Um aristocrata italiano obcecado por colecionar armamento militar é acusado de pagar uma quantia vultosa para caçar pessoas inocentes durante “safáris humanos” promovidos durante a Guerra da Bósnia, nos anos 1990.
O homem não identificado, oriundo de uma família rica de Milão, teria se juntado a franco-atiradores em Sarajevo (Bósnia) durante o conflito no Bálcãs, segundo informações publicadas na quarta-feira (17/6) pelo jornal “The Times”, de Londres.
Os turistas macabros são acusados de se posicionar ao lado de homens armados sérvios nas colinas que cercam a cidade bósnia, de onde os estrangeiros miravam os civis lá embaixo enquanto a guerra devastava a região.
O homem é procurado para prestar depoimento a autoridades judiciais na Itália. Ele teria se gabado diversas vezes de sua viagem a Sarajevo durante conversas em jantares com amigos próximos. O homem também teria dito a uma ex-companheira que viajara de avião para Sarajevo com “pessoas que se tornavam franco-atiradores nos fins de semana para matar muçulmanos”. Ela mostrou à polícia uma foto de uma autorização que o aristocrata havia usado para entrar em zonas de guerra e anotações que ele mantinha sobre suas supostas mortes.
“Fui procurado por uma testemunha que relatou que o aristocrata havia se gabado para amigos sobre o safári mais de uma vez durante jantares”, disse o escritor e investigador Ezio Gavazzeni ao jornal londrino.
Combatente mira com fuzil durante a Guerra da Bósnia, em 6 de setembro de 1992
AFP
Mulheres correm por rua de Sarajevo durante tiroteio
AFP
Homem corre durante tiroteio em Sarajevo, em 31 de maio de 1992
AFP
Investigadores italianos já interrogaram quatro supostos atiradores desde que as alegações sobre esses “passeios de caça humana” envolvendo a elite social surgiram no documentário “Sarajevo Safari”, de 2022, do cineasta esloveno Miran Zupanic.
A casa de um dos suspeitos foi alvo de uma operação de busca e apreensão, na qual a polícia recuperou um silenciador na quarta-feira, na cidade de Alessandria — localizada a cerca de 100 quilômetros ao sul de Milão.
Áustria também investiga
Autoridades da Áustria também abriram uma investigação formal contra dois suspeitos ligados às denúncias dos “safáris humanos” durante o cerco sérvio a Sarajevo. O Ministério da Justiça confirmou que a investigação foi aberta em 25 de abril e classificou o caso como relacionado a possíveis crimes de guerra extremamente graves. A iniciativa foi impulsionada pela ex-ministra da Justiça austríaca Alma Zadic, do Partido Verde, que vem pressionando por aprofundamento das apurações.
Segundo relatos, participantes dos “safáris humanos” também seriam oriundos de Reino Unido, França, Alemanha, Espanha, Rússia, Canadá e EUA.
‘Listas de preços’
As acusações mais chocantes envolvem supostas “listas de preços” utilizadas pelos grupos armados. Segundo documentos e relatos citados pelo jornal The Times e pelo livro “Pay and Shoot”, do jornalista croata Domagoj Margetic, diferentes valores eram cobrados conforme o perfil das vítimas.
Atiradores bósnios durante o cerco a Sarajevo, 1º de agosto de 1992
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Homens e mulheres adultos teriam custado cerca de 80 mil marcos alemães da época. Mulheres jovens valeriam mais. Já mulheres grávidas seriam consideradas “alvos premium”, chegando a 110 mil marcos. Há ainda testemunhos afirmando que crianças também eram deliberadamente escolhidas como alvos.
O cerco
O cerco de Sarajevo durou quase quatro anos e é considerado o mais longo da guerra moderna. Durante o conflito, mais de 10 mil pessoas morreram em consequência de bombardeios e ataques de franco-atiradores realizados contra civis na capital da Bósnia e Herzegovina. A principal avenida da cidade ficou conhecida mundialmente como “Sniper Alley” (“Alameda dos Franco-Atiradores”), devido à frequência dos ataques.
Magistrados de vários países devem se reunir na sede da Agência da União Europeia para a Cooperação Judiciária Penal, em Haia (Holanda), em 29 de junho, para discutir as diversas investigações sobre os “safáris humanos”.
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