Em comunidades, 70% dos empreendedores não querem voltar ao emprego formal

Uma pesquisa realizada em oito favelas do Rio de Janeiro pelo Instituto Acredita, com apoio da Light e da Secretaria Estadual de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, que analisou o perfil, os desafios e as perspectivas de quem empreende nas periferias da cidade, apontou que mais de 70% dos empreendedores que antes atuavam no regime CLT afirmaram não querer retornar ao emprego formal. O estudo mostra ainda que, para 85% dos entrevistados, o próprio negócio é a única fonte de renda.
— Esses dados mostram que o empreendedorismo deixou de ser apenas uma necessidade e passou a ser uma escolha consciente para muitas pessoas — afirma Rafael Ponzi, diretor-executivo do Instituto Acredita.
A pesquisa também revela que 60% dos empreendedores são mulheres, muitas delas mães, e que 59% dos clientes vivem na própria comunidade, reforçando a importância da economia local.
— A pesquisa mostra que o empreendedorismo nas periferias é, ao mesmo tempo, uma estratégia de sobrevivência, renda e cuidado. Trabalhar perto de casa, dentro da própria comunidade, facilita a conciliação entre trabalho e vida familiar — observa Paulo Cavalcante, sociólogo responsável pela pesquisa do Instituto Acredita.
Foi o caso da confeiteira Priscila Souza, moradora de Cosmos, na Zona Oeste do Rio, transformou a cozinha do próprio apartamento em um negócio estruturado. Ela aprendeu a precificar melhor seus produtos e a utilizar as redes sociais como ferramenta de marketing. Seus vídeos já alcançaram mais de 10 mil visualizações.
— Antes eu trabalhava fora e sofria com horários e deslocamento. Hoje tenho uma lojinha perto de casa e mais qualidade de vida.
Na Ilha do Governador, Rizolene de Souza também está vendo seu salão de beleza dar um salto de profissionalização.
— Aprendi a me organizar financeiramente, anotar tudo o que gasto e ganho, entender meu lucro.
As duas microempreendoras participaram de uma capacitação oferecida gratuitamente pelo Acredita em parceria com a Light, e que, na semana passada, formou mais de 500 profissionais, em evento realizado na Biblioteca Parque Estadual, no Centro. O curso ensinou conceitos de empreendedorismo, finanças, marketing e vendas, entre outros temas.
Apesar da força desses negócios, os desafios são significativos: mais de 60% dos entrevistados não controlam adequadamente seus gastos, apenas 28% conseguem estimar o faturamento mensal e 63% não utilizam crédito formal.
— Quando oferecemos capacitação, acompanhamento e acesso à informação, ajudamos esses empreendedores a construir negócios mais sustentáveis e com impacto real na vida das famílias — destaca Cavalcante.
O Instituto Acredita pretende ampliar o alcance do programa nos próximos ciclos, levando a metodologia para novas comunidades e fortalecendo parcerias com lideranças locais, setor privado e gestores públicos. A estratégia inclui a expansão do projeto para novas comunidades e o fortalecimento da atuação digital, com o uso de ferramentas de inteligência artificial para ampliar o alcance das capacitações no estado do Rio de Janeiro e em outras regiões do país. O objetivo é transformar dados, formação e histórias reais em políticas e ações mais eficazes de desenvolvimento econômico nos territórios.



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