A idade avançada e as dores no corpo muitas vezes interrompem a prática de exercícios e uma rotina saudável. O chileno Miguel Zerené Báez, de 101 anos, mais conhecido como Tito Zerené, caminha no sentido contrário. Na verdade ele rebate com vitalidade, como numa partida de tênis, a ideia de deixar o esporte que ama.
Tito Zerené completou 101 anos no último mês de outubro e, há pelo menos 80, o tênis faz parte da sua vida. O chileno nasceu em 1924, na comuna de Villa Allegre, região a cerca de 289 km de Santiago. Aos 18 anos, quando a família se mudou para a capital chilena, o tênis entrou na sua vida.
Miguel conversou com o PAGE NOT FOUND e contou sobre o início da sua paixão, como competiu com os melhores jogadores do Chile, participou da fundação do departamento de tênis no Clube Palestino, de Santiago, participou de uma competição internacional aos 97 anos e, aos 100, foi homenageado pelo clube onde ajudou a popularizar a prática de tênis e frequentou durante quase toda a vida. Procurada pelo blog, a Federação Internacional de Tênis (ITF, na sigla em inglês) confirmou que Tito é o atleta mais velho em atividade no esporte de raquetes.
Tito Zerené completou 100 anos em 2024 e é considero o tenista mais velho do mundo em atividade pela Federação Internacional de Tenistas
Reprodução/Instagram
PAGE NOT FOUND: Somos todos sul-americanos, mas às vezes a relação do Brasil com os outros países do continente é menor por causa da barreira linguística. Você já esteve por aqui?
TITO: Há muitos anos, quase 80, estive na cidade de Natal. Bem, foi apenas uma noite, porque no dia seguinte atravessamos o Atlântico um pouco assustados, porque enfrentamos uma tempestade enorme. E isso tudo por causa dessa viagem, em 1948, para assistir às Olimpíadas de Londres. Então o trajeto era: Brasil, Madri, depois Paris e finalmente Londres para ver as Olimpíadas. Assim, tive a oportunidade de passar uma noite no Brasil, em Natal.
PNF: Agora falando de tênis, você começou a praticar o esporte com 18 anos, certo?
TITO: Comecei no tênis aos 18 anos porque nasci, estudei e cresci em um povoado pequeno, ao sul de Santiago, no Chile, a capital, e lá não havia quadras de tênis. Quando toda a família se mudou para Santiago, comecei a ver quadras de tênis e fiquei fascinado. No primeiro dia em que vi uma, disse: Este é o esporte que quero praticar. Isso já faz mais de 80 anos e nunca deixei de jogar.
PNF: E quando você começou a jogar, o esporte era popular no Chile?
TITO: Na verdade não era tão popular. Ele passou a ser mais popular quando começaram a jogar Marcelo Ríos, Fillol e Jaime Pinto. Antes disso houve jogadores muito bons, como Andrés Hammersley. Mais antigos. Mas a verdade é que o tênis no Chile ganhou popularidade com o surgimento dos jogadores que começaram a competir internacionalmente.
PNF: Você acredita que fez parte de um movimento de massificação do tênis no seu país?
TITO: Não quero me dar esse título, porque na verdade eu jogava tênis como amador, não em nível internacional como faziam os amigos que saíam do país para representar o Chile. Para ser bem sincero, nunca joguei pela seleção do Chile, apenas campeonatos internos. Fui pela primeira vez aos Estados Unidos para jogar o campeonato sênior da Federação Internacional de Tênis (ITF). Foi a primeira vez que saí do país para jogar tênis. Fui mais por insistência dos meus filhos. Tenho três filhos e eles me disseram: Pai, vá. Então pensei: Bom, é a primeira vez que saio do país para jogar tênis — antes já tinha viajado, claro — e no mínimo vai servir como passeio, viagem e prazer. O divertido dessa viagem é que fui com a família toda: meus três filhos, meus netos — tenho vários — e até um bisnetinho que tinha dois anos. Então fui com toda a torcida para os Estados Unidos.
Tito e toda a família na viagem aos Estados Unidos, onde ele foi terceiro lugar no campeonato sênior da ITF
Reprodução/Instagram
PNF: Como foi a viagem? Você ficou emocionado?
TITO: Na verdade, a viagem foi muito prazerosa porque estávamos em família. Estava com meu filho, meu neto. Todos se divertiram muito. Aproveitamos bastante. E tive a sorte de ficar em terceiro lugar também e trazer uma medalha, algo que nunca imaginei. Achei que iria lá só passear, mas acabei jogando bem. No final perdi para um americano que foi o campeão, ele jogava muito bem, não havia como vencê-lo. E aproveitando que estava nos Estados Unidos, eu já tinha a ideia de visitar a Nasa (agência espacial dos EUA) para ver os foguetes que vão para a Lua. Então fomos à Nasa com a família. Gostei muito dessa viagem.
PNF: Quantos anos tinha o americano que ganhou o torneio?
TITO: Essa pergunta é interessante porque agora quero ir a um campeonato em Lima, no Peru. Me convidaram, e eu vou. Mas o curioso é que, no torneio dos Estados Unidos, eu era o mais velho. Tinha mais de noventa anos. Todos os outros tinham entre 80 e 82. Era o mais velho não só da categoria, mas de todos os participantes. Estava perto dos cem anos, 97 pra ser exato. Então era muita vantagem para eles. Eu disse agora a um amigo que também vai ao campeonato de Lima, Jaime Pinto: ‘Pergunte se há jogadores de 90anos, não de 80, mas de 90 ou 100’. E sabe o que ele respondeu? ‘Não, teríamos que tirá-los do cemitério’.
PNF: O senhor chegou à principal divisão do tênis chileno, mas permaneceu mais tempo na divisão de honra. O esporte era sua profissão ou era um hobby?
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TITO: Na verdade, como todo jogador no Chile — não sei em outros países — é preciso começar em certas categorias: quarta, terceira, segunda, primeira, honra e depois a categoria principal. Passei por todas. Joguei na quarta categoria, meu primeiro campeonato, e tive a sorte de ficar entre os quatro primeiros, que subiam de divisão. Depois ganhei a terceira. Não lembro exatamente, mas o fato é que cheguei à divisão de honra muito rápido e depois à principal. Joguei algumas partidas e a verdade é que não fui muito bem. Havia jogadores bons demais e os jogos eram muito tarde. Depois parei de jogar campeonatos, apenas partidas com amigos e em clubes sociais. Aquela vez que fui ao exterior foi a primeira vez que representei o Chile, porque, como digo, para mim o tênis era um hobby, não uma profissão. Eu jogava com os amigos e me divertia, como até hoje.
PNF: Qual foi a sua profissão?
TITO: Eu trabalhava na indústria. Importava máquinas da França e dos Estados Unidos que produziam tecido. Depois o material ia para a tinturaria para ser finalizado, passar, tingir, e então seguia para o ateliê de confecção, onde se faziam vestidos, blusas, calças, tudo o que veste as mulheres, exceto roupa íntima.
PNF: Qual é a sua história com o Clube Palestino?
TITO: Em 1963, no Clube Palestino, não havia quadras de tênis. Era apenas um clube social, que hoje é maravilhoso, com edifícios, quadras, piscina e salões de recepção muito bonitos, na avenida Kennedy, que é a principal avenida de Santiago. Como eu era o melhor classificado nas divisões de tênis do país na época, me disseram: ‘Tito, queremos jogar tênis aqui no Clube Palestino’. Reuni oito amigos, todos com sobrenome árabe, e formamos o departamento de tênis em 1963. Essa pergunta me traz um pouco de nostalgia. Há um quadro grande no clube com a foto de todos nós. E, na verdade, fico emocionado e um pouco triste, porque dos oito, o único vivo sou eu. Todos os outros já faleceram.
PNF: E qual é sua relação com a cultura palestina?
TITO: É muito saudável. Convivemos muito com os amigos. No clube não é necessário ser árabe para entrar. Aceitamos jogadores que joguem tênis e que não são árabes, são chilenos de todas as origens. Ficamos felizes em ter sócios de todas as nacionalidades.
PNF: Quando você completou cem anos, em 2024, o Clube Palestino fez uma homenagem. Como você se sentiu naquele momento?
TITO: Na verdade foi uma surpresa, porque eu não esperava. Já não faço parte da diretoria. Talvez tenha sido um gesto de agradecimento. Nunca perguntei exatamente o porquê. Fizeram um jantar em minha homenagem e havia muita gente que eu não conhecia — pais, irmãos, esposas, filhos dos sócios. Os sócios eu conhecia, mas não suas famílias. No salão principal havia cerca de duzentas pessoas, o que me surpreendeu muito. Naturalmente agradeci, porque foi uma surpresa para mim. Na época, fizeram um torneio de tênis com o meu nome e acho que ele vai continuar existindo. É engraçado porque, no troféu, vem escrito Tito Zerené.
PNF: Como você transmitiu essa paixão pelo tênis às novas gerações da sua família? Costuma jogar com seus netos?
TITO: Essa pergunta é interessante, porque talvez eu esteja enganado, mas não sei se existe alguém mais que jogue tênis com o filho, o neto e o bisneto ao mesmo tempo. Há quinze dias joguei com meu filho, com o filho dele — meu neto — e com meu bisneto no colo, que tinha um ano. Estávamos na quadra: filho, neto e bisneto. Quatro gerações jogando tênis. Até filmaram e registraram.
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PNF: Com que frequência você joga tênis hoje em dia?
TITO: Quando eu era jovem, jogava todos os dias. Adorava. Acordava cedo e sempre arrumava tempo. Só a chuva me impedia de jogar. Agora, por causa da idade, jogo aos sábados, domingos e uma vez durante a semana. Nos fins de semana, se o tempo está bom, com certeza estou no clube. E durante a semana jogo quando combino com os amigos.
PNF: De que outras maneiras você cuida da sua saúde?
TITO: Desde criança sempre gostei de esportes. Sempre pratiquei. Nunca fumei — nem quando era criança, jovem ou adulto. Nunca. E muito menos outras coisas que nem quero mencionar. Nunca experimentei. Quanto ao álcool, apenas uma taça em alguma festa, nada mais. Meus filhos podem confirmar: nunca me viram em mau estado. Então acho que o esporte e o trabalho são a razão de eu ter 101 anos. Não sei, talvez seja outra coisa, ou talvez o de cima não queira me levar ainda.
PNF: Então o esporte é o segredo da longevidade?
TITO: Eu penso que sim. Se meu conselho servir para algo: é importante fazer esportes desde criança. E não apenas nos fins de semana. Isso pode ajudar, mas não é o ideal. Quando alguém quer algo de verdade, sempre encontra tempo. Pode acordar mais cedo, almoçar mais tarde, sempre há tempo. Foi assim que fiz durante toda a vida. Sempre arrumava tempo para jogar tênis com amigos. Já são mais de 80 anos praticando esse esporte e, enquanto o senhor lá de cima não me chamar, continuarei jogando.
PNF: Falando agora da história do tênis: na sua opinião, quem foi o melhor tenista sul-americano? Guga, Marcelo Ríos, Guillermo Vilas…?
TITO: Eu sou de uma geração antiga e vi muitos jogadores. Houve vários bons tenistas chilenos. Mas, na minha opinião pessoal, Andrés Hammersley foi o melhor que vi jogar. Era elegante, se movimentava com muita elegância na quadra e jogava com uma mão. É verdade que o Chino (Marcelo) Ríos é muito conhecido e querido porque fez muitas coisas boas no tênis, mas eu ainda gosto mais do estilo de Andrés Hamerley.
O tenista chileno Andrés Hammersley (esq.) e o americano Donald Mc Neil (dir.) posam para a revista El Gráfico em 1942
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PNF: E no cenário internacional?
TITO: Tenho uma preferência muito clara: para mim, Roger Federer é o melhor de todos. Também era muito elegante. Era um prazer vê-lo jogar. Movia-se bem, fazia tudo com fluidez e naturalidade. Tive a sorte de vê-lo jogar nos Estados Unidos antes de se aposentar. E no Chile eu ficava grudado na televisão quando ele jogava.
PNF: De onde vem o apelido Tito?
TITO: Acho que, como meu nome é Miguel — Miguel Zerene Báez —, talvez para encurtar o nome me chamavam de Miguelito. E como ainda era longo, acabaram encurtando para Tito. Penso que foi assim, porque nunca soube exatamente por que me chamam Tito. Desde pequeno me chamam assim, não Miguel nem Miguelito. Então hoje todo mundo me conhece como Tito.
(*) Estagiário sob supervisão de Fernando Moreira
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Atleta de 101 anos não planeja parar de praticar o tênis: 'Não sei se existe alguém mais que jogue com filho, neto e bisneto ao mesmo tempo'



