Uma semana após a forte reversão das expectativas do mercado financeiro com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para um quarto mandato, as incertezas sobre os nomes da equipe econômica e inquietações em torno de propostas de medidas heterodoxas para reduzir a trajetória de alta da dívida pública voltaram a pressionar os ativos brasileiros.
O dólar fechou a R$ 5,48, a maior cotação do ano. A Bolsa caiu 1,42%, com o Ibovespa a 165.529 pontos, a sexta baixa seguida. Os juros futuros de prazos mais longos atingiram as máximas do ano, e consolidaram-se as apostas de que o Comitê de Política Monetária (Copom) vai interromper a sequência de cinco quedas seguidas da taxa básica e manterá a Selic em 13,75% ao fim da reunião de hoje.
Às dúvidas sobre a condução da política fiscal se somaram ontem especulações em torno de um artigo publicado por André Lara Resende, economista considerado um dos pais do Real. Intitulado “Eu acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, o texto critica a política de juros do Banco Central e prega um “teto” da taxa básica para reduzir o custo da dívida pública.
A tese do artigo foi endossada por petistas como a deputada Gleisi Hoffmann e o ex-presidente da Petrobras, Sergio Gabrielli. Já o ministro da Fazenda, Dario Durigan, descartou e criticou a proposta, garantindo que não há qualquer discussão no governo sobre o assunto.
Ambiente de mal-estar
Para Ian Lima, gestor de renda fixa da Dahlia Capital, mesmo com baixíssima probabilidade de a ideia de Lara Resende ser colocada em prática, a falta de informações precisas sobre os rumos do Lula 4 amplifica os receios:
— O mercado precisa de previsibilidade para que se assuma riscos adicionais, e hoje isso é algo que não há. Nesse vácuo, começam a surgir ideias de medidas heterodoxas que acabam assustando o mercado. Não é provável que isso aconteça, mas o mercado, sem informação, preenche com o que tem, dando relevância às suposições.
Na avaliação de Felipe Tavares, economista-chefe da Monte Bravo, o clima no mercado é de inquietação:
— Esse ambiente gera um mal-estar sobre como será a condução da Fazenda.
Para Ilan Arbetman, da Ativa Investimentos, os preços dos ativos deve seguir refletindo a falta de informações sobre a política econômica:
— A principal preocupação é a credibilidade fiscal. A equipe do presidente eleito tem resistido a compromissos de maior austeridade, enquanto assessores importantes rejeitam publicamente a possibilidade de cortes de gastos. Diante da baixa probabilidade do governo promover um ajuste relevante nos gastos, os ponteiros estão sendo ajustados.
O Tesouro Nacional, que interrompeu a venda de títulos da dívida pública na semana passada diante do forte estresse do mercado, retomou ontem a oferta dos papéis. Num lote considerado mínimo por participantes do mercado, os papéis que pagam a correção da inflação tiveram taxa adicional de quase 8% para os vencimentos de 2033. Para Lima, da Dahlia, a pouca oferta de títulos reflete as incertezas:
— O mercado precisa de informação para tomar a decisão (de adquirir títulos da dívida). E estamos voltando para a prancheta para entender para onde vão os ativos brasileiros.
Ontem, os juros futuros subiram aos maiores patamares no ano. A Taxa do DI para 2030 aumentou de 15,14% na sexta-feira para 15,30%. Para 2031, o avanço foi de 15,21% para 15,37%.
Copom e Focus
Com a piora do cenário, a mediana das expectativas de 58 casas ouvidas pelo ValorData é de que o Copom manterá hoje a Selic no atual patamar, em 13,75% ao ano.
No Boletim Focus divulgado ontem — a primeira pesquisa com projeções de instituições financeiras colhidas pelo BC após o segundo turno — , os investidores aumentaram as previsões para dólar, inflação e juros. O mercado vê o dólar encerrar o ano a R$ 5,34, ante R$ 5,05 da pesquisa anterior. A projeção da Selic no fim do ano subiu de 13,25% para 13,50%, e a da inflação avançou de 5,19% para 5,22%.
Na visão de Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, a revisão das expectativas de inflação está associada, em parte, à alta do dólar, mas também à valorização recente do petróleo, que amplia os riscos sobre combustíveis e custos de produção.
— Com expectativas mais distantes da meta, pressões cambiais e incertezas fiscais, o mercado passou a atribuir maior probabilidade a uma postura mais conservadora do Banco Central, seja por meio da interrupção antecipada do ciclo de cortes, seja pela manutenção dos juros em patamares restritivos por mais tempo — diz a economista.
Ariane pondera que a atividade econômica apresenta sinais de desaceleração, o que tende a contribuir para a moderação das pressões inflacionárias à frente. Assim, a elevação das expectativas de juros reflete principalmente uma reavaliação dos riscos e da trajetória provável da política monetária, e não necessariamente uma mudança equivalente nas condições correntes de demanda.
Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, diz que o cenário está mais dependente de avanços nas contas públicas:
— O problema central deixou de ser apenas a desaceleração da economia e passou a ser a percepção de risco fiscal.
Sem um ajuste, afirma, uma expansão adicional dos gastos tende a se traduzir em dólar mais caro, juros futuros elevados e crédito mais restrito.
— O primeiro Focus depois da eleição mostra que o mercado abandonou o cenário de ajuste fiscal que vinha precificando. Até a semana passada, o Focus apontava juros menores mesmo com inflação maior, porque contava com um ajuste nas contas públicas que reduziria o risco do país. Essa premissa caiu — avalia o analista da Ouro Preto.
2027 e 2028
A deterioração das expectativas também alcançou 2027 A projeção para a Selic no fim do ano que vem avançou de 11,75% para 12,50%, enquanto a inflação esperada passou de 4,34% para 4,76% (acima do teto da meta).
Além da revisão para 2027, a inflação projetada para 2028 avançou de 3,75% para 4%.
— Esse movimento sugere uma revisão mais ampla da percepção de riscos, especialmente diante das incertezas sobre a condução da política fiscal e seus possíveis efeitos sobre a demanda agregada, o câmbio e a trajetória da inflação. Portanto, além do choque cambial de curto prazo, uma maior percepção de persistência inflacionária contamina agora as expectativas — diz Ariane Benedito.
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