazia seus olhos brilharem antes do boleto”
Tem livro que a gente lê e tem livro que a gente guarda na memória, aprende e leva pra vida. O novo do André Carvalhal é do segundo time. “Moda e vida: Como dar vida à moda” (Agir, R$ 149,90) reúne 69 entrevistas com quem faz a moda acontecer nas passarelas brasileiras, nos bastidores e nas ideias: Costanza Pascolato, Katia Barros, Natalie Klein, Luiza Brasil, Dudu Bertholini, Fiorella Mattheis e muito mais.
Pra quem não ligou o nome à pessoa: André é o autor de “Moda com propósito”, que há uma década está entre os livros de moda mais vendidos do Brasil e virou leitura obrigatória nas faculdades. Foi head de marketing da FARM RIO, diretor criativo da AHLMA, finalista do Jabuti e já passou das mil palestras.
Com esse currículo, eu não ia perder a chance de fazer umas perguntinhas, né?
André Carvalhal
Divulgação
Erika: Qual foi a entrevista que mais te surpreendeu? Tipo, você entrou achando que ia ser uma conversa e saiu com outra coisa.
André: De certa forma, todas me surpreenderam, porque fui com o coração e a cabeça bem abertos para ouvir coisas muito íntimas. Como o livro fala de moda e vida, eu queria buscar a infância, o passado, o futuro. Mas teve uma especial. Começo todas as entrevistas pedindo para a pessoa dizer uma palavra que represente sua relação com a moda. A maioria respondeu o que eu esperava: amor, vida, trabalho. Um diretor criativo de uma grande marca respondeu ódio. À primeira vista, aquilo me causou um estranhamento enorme. No desenrolar da conversa, ele explica que é o ódio pelo sistema atual da moda que faz com que ele crie de uma forma inconformada, e isso o leva a resultados cada vez mais autênticos e disruptivos.
Erika: Tem alguma história do livro que você não consegue contar sem se emocionar?
André: São muitas histórias para rir, para chorar, mas sem dúvida a primeira, e não à toa ela virou a primeira, é muito impressionante. É da Ju Francisco, que vem de uma família de costureiras: pai, mãe, avó, tia. Perguntei quando ela ouviu pela primeira vez o barulho de uma máquina de costura, e ela não soube dizer, porque cresceu com ele. Esse barulho despertava nela uma relação de amor e ódio com a moda. Era o ganha-pão da família, mas não era suficiente para todo mundo, e disputava o espaço, a atenção, o afeto dela. Por muito tempo ela negou esse ofício, quis ser arquiteta. Na pandemia, o pai adoeceu com câncer, os recursos eram muito limitados, e ela e o irmão não tinham outra coisa a fazer a não ser costurar. Ela criou um top dupla face que viralizou no TikTok, e com as vendas eles conseguiram dar um conforto maior ao pai naquele período. O desenrolar eu não vou dar spoiler. Tem que ler o livro.
Erika: Pra quem tá começando na moda hoje e se sente perdido, qual foi o melhor conselho que você ouviu nessas 69 conversas?
André: Não foi exatamente um conselho, foi uma constatação. Quando investigo a infância das pessoas, descubro que grande parte do que elas fazem hoje já estava lá, num dom, numa brincadeira, num desejo. O Dudu Bertholini, que é totalmente performático, cheio de caras e bocas, pediu de presente para a mãe um manequim. Ali já estava o desejo por essas modelos que fazem as melhores poses 24 horas por dia. A Bel Lobo, arquiteta que faz projetos para lojas, morava numa casa com muita gente e muitos móveis diferentes acumulados. Pediu ao pai uma lata de tinta branca e pintou tudo para uniformizar e harmonizar a cena. Então o conselho seria olhar para sua infância e identificar o que já apontava para o que você gosta e pode fazer hoje.
Erika: Esse é o terceiro livro da trilogia. O que mudou em você entre o primeiro e esse aqui?
André: Muita coisa, em mim, no mundo, em todo mundo. Meus primeiros livros falam de marca, sustentabilidade e propósito, e esses conceitos se transformaram muito. As marcas foram se humanizando, as pessoas foram se tornando marcas, e sustentabilidade e propósito foram apropriados pelo mercado, muitas vezes criando marcas que não têm nem propósito nem nada de sustentável. Esse livro veio para ressignificar tudo isso. Por isso cheguei ao título “Moda e vida”, que hoje para mim é muito mais importante do que qualquer uma dessas outras coisas.
Erika: Qual seria sua única dica para um adolescente de 17 anos que sonha em trabalhar com moda?
André: Acabei respondendo antes, mas é isso: olhar para a infância, para aquilo que você fazia antes de ter que se preocupar com boleto, com conta, com mercado de trabalho. O que fazia seus olhos brilharem pode ser um potencial de algo que você tem a chance de fazer hoje com muito sucesso.
E aí, já tá lembrando o que você fazia aos 8 anos? Porque eu saí dessa conversa revirando minhas memórias. No fim das contas, o que sustenta uma marca, uma carreira ou um look é a história por trás.



Source link

- Advertisement -spot_img

More From UrbanEdge

- Advertisement -spot_img