Nos bastidores do carnaval: segredos e contrastes marcam contagem regressiva para desfiles na Sapucaí

Faltam menos de dez dias para as escolas de samba do Grupo Especial do Rio desfilarem pela Marquês de Sapucaí. Durante três noites, artistas do povo mobilizam conhecimentos ancestrais para narrar histórias de forma genuinamente brasileira. Os desfiles são mundialmente conhecidos como o “maior espetáculo da Terra”. Mas, na quarta-feira de cinzas, todos são lembrados de que eles valem nota: mais do que espetáculo, o Carnaval é competição. Comunidades inteiras dedicam meses de trabalho para construir o encantamento. E como é trabalhar no processo? O que acontece em oito horas de atividade na contagem regressiva?
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Por volta das 13h desta quarta-feira, ao atravessar as grades brancas da Rua Arlindo Rodrigues, no bairro de Santo Cristo, região central do Rio, foi possível ver o primeiro dos 12 barracões ocupados pelas principais escolas de samba da cidade. Eles seguem um padrão: grandes proporções, laterais e fundos de cimento, telhado metálico e, à frente, portas de ferro com a identificação da agremiação.
Após 54 passos largos, os sons de marteladas, serragem e soldas no barracão contrastam com as músicas escolhidas pelos próprios funcionários. Engana-se quem aposta no samba como trilha sonora: o rap nacional, o trap, o funk e o forró ditam o ritmo dos trabalhos.
Do lado de fora, os ruídos são nítidos, mas, sem autorização, é impossível saber o que acontece no interior dos barracões. Ainda assim, as escolas adotam diferentes estratégias para proteger suas obras: portões fechados, lonas à frente das portas e estruturas de madeira improvisadas.
No centro da Cidade do Samba, um grupo de cerca de 20 turistas observa a escultura de Laíla, utilizada no desfile da Beija-Flor em 2025. A cena contrasta com as centenas de componentes da Mocidade Independente que se dispersam em diferentes direções, após participação em programa de TV, enquanto caminhões de entrega cruzam o espaço.
Escultura do mestre Laíla na Praça central da Cidade do Samba
Walter Farias
Diálogo das diferenças
O ritmo acelerado dos trabalhadores embalado pelas caixas de som, a calma curiosa dos turistas e a agilidade dos entregadores são os primeiros sinais do diálogo das diferenças na Cidade do Samba. Há outros. Enquanto os cerca de 70 minutos de desfile na Sapucaí passam num piscar de olhos, ali o tempo parece aumentar.
Quando o relógio marca 14h20, muita coisa já aconteceu. Na praça de alimentação — com dois estabelecimentos e um palco para apresentações —, funcionários de diferentes agremiações interagem entre si. As conversas passam por tudo, menos pelo que acontece dentro dos barracões.
Um encontro entre dois diretores de carnaval de escolas distintas chama atenção. Caminhavam em sentidos opostos, ambos bem-humorados. Trocam olhares, param, se cumprimentam e conversam rapidamente. Um segue sorrindo; o outro, logo depois, assume expressão séria.

Instantes mais tarde, um carnavalesco caminha de forma descontraída rumo ao seu barracão, conversando com integrantes da equipe. Ao fundo, o carnavalesco de outra agremiação, visivelmente tenso, recebe encomendas. Nenhum deles percebe que as lonas de um barracão entre ambos começam a subir com o vento que antecede uma pancada de chuva, revelando parte de uma alegoria.
Funcionários agem rapidamente: puxam a lona para baixo e deslocam um veículo para segurar o tecido. A movimentação é breve, mas suficiente para que um profissional de limpeza sinalize a cena a um colega. Um turista acompanha o gesto, se empolga com o veículo, saca o celular e aponta para o barracão. Um funcionário, pede que o aparelho seja guardado. Gringo, o homem não entende, um segundo membro da escola ordena em inglês “Sem fotos, sem vídeos. Guarda”, enquanto faz um sinal de X com os braços e balança a cabela negativamente.
No lado oposto, um carro alegórico ou parte dele é manobrada para fora de outro barracão, completamente coberta por tecido. Próximo dali, um grupo de oito turistas assiste à apresentação de um casal de mestre-sala e porta-bandeira. O fluxo de pessoas diminui, mas a falta de vagas para tantos automóveis na Cidade do Samba indica que o trabalho segue intenso.
Diretores de carnaval, de harmonia, destaques e musas cruzam o espaço em diferentes direções. Carros de luxo e sedãs pretos entram na Cidade do Samba e seguem para barracões distintos. Louise Science, filha de Chico Science — um dos homenageados pela Grande Rio neste ano —, visita o barracão da escola.
Após as 15h, componentes de ao menos duas agremiações chegam para retirar fantasias. A praça de alimentação se enche de gente empolgada. Enquanto o burburinho cresce do lado de fora, nos barracões seguem os trabalhos de acabamento das alegorias. Nos andares superiores, equipes de costura aceleram a confecção das fantasias e embalam o material pronto em sacolas plásticas transparentes.
Visitantes acompanham a apresentação de um pequeno grupo de artistas formado por um casal de mestre sala e porta-bandeiras, uma passista e alguns ritmistas. Também recebem algumas dicas de como tocar tamborim e na sequência ensaiam uma musicalidade. Agora, ao menos sete escolas organizam a distribuição de fantasias na Cidade do Samba.
Grupo de turistas estrangeiros se diverte ao acompanhar apresentação de artistas na Cidade do Samba
Marcelo Theobald / Agência O Globo
Celebridades do samba
Entre 16h e 17h, figuras conhecidas do universo carnavalesco circulam pelo local. André Bonatte, diretor de carnaval da Imperatriz Leopoldinense, conversa com integrantes da escola. Ciça, mestre de bateria da Viradouro e enredo da agremiação neste ano, deixa o barracão acompanhado de membros da equipe. Na sequência eles param afastados do movimento, conversam com seriedade e depois descontraem. Caminham até a praça de alimentação, Ciça troca palavras amistosas com representantes de outras escolas e dá atenção a fãs.
Tia Surica, matriarca da Portela, caminha lentamente. Entre acenos e cumprimentos dignos da realeza, ela tenta disfarçar a ansiedade para o desfile da Majestade do Samba.
— Não tenho o costume de visitar o barracão. Hoje vim buscar minha roupa. Costumo dizer que só sinto aquela coisa quando chego na Avenida. Mas, chegando tão perto, é claro que começamos a pensar no desfile — confessa.
Já é noite
Quando a noite substitui o dia, centenas de componentes se espalham pelas portas dos barracões para buscar suas fantasias. Alas coreografadas se posicionam em lugares estratégicos para ensaiar, enquanto os sambas-enredo de 2026 ecoam em coro.
Também é na noite que os trabalhos das comissões de frente começam. Às 20h37, os primeiros bailarinos começam a ser vistos pela Cidade do Samba. Embora compartilhem o mesmo ambiente, procuram ensaiar distantes uns dos outros, numa tentativa de preservar segredos.
Os bailarinos chegam munidos de mochilas, lanches, garrafas d’água e mudas de roupa. Contam que, tão perto da apresentação, é quase certo trabalhar ao longo de toda a noite. Antes dos ensaios, passam por testes de maquiagem, tiram dúvidas finais, se alongam e se aquecem.
Teste de luz
Com o cair da noite, algumas escolas simulam dentro de seus barracões a iluminação encontrada na Marquês de Sapucaí. A ideia é entender como seus carros e fantasias reagem ao ambiente que encontrarão na noite de desfile. Também é possível ver entre pequenas frechas que as alegorias são acesas.
Os sons de ferramentas, máquinas de costura, conversas e ordens ecoam de forma mais nítida no período da noite. Há barracões sem previsão de encerrar os preparativos, outros que avançam madrugada adentro e alguns que diminuem o ritmo. Todos, porém, ultrapassam o horário convencional de trabalho.
Equipe responsável pela fabricação de fantasias de uma escola
Marcelo Theobald / Agência O Globo
Às vésperas do desfile, a Cidade do Samba revela um carnaval distante do brilho da Avenida, mas essencial para que ele exista. Entre o rigor da competição, o cuidado com os segredos e a entrega de quem atravessa dias e noites de trabalho, os barracões expõem a engrenagem invisível que sustenta o espetáculo. Quando as luzes da Sapucaí se acenderem, cada detalhe carregará o peso dessas horas silenciosas — e o som insistente do trabalho que nunca para.



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