as teorias da conspiração mais famosas das Copas


Um vídeo curto de Lionel Messi falando com os companheiros antes da final da Copa do Mundo virou um ponto de partida para uma série de teorias da conspiração sobre a derrota da Argentina para a Espanha. A frase “esqueçamos tudo” foi tratada nas redes sociais como uma referência a uma suposta ameaça recebida pelo elenco, que teriam sido avisados de que não poderiam conquistar o bicampeonato. Este tipo de tese conspiratória, no entanto, não é novidade em Copas.

Uma das teorias da conspiração mais famosas envolve o Brasil na Copa do Mundo de 1998. Depois da derrota por 3 a 0 para a França na final, criou-se uma narrativa de que o campeonato teria sido “vendido” à seleção francesa, anfitriã daquele Mundial, em troca de vantagens comerciais e alívio de dívidas. O Brasil, por sua vez, ficaria com o título de 2002 — o que realmente aconteceu, mas sem provas de ter sido parte de um “acordo”.

Ronaldo na derrota do Brasil para a França na final da Copa do Mundo de 1998 — Foto: Ivo Gonzalez / O Globo

O súbito mal-estar sofrido por Ronaldo Fenômeno, craque daquela seleção de Zagallo, horas antes da partida, e as sucessivas alterações na escalação oficial da equipe brasileira alimentaram a suspeita de que a decisão teria sido manipulada.

A teoria da conspiração ganhou tanta força que, em 2000, a Câmara dos Deputados instaurou a CPI da CBF/Nike para investigar contratos da seleção brasileira e a polêmica derrota para a França. A comissão apurou a misteriosa convulsão do atacante Ronaldo Fenômeno horas antes da partida e a suspeita de interferência da fornecedora de material esportivo em sua escalação.

Diversas pessoas ligadas à CBF foram convocadas para depor, incluindo o técnico Zagallo e o próprio Ronaldo. Até a decisão sobre quem tinha o de marcar o Zidane foi questionada na CPI. Apesar das dezenas de depoimentos e da grande repercussão pública, a CPI foi encerrada sem conseguir provar qualquer interferência comercial na escalação ou esquema de venda da Copa do Mundo.

A teoria da conspiração rendeu uma famosa frase utilizada até hoje como um meme: “Se as pessoas soubessem o que aconteceu na Copa do Mundo, ficariam enojadas”.

‘Mala Preta’ da Argentina em 1978

Outra teoria da conspiração famosa cercou a Copa do Mundo de 1978, realizada em meio à ditadura milita na Argentina. O ex-general Jorge Rafael Videla, por exemplo, que governou o país entre 1976 e 1981, teve seu nome envolvido em polêmicas nos bastidores.

Argentina conquistou seu primeiro título contra a Holanda, em 1978 — Foto: AFP
Argentina conquistou seu primeiro título contra a Holanda, em 1978 — Foto: AFP

Ao chegar às semifinais, a Argentina precisava vencer o Peru por quatro gols de diferença se quisesse tirar a vaga do Brasil, que tinha vencido a Polônia por 3 a 1. Os argentinos, então, sabendo do resultado que precisavam — a partida foi adiada para duas horas após terminado o jogo da seleção brasileira —, golearam por 6 a 0. Relatos apontam que o general Videla teria visitado o vestiário peruano antes da partida. O Brasil, por sua vez, ficou com o terceiro lugar, invicto, e o “título” de campeão moral. Quem venceu o título foi a própria Argentina, em casa.

A histórica campanha da Coreia do Sul em 2022, que eliminou Itália e Espanha, é constantemente alvo de teorias. O motivo são as polêmicas e graves falhas de arbitragem ocorridas nestes confrontos, que levantaram suspeitas de que a Fifa estaria interessada em impulsionar o avanço de um país anfitrião asiático para promover o esporte na região.

‘Esqueçamos tudo’: Argentina em 2026

Após a derrota da Argentina para a Espanha por 1 a 0 na grande final disputada nos Estados Unidos, México e Canadá, surgiram teorias sobre uma suposta pressão institucional da Fifa para favorecer seleções europeias. A emblemática frase “esqueçamos tudo” dita por Messi aos companheiros no vestiário foi interpretada por alguns torcedores nas redes como um aviso de que não poderiam ser campeões, embora jogadores como De Paul tenham refutado veementemente qualquer manipulação.

Outra versão difundida pelo jornalista argentino Pablo Carrozza afirma que Gianni Infantino teria acertado com a Uefa a conquista de uma seleção europeia em troca de apoio à sua permanência na presidência da Fifa. A acusação também foi apresentada sem provas ou indicação de fontes. O desgaste recente entre Uefa, Conmebol e AFA, agravado pela frustrada realização da Finalíssima, passou a ser utilizado como contexto para uma negociação cuja existência nunca foi demonstrada.

O árbitro esloveno Slavko Vincic também foi incluído nas teorias. Publicações afirmam que ele teria sido preso ou condenado por envolvimento com tráfico de pessoas e, por isso, estaria sujeito a chantagens. A informação é enganosa. Vincic estava em um local alvo de uma operação policial contra uma rede de prostituição, drogas e armas na Bósnia, em 2020. Foi levado para prestar depoimento como testemunha, liberado sem acusação e não respondeu a processo pelo caso.

Decisões de Lionel Scaloni e lances da partida completam a narrativa construída depois da derrota: a ausência de Lautaro Martínez, a utilização de jogadores com problemas físicos, as substituições, a expulsão de Enzo e uma desatenção de Giuliano Simeone no início da jogada do gol espanhol. São episódios reais e discutíveis do ponto de vista esportivo, mas nenhum deles comprova interferência externa. Também não há uma sequência de decisões de arbitragem capaz de demonstrar favorecimento deliberado à Espanha.

A atuação argentina, muito abaixo do que a equipe apresentara durante a Copa, ajudou a dar alcance às suspeitas. A seleção que chegou à final com 19 gols não finalizou durante os 90 minutos e sofreu 20 tentativas espanholas ao longo da partida. A diferença entre a expectativa e o desempenho abriu espaço para explicações externas, embora o próprio jogo ofereça uma mais direta: a Espanha controlou a bola, o campo e o ritmo, enquanto a Argentina não conseguiu levar Messi para as regiões em que ele havia decidido partidas anteriores.



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