Tempo frio e seco favorece ocorrência da doença, que pode ser letal. Vacina para prevenção é oferecida gratuitamente pelo SUS


Febre alta, dor de cabeça intensa, náuseas, vômitos, sensibilidade à luz (fotofobia), pescoço duro ou dolorido ao movimentar. Esses são alguns dos sinais de alerta da meningite, uma inflamação que afeta as membranas protetoras do cérebro e da medula espinhal. A versão contagiosa, especialmente a causada por infecção bacteriana, é considerada a mais agressiva. Nesses casos, o contágio, que se dá pelas vias respiratórias, ocorre por meio de gotículas de saliva provenientes de pessoas contaminadas. 

Os sintomas iniciais aparecem de repente e podem evoluir rapidamente, levando o paciente ao óbito em menos de 24 horas, nos casos mais graves. Por essa razão, o diagnóstico precoce é fundamental para um prognóstico favorável da doença, o que implica não apenas evitar a mortalidade, mas também sequelas como a surdez e déficits cognitivos.

A chegada das estações frias e secas, como o outono e o inverno, acende o alerta vermelho para a propagação da doença, sendo os períodos mais propícios para o aparecimento de surtos de meningites bacterianas, que são as mais letais (com taxa de mortalidade superior a 20%). Assim como o que ocorre com outras enfermidades contagiosas, a razão para o aumento dessas ocorrências combina fatores comportamentais, decorrente do consequente aumento da aglomeração de pessoas em locais fechados e com baixa ventilação; e ambientais, provocado pelo ressecamento das vias áreas e consequente redução da capacidade de defesa corporal.

Seis mil casos

Apesar de ser mais comum e mais perigosa em crianças, a meningite pode afetar pessoas de qualquer idade. Em 2025, foram registrados, no Brasil, mais de 6 mil casos da doença, o que acabou resultando em 781 óbitos. Com mais de 3 mil casos registrados, a região sudeste liderou o número de ocorrências, sendo seguida pelo sul (1.470 casos), o nordeste (954 casos), o norte (442 casos) e o centro-oeste (262 casos).

A rigidez na nuca, que se traduz na dificuldade em encostar o queixo no peito, aparece como o achado mais importante para a identificação da enfermidade. Em bebês, os sinais podem ser irritabilidade, choro constante, moleira protuberante e letargia. 

No Brasil, os casos são monitorados pelo Ministério da Saúde e a principal forma de prevenção é a vacinação, daí a importância de manter a caderneta em dia. Tanto o sistema público quanto o privado estão focados na imunização contra as formas de meningite bacteriana, que são as mais perigosas. Além delas, há, ainda, as originadas por vírus, fungos ou parasitas; e as não infecciosas, causadas por doenças inflamatórias, traumas ou reações adversas a medicamentos. 

No Programa Nacional de Imunização do Sistema Único de Saúde (PNI/SUS), são ofertados, gratuitamente, duas doses da vacina Meningocócica C para bebês (aos 3 e 5 meses) e o reforço com ACWY para adolescentes (11 a 14 anos). Os imunizantes oferecem proteção contra os tipos mais comuns da doença, que são transmitidos pelo sorogrupos A, B, C, W e Y da bactéria conhecida como meningococo. 

A vacina BCG, que protege contra as formas graves de tuberculose, também entra no combate, oferecendo proteção contra a meningite tuberculosa. Já a vacina Pentavalente, ofertada em três doses, ministradas no primeiro ano de vida (2, 4 e 6 meses), atua, dentre outras infecções, no combate à meningite pneumocócica. 

Na rede privada, a cobertura é ampliada pela oferta de vacinas que oferecem proteção, para todas as idades, contra os quatro sorogrupos de bactérias disponíveis. Em especial, destacam-se as vacinas contra o sorogrupo B, as chamadas Meningo B, que não são disponibilizadas no sistema público. 

Em Goiás

Em Goiás, foram contabilizados, no ano passado, 111 casos e 17 óbitos em razão da doença. A nível regional (centro-oeste), o Estado foi o que apresentou o maior número de ocorrências. 

Na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), o tema foi alvo, no último ano, de uma matéria correlata. Trata-se do projeto de lei nº 30240/25, de autoria do deputado Virmondes Cruvinel (UB), que pretende instituir ação contra a doença chamada febre oropouche, que é transmitida pelo mosquito-pólvora e pode evoluir para meningite. 

O presidente da Comissão de Saúde da Casa, deputado Gustavo Sebba (PSDB), apresentou, em 2015, em seu primeiro mandato, um projeto para a oficialização de uma campanha estadual de combate à doença. “No Brasil, a meningite é considerada uma doença endêmica, deste modo, casos da doença são esperados ao longo de todo o ano, com a ocorrência de surtos e epidemias ocasionais, sendo mais comum a ocorrência das meningites bacterianas no inverno e das virais no verão”, explicou o parlamentar, na ocasião.

A matéria acabou não chegando à sanção e foi arquivada por decurso de prazo legislativo.

O legislador, que é médico de formação e possui especialidade no tratamento de doenças tropicais, volta, na data de hoje, a reforçar a importância das campanhas de combate à doença, alertando sobre a importância da vacinação e do diagnóstico precoce. “A meningite ainda representa um desafio para a saúde pública, especialmente quando falamos da proteção de crianças, adolescentes e pessoas mais vulneráveis. Como médico e presidente da Comissão de Saúde da Alego, reforço a importância de ampliarmos as campanhas de informação, garantindo que a população conheça os sintomas e procure atendimento médico imediatamente ao perceber qualquer sinal”, afirma Sebba. 

Dentre os desafios mencionados, o deputado destaca a importância do fortalecimento das políticas públicas de imunização e a universalização do acesso às vacinas. “A prevenção continua sendo a forma mais eficaz de salvar vidas. Nosso compromisso é continuar trabalhando para fortalecer a saúde pública em Goiás, incentivando a vacinação, o acesso à informação e o cuidado com a população”, arremata o parlamentar. 

Histórico da doença

Embora existente há séculos, o reconhecimento médico da meningite só ocorreu no final do século XIX, com a identificação do meningococo por um bacteriologista austríaco. O feito se deu décadas após o relato do primeiro surto de meningite meningocócica, que foi documentado na Suíça, no início do mesmo século.  

Com a entrada de imigrantes europeus, no início do século XX, o Brasil passa a registrar os primeiros casos. O Estado de São Paulo foi o primeiro a ser afetado, servindo também, mais tarde, de epicentro da epidemia nacional que ocorreu logo no início da década de 1970. Durante o surto, foram registrados dezenas de milhares de casos em todo o país, mas os números acabaram sendo ocultados pela censura do regime militar. 

A divulgação de informações e as campanhas de vacinação em massa só tiveram início em 1975, após a doença atingir familiares de autoridades da época. Nos anos seguintes, foram observados queda nos casos e estabilização nos registros de ocorrência da doença.

No período recente, o Brasil vem registrando, no entanto, oscilações nas incidências da doença, com a ocorrência de surtos pontuais, como o que foi identificado no início do ano passado.   



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