Existem amizades que atravessam o tempo. Existem exemplos de vida que se cruzam com obras capazes de moldar a identidade de um povo. E existem histórias que só podem ser plenamente compreendidas quando são iluminadas pela força da ancestralidade. É exatamente isso que revela o emocionante documentário “3 Obás de Xangô”, dirigido por Sérgio Machado e disponível no Globoplay.
Narrado por Lázaro Ramos, o documentário mergulha na profunda amizade entre Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé, três artistas fundamentais para a construção do imaginário da Bahia e do Brasil. Muito além da literatura, da música e das artes plásticas, eles encontraram no Candomblé uma fonte permanente de inspiração, respeito e compromisso com a cultura afro-brasileira.
O que muitas pessoas não sabem é que os três receberam uma das maiores honrarias concedidas dentro do Candomblé: o título de Àwọn Ọba Ṣàngó — os Obás de Xangô. A distinção lhes foi concedida por Mãe Senhora, terceira Ìyálórìṣà do tradicional Ilé Àṣẹ Òpó Àfọnjá, Terreiro fundado por Mãe Aninha e reconhecido como um dos mais importantes do Brasil. Não se trata de uma iniciação religiosa, mas de um título honorífico destinado a homens que, por sua atuação, proteção e dedicação, tornam-se representantes e defensores civis do terreiro e de seus valores perante a sociedade.
Os Obás de Xangô exercem uma função semelhante à de ministros ou conselheiros do rei. Essa tradição foi criada por Mãe Aninha, em 1936, com o objetivo de fortalecer os laços entre o terreiro e a sociedade civil, reunindo personalidades comprometidas com a preservação da cultura afro-brasileira. Assim, Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé passaram a integrar esse seleto corpo honorífico, unindo sua arte ao compromisso de proteger e valorizar a herança africana no Brasil.
Cada um recebeu um título específico: Dorival Caymmi tornou-se Obá Oníkòyí, Jorge Amado foi nomeado Obá Àrólú, e Hector Julio Páride Bernabó, o Carybé, recebeu o título de Obá Ọnàṣókun.
A honraria de Obá possui enorme prestígio dentro da tradição do Òpó Àfọ́njá e representa um reconhecimento especial àqueles que colocam sua influência, seu talento e sua voz a serviço da proteção do terreiro, da valorização da cultura de matriz africana e do combate à intolerância religiosa.
A narração de Lázaro Ramos conduz essa viagem com sensibilidade, revelando que a amizade entre os três artistas era alimentada pelos mesmos valores cultivados pelo povo de santo: o respeito à ancestralidade, a valorização das mulheres, a reverência ao mar e o reconhecimento da resistência do povo negro. O documentário demonstra que suas obras nasceram da convivência verdadeira com os terreiros, com as ruas de Salvador e com a riqueza espiritual da Bahia.
Ao assistir “3 Obás de Xangô”, compreendemos que o Candomblé não inspirou apenas grandes obras de arte. Inspirou uma forma de enxergar o mundo, na qual cultura, espiritualidade, amizade e compromisso caminham lado a lado.
Mais do que um documentário, esta é uma verdadeira aula sobre memória, identidade e veneração à ancestralidade e à religiosidade africana, exercida por três artistas que viveram exaltando e defendendo o legado do povo africano. Os três já se foram, mas inspiraram esta obra que emociona, ensina e reafirma que preservar nossas raízes é também construir um futuro mais justo, consciente e fiel à nossa história.
Ká má gbàgbé ìpilẹ̀ wa àti àwọn baba ńlá wa. (Que nunca esqueçamos nossas raízes e os nossos ancestrais.)
Axé para todos!
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