A culpa é da porta, até nos perrengues do relacionamento

Você se levanta decidida, atravessa a sala, chega à cozinha e para no meio do caminho com a expressão de quem acabou de desembarcar em outro planeta.
– O que eu vim fazer aqui?
Olha para a geladeira. Olha para o fogão. Abre uma gaveta, embora tenha certeza de que não estava procurando um abridor de latas. Volta para a sala e, como num passe de mágica, lembra: foi buscar os óculos. Que estavam na sua cabeça.
A ciência chama isso de “efeito da porta”.
Para mais dicas e informações sobre sexo e relações, acesse o canal da Regina no YouTube
Eu chamo de entrar na cozinha e descobrir que o cérebro ficou na sala.
A porta apaga a memória
Ao atravessarmos uma porta, o cérebro pode interpretar que uma cena terminou e outra começou. Ele arquiva mentalmente o ambiente anterior e se prepara para o próximo. O problema é que, às vezes, arquiva junto o motivo que nos fez levantar.
A porta, portanto, não é apenas aquele objeto no qual batemos o dedinho do pé. É uma espécie de funcionária administrativa do cérebro:
– Sala encerrada. Assunto arquivado. Próximo!
E lá estamos nós, imóveis no corredor, tentando descobrir se íamos buscar água, atender o telefone ou fugir de casa.
O curioso é que basta voltar ao lugar onde tivemos a ideia para ela reaparecer. Entramos novamente na sala e lembramos de tudo. Até da discussão de 1997, que não tinha nenhuma relação com o assunto.
Na vida amorosa também existem portas
Aí vem à tona o motivo desta matéria. A vida amorosa e a porta! Nos relacionamentos, atravessamos muitas portas simbólicas: a do namoro, a da paixão, a da convivência, a do casamento, a dos boletos compartilhados e, finalmente, a mais perigosa de todas: A porta do banheiro deixada aberta.
Em cada passagem, alguma coisa pode ficar esquecida no cômodo anterior. No começo, a pessoa manda mensagem perguntando se você chegou bem. Depois de alguns anos, ela pergunta se você lembrou de comprar papel higiênico.
Antes, havia jantar à luz de velas. Depois, há uma vela guardada na gaveta para o caso de faltar energia.
Não significa necessariamente que o amor acabou. Muitas vezes, o casal apenas atravessou a porta da rotina e esqueceu o que tinha ido buscar do outro lado.
Esqueceu o carinho sem motivo, a conversa sem celular, o beijo que não serve apenas como recibo de chegada e a delicadeza de perguntar: – Como você está?
E esperar pela resposta é coisa cada vez mais rara, porque há quem pergunte já caminhando para outro cômodo e claro, caindo no buraco negro do esquecimento.
Comprometimento não é adivinhação
Estar comprometido amorosamente não significa apenas não trair. Essa é a versão econômica do compromisso, quase uma promoção de supermercado: leve uma fidelidade e ache que já fez tudo.
Comprometimento é permanecer emocionalmente presente. É perceber quando o outro está cansado, triste, distante ou considerando seriamente trocar você por um gato.
Também é dizer o que sente, em vez de esperar que a pessoa desenvolva poderes paranormais. Há relacionamentos abalados por frases nunca pronunciadas, desejos nunca explicados e mágoas cuidadosamente conservadas, como se fossem geleia artesanal.
Ninguém deveria precisar decifrar silêncio, cara fechada e barulho de panela para descobrir o que aconteceu.
Volte pela porta
Quando você entra num cômodo e esquece o que procurava, costuma voltar ao ponto de partida. Nos relacionamentos, às vezes é preciso fazer o mesmo.
Voltar àquela conversa que aproximava, ao elogio espontâneo, ao toque carinhoso e à curiosidade verdadeira pelo outro. Não para reproduzir eternamente o começo – ninguém aguenta viver em um primeiro encontro, escolhendo roupa durante três horas e fingindo que não ronca, mas para recordar por que os dois decidiram caminhar juntos.
O amor não costuma desaparecer de repente. Muitas vezes, fica esquecido atrás de alguma porta, enquanto o casal circula pela casa culpando o cansaço, o trabalho, a idade e o controle remoto desaparecido.
A boa notícia é que ainda dá para voltar e buscar. Só não pergunte o que você foi fazer na cozinha. Provavelmente os óculos continuam na sua cabeça.
Vídeo Sugerido:



Source link

- Advertisement -spot_img

More From UrbanEdge

Recordista sexual vai leiloar o nome do filho recém-nascido

A estrela da internet chegou a...

Morre Zuenir Ventura, mestre do jornalismo, aos 95 anos

Como de costume em sua carreira,...

São Gonçalo faz aniversário com melhorias no saneamento

Assim como Ari, moradores de outras...
- Advertisement -spot_img