Neste fim de semana, o Autódromo de Interlagos recebe mais uma edição do Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1, em um momento especial para o automobilismo nacional: o país voltará a ter dois pilotos brasileiros no grid da categoria, com Gabriel Bortoleto correndo em casa e a estreia de Rafa Câmara na F1.
Mas falar de Interlagos e velocidade no Brasil é também reacender a memória de um momento icônico: há 35 anos, Ayrton Senna era o primeiro a atravessar a linha de chegada do GP do Brasil, quebrando um verdadeiro tabu em sua carreira.
Era a primeira vez que ele conseguia vencer a etapa, exausto após passar as últimas voltas apenas com a sexta marcha.
A McLaren de Senna, com sua icônica pintura da Marlboro, foi embalada, na reta final, pelos gritos do então narrador da Globo Galvão Bueno e, por trás, a música que lembra todos daquele capacete verde e amarelo tremendo com as vibrações do motor honda: o “Tema da Vitória”.
A composição do hino supra oficial do Brasil
— Foi normal, nada demais — é assim que Eduardo Souto Neto, maestro e compositor, fala do nascimento do que pode ser considerado um segundo hino brasileiro. O ano era 1981, Eduardo trabalhava como compositor de vinhetas para a Rede Globo e o então diretor musical da rede de televisão, Márcio Tonucci, tinha um desejo: sonorizar a Fórmula 1.
Souto Neto foi o escalado para a composição do tema que tocaria ao final de todo GP do Brasil que, naquela altura, era disputado no antigo Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro — demolido para as Olímpiadas de 2016, foi construído, em seu lugar, o Parque Olímpico.
— Era um pouco mais trabalhoso, era um tema maior, para emocionar o vitorioso. Juntei o pessoal do Roupa Nova. Aí eles ficaram esperando, eu fiz a música, a gente gravou ali na hora a base, depois fiz o arranjo de metais e de cordas, gravei tudo no mesmo dia — explica.
Estava feito o “Tema da Vitória”. No entanto, a música só se tornaria lenda anos depois.
Composição ficou engavetada por dois anos
A jornada começa tímida, sem pessoalidade: o “Tema da Vitória” era uma música feita para ser tocada no GP do Brasil de transmissão mundial a partir da Globo e apenas lá, pegando emprestada a banda de som em que eram transmitidas, também, o som dos motores e a torcida — para acontecer, foi necessária uma liberação especial da FIA (Federação Internacional de Automobilismo).
— Aí não tocaram mais — diz Eduardo: a música acabou sendo guardada até a vitória do brasileiro Nelson Piquet em 1983, no Brasil, e só depois se tornou a música para as conquistas de brasileiros na categoria.
Só que Nelson Piquet ainda não daria força à música, não como Senna.
— O Nelson Piquet, ele ganhava ou perdia, ele, “ah, não tô nem aí”, sabe, blasé — acusa o maestro.
— Se um vitorioso ganhar, mas não dá importância pra isso, que era o caso do Piquet, a música não faz sentido — afirma.
A chegada de Senna e seu espírito vitorioso
Senna entrou na categoria em 1984, no GP do Brasil, conquistando sua primeira vitória um ano depois, no GP de Portugal, no autódromo de Estoril. Para Eduardo, Ayrton era o extremo oposto de Piquet: demonstrava seus sentimentos, tinha a “gana do vitorioso”.
— O Ayrton Senna,se o carro quebrava, ele batia, ficava chateado, esperneava, e quando ganhava ele vibrava como qualquer um de nós vibraria —.
— Ele encarnou a vitória mesmo, o cara que luta pra caramba, que não ganha sempre, mas, quando ganha, faz as pessoas se identificarem com ele — afirma.
Com Senna e sua personalidade, a música passou a ter sentido, saindo de uma simples vinheta para se tornar, de fato, uma música e, eventualmente, o hino de Ayrton.
Reconhecimento pela composição do “Tema da Vitória”
Ele não se incomoda em não ser reconhecido pela sua música, muito pelo contrário: fica feliz com o fato da música ter se tornado “a musiquinha do Senna”.
— Quando falam com carinho, é perfeito, porque é mesmo, se tornou dele —.
Após a morte de Senna, a música, que tanto se assimilou ao piloto, se tornou quase que um hino não-oficial das conquistas brasileiras em esportes.
Mais recente, a vitória de Lucas Pinheiro Braathen, nas Olimpíadas de Inverno de Milano-Cortina, na Itália, foi embalada pelo “Tema da Vitória”, sendo tocada pelo DJ que estava no local.
Eduardo relembra do penta de 2002, quando a música também foi tocada:
— Eu chorei. O Brasil pentacampeão, e tocando o “Tema da Vitória”, cara, eu jamais poderia pensar numa coisa dessa — diz.
Outras canções que embalaram e embalam o país
No entanto, essa não é a única composição de Eduardo que você, provavelmente, conhece: ele também compôs a música tema do Rock in Rio, que embalou o Brasil ao fim da ditadura militar. A letra é do parceiro Nelson Wellington.
— Ele que fez essa letra que eu acho fabulosa, porque é uma letra que acabou, tanto a música quanto a letra, se tornando atemporal — diz.
Além disso, compôs arranjos para os principais artistas da MPB, como Gal Costa, Marisa Monte, Rita Lee e Ivan Lins, sendo ganhador de três prêmios Sharp de melhor arranjador de forma consecutiva.
Foi, pela primeira vez, em 1995 pelo disco “Retrato”, de Fagner; em 1996 por “Amores e Boleros” de Tânia Alves e “Todo o sentimento” em 1997, de Agnaldo Rayol.
Também criou arranjos de diversos jingles, principalmente dos cigarros Hollywood e Cartoon. Também foi arranjador de um mítico comercial do Brahma Chopp com João Gilberto ao violão.
Com a nova geração acelerando no Autódromo de Interlagos neste fim de semana, a expectativa dos torcedores brasileiros renova a torcida para que a tradicional trilha volte a ressoar forte nos autofalantes e nas transmissões, celebrando os novos passos do Brasil no topo do automobilismo mundial.




