A Polícia Civil desbaratou ontem um esquema de adulteração de taxímetros ligado a bandidos do Morro do Barbante, na Ilha do Governador, comunidade da Zona Norte do Rio com territórios controlados pelo Comando Vermelho (CV). O esquema funcionava a partir de um dispositivo eletrônico instalado em táxis para aumentar os valores cobrados aos passageiros. O golpe ocorria após corridas serem iniciadas no Aeroporto Internacional do Galeão e em bairros da Zona Sul. Para participar da ação criminosa, que chegava a elevar para R$ 900 o preço de uma viagem de pouco mais de 20 quilômetros, cada taxista pagava ao tráfico uma taxa de R$ 120.
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O dinheiro era cobrado para o tráfico autorizar o baseamento dos táxis, que não tinham autorização para fazer ponto no Galeão, em ruas próximas ao Morro do Barbante, distante cerca de 500 metros do aeroporto. O golpe, aplicado mais frequentemente em turistas e em pessoas que não conhecem o Rio, contava ainda, no terminal aeroportuário, com a participação de “jóqueis”, como são conhecidos os encarregados de atrair os passageiros. Eles trabalham irregularmente no terminal, misturados aos profissionais legais, e receberiam uma comissão pelo negócio irregular. Com o lucro, cada um deles pagaria ainda ao tráfico uma taxa diária de R$ 50.
A atuação do crime organizado em atividades legais não é novidade. Veja outros exemplos:
Criptomoedas: Uma estrutura clandestina de mineração de criptomoedas foi descoberta em maio no Complexo do Lins, na Zona Norte, durante uma operação contra o CV. Equipamentos utilizados na atividade funcionavam conectados a uma rede improvisada de energia elétrica nos fundos de um mercado, reduzindo os custos de uma operação que exige alto consumo energético.
Internet: A exploração do serviço por traficantes e milicianos já alcança ao menos 37 dos 92 municípios fluminenses, segundo levantamento divulgado em maio deste ano. O CV incorporou o negócio antes concentrado nas mãos da milícia, seja impondo provedores sob seu controle, seja cobrando taxas de empresas que atuam legalmente. Em Duque de Caxias, a cobrança para permitir o funcionamento dos serviços chega à metade do valor pago pelos clientes. Empresas que resistem às exigências são alvo de ameaças e ataques.
Celulares: Uma central clandestina de desbloqueio de aparelhos roubados e furtados foi descoberta em dezembro de 2024 no Fallet-Fogueteiro, em Santa Teresa. Policiais encontraram cerca de 200 celulares e equipamentos usados para contornar mecanismos de segurança dos aparelhos. Segundo a investigação, os criminosos utilizavam programas que testavam automaticamente combinações de senhas e alteravam o número de identificação dos telefones (IMEI), facilitando a revenda.
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Gás de cozinha: A comercialização de botijões também passou a integrar os negócios do CV em Jacarepaguá. A exploração foi identificada em julho de 2024. O controle pelo tráfico já havia sido registrado na Rocinha, em 2017, durante a disputa pelo domínio.
Mercado imobiliário: A expansão do CV em Jacarepaguá também abriu espaço para a exploração de imóveis. Até julho de 2024, a facção havia tomado 19 comunidades de 14 bairros da região antes dominados por milicianos, incorporando atividades econômicas exploradas pelos antigos ocupantes. Entre elas estava o mercado imobiliário, ampliando o controle dos criminosos sobre os negócios locais.
Mototáxis e vans: Pedágios impostos pelo tráfico a profissionais do transporte alternativo já eram registrados na Rocinha em maio de 2018. Na época, mototaxistas relatavam pagamentos de R$ 75 por semana, enquanto motoristas de vans afirmavam desembolsar até R$ 285 semanais, além de R$ 20 por dia trabalhado. A cobrança alcançava ainda motoristas particulares, que precisavam pagar R$ 135 por semana para operar na comunidade, então marcada por disputas entre facções.
O tráfico também pratica extorsões a comerciantes e moradores das áreas em que atuam. Na Gardênia Azul, por exemplo, taxas mensais de até R$ 10 mil passaram a ser exigidas de comerciantes da localidade após a tomada da comunidade pelo CV, que expulsou milicianos da região há dois anos. As cobranças, denunciadas em maio de 2025, eram acompanhadas de ameaças e restrições ao funcionamento dos estabelecimentos. A prática também foi identificada em áreas de Jacarepaguá ocupadas pela facção na virada do ano, onde comerciantes relataram pagamentos diários para manter seus negócios.
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