Moradores e trabalhadores da Lapa relatam rotina de medo com assaltos constantes: 'Não tem hora, é sempre um horror'

Conhecida pela vida noturna, pelos bares, shows e cartões-postais, a Lapa, no Centro do Rio, é um dos bairros mais simbólicos do Rio. Porém, por trás da boêmia que atrai turistas e cariocas, moradores, comerciantes e frequentadores relatam uma rotina cada vez mais atravessada pelo medo. A sensação de insegurança, dizem, se agravou nos últimos meses e ganhou ainda mais nitidez após a Operação Colmeia, desflagrada nesta terça-feira pelas polícias Civil e Militar em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio (Gaeco/MPRJ). A ação buscou desarticular o tráfico de drogas na região.
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A ação resultou na prisão de 17 suspeitos e revelou uma engrenagem criminosa que, segundo a ivnestigação, se instalou em pontos estratégicos do bairro. Entre os achados estão a atuação de traficantes em áreas de grande circulação, o avanço do crack em vias movimentadas, a cobrança de taxas a ambulantes e até a submissão de usuários de drogas a sessões de tortura.
Para quem vive ou trabalha na Lapa, no entanto, a operação apenas confirmou em que documentos e mandados o que já vinha sendo percebido nas calçadas: a de que o bairro mais conhecido da boemia carioca convive com uma presenca cada vez mais ostentisiva do crime.
Uma rotina que foi alterada
Para quem circula diariamente pela região da Lapa, a principal queixa é a mesma: a sensação de insegurança deixou de ser restritra a madrugada e passou a fazer parte também durante o dia. É o que relata a biomédica Camile de Araujo, que trabalha na Lapa.
— São dezenas de usuários em várias ruas. Não tem hora ou lugar. Já fui agredida às 15h, já tentaram me roubar de noite também. De um ano apra cá, é sempre um horror andar a pé na Lapa — relata.
Uma percepção compartilhada por Isaura Oliviere, de 73 anos. Moradora de Santa Teresa, a aposentada desce com frequência até a Rua do Riachuelo para fazer compras, ir até consultas médicas e resolver tarefas cotidianas.
Segundo Isaura, o assunto já se tornou recorrente entre amigos e vizinhos da Lapa e entorno. Inclusive, por conta da sensação de insegurança, ela passou a evitar determinados trechos.
— Moro há 11 anos em Santa Teresa e a Lapa se tornou parte da minha rotina. Mas, nos últimos dois ou três meses, a situação está difícil. São cada vez mais usuários perambulando e intimidando as pessoas — disse a aposentada.
A preocupação também aparece entre trabalhadores do comércio. Um garçom de um tradicional bar da Avenida Mem de Sá, que pediu para não ser identificado, afirma que episódios de intimidação se tornaram frequentes.
— Passam sempre tão entorpecidos que nem sabem onde estão. Vira e mexe atacam alguém aleatório na rua. Todo dia vemos ou ouvimos algum relato — disse.
Tráfico a céu aberto em área turística
Um morador da Rua Joaquim Silva há 30 anos, que preferiu não se identificar, diz que o entorno da Escadaria Selarón mudou de forma acelerada e que a venda de drogas ocorre sem grandes disfarces, até mesmo durante o dia.
— Eles andam pela calçada como se fosse um pedestre qualquer. O usuário chama a atenção deles, eles fazem sinal para um comparsa escondido em um desses imóveis abandonados, pega a droga, passa para o usuário e segue a vida. É tudo muito rápido — contou.
A descrição chama atenção pelo local onde acontece. A esquina da Rua Joaquim Silva com a Travessa do Mosqueira, um dos pontos de atuação dos agentes nesta terça-feira, fica a cerca de 100 metros da Escadaria Selarón e a 200 metros dos Arcos da Lapa. Também está a 380 metros do Quartel-General da PM e a 670 metros da sede da Polícia Civil e da 5ª DP.
Em outras palavras, a dinâmica descrita por moradores e alvo da operação se desenvolve a poucos passos de cartões-postais da cidade e de estruturas centrais das forças de segurança.
O impacto na boemia e no turismo
A mudança no clima das ruas já alterou rotinas em um bairro cuja vocação histórica é justamente receber gente.
Ex-diretor de hospitalidade de um hotel da região, Juan Sander diz que a desordem urbana e a presença de pessoas em situação de rua afetam diretamente a imagem da Lapa.
— Os Arcos da Lapa, por exemplo, são como uma Torre Eiffel, uma construção histórica que possui um alto valor para o desenvolvimento da cidade. Mas talvez as pessoas nem saibam disso. Fica difícil passear pelo local e fazer um turismo com calma. Além disso, a imagem que passa, com tantas pessoas em situação de rua, é negativa para o bairro e para todo o Rio de Janeiro — afirmou.
Dono de uma tradicional casa de shows, um empresário relata que a sensação de insegurança obrigou o estabelecimento a mudar procedimentos.
— Nós buscamos reforçar nossa equipe de segurança, além de mudar um pouco o horário de trabalho. Ficam na porta até o último cliente ir embora, para não correr risco de algo acontecer. Recebemos muitos relatos de problemas na hora de pegar transporte ou caminhar até o carro. É uma zumbilândia na madrugada — disse.
Crise social visível
Dados da Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) mostram aumento expressivo nos atendimentos e acolhimentos a pessoas em situação de rua na região da Lapa e adjacências, incluindo o Centro.
De janeiro a março deste ano, foram 16.871 atendimentos e 10.130 acolhimentos. No mesmo período de 2025, os números foram de 13.137 atendimentos e 7.950 acolhimentos. Já no primeiro trimestre de 2024, foram 6.399 atendimentos e 2.736 acolhimentos.
Na comparação entre o primeiro trimestre de 2024 e o deste ano, o número de acolhimentos cresceu cerca de 270%. Os acolhimentos institucionais não são obrigatórios e dependem de aceitação, além de uma mesma pessoa poder ser atendida ou acolhida mais de uma vez.
Segurança
De acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), o número de ocorrências de tráfico de drogas quase dobrou no primeiro bimestre deste ano, na região da 5 ª DP (Mem de Sá), responsável pelo registro das ocorrências na Lapa. Foram 21 casos em janeiro e fevereiro de 2026, contra 11 nos mesmos meses do ano passado.
Já crimes contra o patrimônio também tiveram alta na área nesse período. Os roubos de celular subiram 87%, chegando a 293 casos nos primeiros dois meses deste ano. Os roubos de rua — que englobam, além dos roubos de celular, os de pedestre e em ônibus — cresceram 58%, somando 627 ocorrências em janeiro e fevereiro. Os furtos de celular também aumentaram, passando de 661 casos no primeiro bimestre de 2025 para 752 este ano, uma alta de 14%.



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