Na terça-feira, quando tudo aconteceu, quem vive na Zona Sul carioca, como eu, seguiu a vida numa aparente normalidade. Quando veio o impacto invisível: o comércio sem equipe, as entregas atrasadas, as ausências que denunciam a violência. A maioria dos trabalhadores que move a região mais privilegiada da cidade vive nas áreas onde as ações violentas se deram. Mas se não fosse isso, que atenção as pessoas dariam ao ocorrido? Parece que não, mas muita gente é meio que a Arminda (Grazi Massafera) da trama das nove. Da periferia, a personagem só quer a força de trabalho. Pouco importam a história, os dramas e as dificuldades enfrentadas por Gerluce (Sophie Charlotte), a cuidadora de sua mãe, que a ajuda em sua mansão. E não, eu não estou dizendo que um empregador tenha a responsabilidade sobre a dura rotina de cada um de seus funcionários. Zelar pelos direitos básicos de qualquer cidadão, como segurança e direito de ir e vir, é dever do Estado. Mas eu falo de humanidade, de responsabilidade social. De entender que algumas realidades que parecem distantes de nós estão totalmente integradas à nossa vida, por mais que muita gente ainda não tenha se dado conta. Enquanto estamos aqui comentando o fato, tem gente chorando a perda de um filho e tentando seguir. A comunidade recolheu seus mortos praticamente sozinha.




