PM abre investigação sobre suspeitos filmados com camisetas do PT em Piracicaba

A Polícia Militar de São Paulo instaurou uma investigação sobre a cena em que três jovens foram detidos, suspeitos de tráfico de drogas, usando camisetas do PT, em Piracicaba (SP). A suspeita é de que os PMs tenham obrigado eles a vestirem as peças, para que fossem filmados dessa forma. O caso ocorreu nesta quarta-feira (21).
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Um dos jovens afirmou, em depoimento à Polícia Civil nesta quinta-feira (22), que os PMs pediram que eles vestissem as camisetas após a abordagem. Uma testemunha também afirmou ao GLOBO que os oficiais pegaram as camiseta de campanha dela e de colegas militantes do PT quando o grupo passava próximo à ação.
Nesta tarde, a Secretaria da Segurança Pública informou que o Comando de Policiamento de Área 9 (CPA-9), responsável pela região de Piracicaba, instaurou uma investigação preliminar para apurar “as informações veiculadas pela imprensa sobre supostas irregularidades na atuação de PMs na Comunidade Vitória Pantanal”.
As imagens foram exploradas pelo ex-secretário de Segurança Pública e agora senador eleito Guilherme Derrite (PP), aliado de Flávio Bolsonaro (PL), que postou a cena nas redes sociais. Nesta quinta, a postagem tinha mais de 373 mil curtidas e 91 mil compartilhamentos. O PT acionou o Ministério Público Eleitoral sobre o caso.
Uma testemunha descreveu ao GLOBO, em condição de anonimato, a abordagem policial aos jovens. Moradora da comunidade Pantanal Vitória, em Piracicaba, ela afirma que saiu para trabalhar com duas colegas — as três são militantes ligadas à deputada estadual Professora Bebel (PT) e trabalham voluntariamente na campanha pró-Lula. Elas vestiam camisetas do partido com a frase “Professores e professoras da Apeoesp com Lula”. A Apeoesp é o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, presidido por Bebel.
Mulheres teriam sido obrigadas a entregar camisetas do PT a PMs, diz testemunha
A mulher diz que, ao passarem por uma viela da comunidade, presenciaram uma operação policial em andamento em alguns barracos da área. Ela relatou ter visto os agentes retirarem três jovens de dentro de uma das casas — os mesmos suspeitos que foram presos e apreendido na sequência — e ressaltou que nenhum deles usava roupa de partido.
— Estavam com a camiseta normal deles mesmo. Não lembro a cor, mas não era camiseta de partido — diz ela.
Durante a passagem pela viela, as três mulheres teriam sido abordadas pelos policiais. Um dos agentes perguntou para onde a testemunha ouvida pelo GLOBO estava indo e disse algumas ofensas por causa da camiseta do partido que ela usava. Para evitar o confronto, a mulher ficou em silêncio.
— Eles me cataram na viela. Perguntaram pra mim onde que eu tava indo. Eu falei que eu trabalho pelo PT. Aí, esse (policial) branquinho falou: ‘Ah, não, é pra esse lixo’. Aí, eu peguei e fiquei quieta, só deixei ele falar — conta.
Mais adiante, outros policiais exigiram que as duas colegas dela tirassem a camiseta do PT que estavam usando, e mandaram que buscassem uma terceira peça na casa de uma delas.
Com medo, a testemunha se refugiou no barraco de uma amiga. Ela soube depois que os três rapazes foram detidos usando camisetas partidárias idênticas às recolhidas durante a ação policial.
Em entrevista à TV Todo Dia, jornal de Piracicaba, Edna Souza, mãe do menor apreendido, falou que estava em casa com sua bebê, quando se deparou com policiais entrando em sua casa atrás de seu filho. Ela relatou que os policiais agrediram seu filho na residência, chegaram a dar um murro no peito de sua outra filha, de 14 anos, enquanto ela pedia para eles pararem.
— Eles desceram com meu filho pela escada, o policial estava com o rosto do meu filho no chão, em cima do meu filho, e eu pedindo para eles saírem. Aí a minha filha de 14 anos veio, e o policial deu um murro no peito dela. Eles foram para outra favela com meu filho, bateram muito nele, tem vídeo dos vizinhos. E colocou a camiseta nele do Lula. Ele não estava com a camiseta, ele e os três meninos. E colocaram as três blusas iguais, eu perguntei por que eles colocaram essa blusa, eles disseram que ele já estava, mas ele não estava, porque eu não tenho esse tipo de blusa em casa — falou.
A deputada Professora Bebel disse ao GLOBO que os policiais também agrediram as militantes que trabalham em sua campanha para pegar as camisetas delas e acusa uma tentativa de “armação”.
— Foi uma armação para dizer que todo mundo que é do Partido dos Trabalhadore tem envolvimento com ilícitos, com drogas. Você pegar duas mulheres, entrar na casa delas, pegar a camiseta delas. O negócio perdeu o parâmetro do que é viver numa civilidade, do que é disputar uma eleição, sem criar esse tipo de fatos negativos para a sociedade — falou.
Na representação protocolada junto à Procuradoria-Geral Eleitoral da República (PGE), os advogados do PT afirmam que “a fabricação da cena e sua posterior divulgação apresentam nítida finalidade eleitoral: associar artificialmente a criminalidade ao Partido dos Trabalhadores e à candidatura do Sr. Luiz Inácio Lula da Silva”.
Eles citam o depoimento da mãe do adolescente como um dos argumentos, e indagam “por qual razão três jovens, entre eles um adolescente de 17 anos, estariam trajando camisetas idênticas momentos antes da apreensão, com mensagem de apoio eleitoral atribuída especificamente a professores, sem qualquer vínculo com a categoria profissional”.
‘Publicação não menciona camisetas’
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou que chegou aos detidos após uma denúncia ao 190, com a descrição dos suspeitos. Segundo a pasta, o adolescente de 17 anos estava com 23 porções de cocaína, enquanto os homens de 21 e 24 anos foram encontrados com um revólver e outras 137 porções da droga. A SSP declarou que “não compactua com desvios de conduta” e orientou que eventuais vítimas formalizem denúncias em delegacias, pela Delegacia Digital ou na Corregedoria da Polícia Militar. A secretaria afirmou, ainda, que não havia registros dos fatos relatados na Comunidade Pantanal Vitória.
Derrite afirmou, por meio de nota, que “o objetivo da publicação foi chamar a atenção para o aliciamento de jovens pelo tráfico de drogas, uma realidade que não se restringe aos grandes centros urbanos e também atinge municípios do interior paulista” e que “a publicação não faz qualquer menção às camisetas utilizadas pelos envolvidos”. A postagem, porém, exibe as imagens dos jovens com a camiseta partidária. Ele ainda defendeu que “os fatos sejam devidamente apurados pelos órgãos competentes”.
A Ouvidoria da Polícia do Estado afirmou em nota que recebeu “com extrema preocupação” a denúncia e que abriu protocolo oficiando que a Corregedoria da PM forneça informações sobre os procedimentos adotados, além do afastamento imediato dos policiais envolvidos no caso.
“As denúncias envolvem possíveis violações de direitos fundamentais, incluindo violência policial, abuso de autoridade, constrangimento ilegal e eventuais práticas que podem configurar tortura ou tratamento cruel, desumano ou degradante. Caso confirmadas, tais condutas são absolutamente incompatíveis com os princípios constitucionais que regem a atividade policial, afrontam o Estado Democrático de Direito”, escreveu.
“Nenhum agente público pode valer-se de sua função para promover convicções pessoais, perseguir cidadãos por suas opiniões políticas ou instrumentalizar o poder estatal para fins de disputa eleitoral ou ideológica”, completou.
O GLOBO também procurou o secretário Osvaldo Nico Gonçalves (SSP), que afirmou que o caso “vai ser apurado, sem dúvida”.
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