O Flamengo publicou uma nota, nesta sexta-feira, reafirmando sua posição contrária à Medida Provisória que irá proibir as atividades de bets no Brasil — o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciará a decisão nesta tarde, em São Paulo. O rubro-negro afirma que não se pode acabar com com compromissos firmados após um longo processo de regulamentação das apostas esportivas, e que a proibição irá atingir em cheio o esporte brasileiro.
— O Brasil levou anos discutindo como regulamentar as apostas esportivas. O Congresso aprovou, o governo regulamentou, empresas pagaram para operar legalmente no país, fizeram investimentos e passaram a cumprir regras de fiscalização, tributação e proteção ao consumidor. Não se pode criar uma regra, levar empresas e instituições a assumir compromissos com base nela e, de um dia para o outro, mudar todo o marco regulatório — iniciou o Flamengo em comunicado.
— A mudança atinge em cheio o esporte brasileiro. O esporte brasileiro não pode ser analisado apenas a partir da realidade financeira dos clubes de maior receita. E não são atingidos apenas os clubes, é uma cadeia que recebe um impacto imediato: empregos diretos e indiretos, empresas de comunicação, marketing e tecnologia, fornecedores, arenas, prestadores de serviços e toda uma cadeia econômica. Atinge também a arrecadação pública — continuou o clube carioca.
Além disso, o Flamengo defende que proibir as atividades das bets não irá proteger o brasileiro de se envolver com dívidas com o jogo, afirmando que a medida tende a fazer crescer o mercado clandestino das apostas.
— Proibir as empresas que operam legalmente não significa acabar com as apostas. O jogo não desaparece e o mercado clandestino, que representa parcela expressiva da atividade, vai crescer e ocupar esse espaço. O jogo não vai acabar com uma canetada. O que acaba é a parte que o Brasil consegue regular, fiscalizar, tributar e responsabilizar — acrescentou o Flamengo.
— E o resultado pode ser menos segurança para quem investe, menos recursos para o esporte e para o país e menos capacidade de fiscalização sobre a atividade. O Brasil precisa combater o jogo ilegal. Precisa proteger sua população. Mas também precisa preservar a segurança jurídica, a capacidade de investimento e a sustentabilidade de suas instituições esportivas — completou.
Atualmente, 13 dos 20 clubes da Série A do Brasileirão estampam bets como patrocinadoras máster em suas camisas. O valor total injetado por elas em 2026 é de cerca de R$ 1,1 bilhão, mesmo valor que se apresentou na última temporada. Ao mesmo tempo, levantamento do GLOBO mostra que nenhum contrato envolvendo casa de aposta representa mais do que 13% de algum orçamento de participante do campeonato. E os times da primeira divisão têm apenas cerca de 7% das receitas oriundas de patrocínio de bets.
O clube que mais “depende” da sua patrocinadora máster é justamente o Flamengo, mas que também é o dono do maior contrato da História do futebol brasileiro — a Betano paga R$ 268,5 milhões por temporada — e do maior faturamento já registrado no país — foram R$ 2,08 bilhões de receita bruta em 2025. Assim, a fatia representa 12,85% do último orçamento.
Corinthians (10,6%) e São Paulo (10,5%) são os únicos outros dois clubes que veem esta faixa de representatividade acima dos 10% de seus orçamentos brutos. Os paulistas também estão no clube quase exclusivo daqueles que ganham acima de nove dígitos: a Superbet paga R$ 113 milhões fixos por ano ao tricolor, e a Esportes da Sorte paga R$ 103 milhões ao alvinegro.
Diante do iminente anúncio do Governo Federal, as bets notificaram extrajudicialmente clubes patrocinados sobre a possibilidade de rescisão imediata dos contratos, em uma tentativa de se resguardar no mercado.
A MP vai impedir cassinos on-line (como o jogo do tigrinho) e também as apostas de quota fixa (que são feitas sobre eventos reais, como partidas de futebol), segundo auxiliares do presidente. Inicialmente, o governo discutiu proibir apenas os cassinos, mas a decisão tomada foi impedir todos os tipos de apostas on-line.
Leia nota completa do Flamengo
O Brasil levou anos discutindo como regulamentar as apostas esportivas. O Congresso aprovou, o governo regulamentou, empresas pagaram para operar legalmente no país, fizeram investimentos e passaram a cumprir regras de fiscalização, tributação e proteção ao consumidor.
Não se pode criar uma regra, levar empresas e instituições a assumir compromissos com base nela e, de um dia para o outro, mudar todo o marco regulatório.
Nenhuma regulamentação é intocável. Se existem problemas, as regras precisam ser aperfeiçoadas. Se precisam ser mais duras, que sejam. Quem descumpre a lei deve ser punido. Mas existe uma diferença fundamental entre aperfeiçoar uma regulamentação e simplesmente desmontá-la.
Isso é uma questão de segurança jurídica.
E segurança jurídica não interessa apenas às empresas de apostas. Interessa a qualquer pessoa, empresa ou instituição que invista, contrate e faça planos de longo prazo no Brasil confiando nas regras estabelecidas pelo próprio Estado.
A mudança atinge em cheio o esporte brasileiro.
Uma decisão dessa dimensão afeta o futebol profissional, as categorias de base, o futebol feminino, os esportes olímpicos e os campeonatos.
O esporte brasileiro não pode ser analisado apenas a partir da realidade financeira dos clubes de maior receita. E não são atingidos apenas os clubes, é uma cadeia que recebe um impacto imediato: empregos diretos e indiretos, empresas de comunicação, marketing e tecnologia, fornecedores, arenas, prestadores de serviços e toda uma cadeia econômica.
Atinge também a arrecadação pública. O mercado regulado gera recursos por meio de impostos e das destinações previstas em lei, que chegam aos cofres públicos e são destinados a áreas de interesse da sociedade.
Enfraquecer o mercado legal pode produzir uma combinação especialmente ruim: menos recursos para o esporte e menos arrecadação para o país.
E o brasileiro ficará mais protegido? Essa talvez seja uma das perguntas centrais dessa discussão.
Proibir as empresas que operam legalmente não significa acabar com as apostas. O jogo não desaparece e o mercado clandestino, que representa parcela expressiva da atividade, vai crescer e ocupar esse espaço.
Pesquisa do Instituto Locomotiva, realizada em maio de 2026 em todo o país com 2.291 apostadores, aponta a presença relevante de práticas associadas ao mercado ilegal. Estudo da LCA Consultores, baseado nessa pesquisa, estima que entre 38% e 44% do valor apostado online no Brasil ocorra atualmente em plataformas clandestinas.
Há um dado particularmente importante: a participação estimada do mercado ilegal caiu depois da regulamentação, passando daquela faixa de 41% a 51% em 2025 para 38% a 44% no primeiro semestre de 2026.
O jogo não vai acabar com uma canetada. O que acaba é a parte que o Brasil consegue regular, fiscalizar, tributar e responsabilizar.
E o resultado pode ser menos segurança para quem investe, menos recursos para o esporte e para o país e menos capacidade de fiscalização sobre a atividade.
O Brasil precisa combater o jogo ilegal. Precisa proteger sua população.
Mas também precisa preservar a segurança jurídica, a capacidade de investimento e a sustentabilidade de suas instituições esportivas.
O esporte brasileiro não pode ser enfraquecido por uma decisão que não elimina o jogo, não elimina o mercado ilegal e ainda coloca em risco os investimentos, os empregos e os compromissos construídos dentro das regras que o próprio país estabeleceu.



