Como era o Brasil quando a novela 'Roque Santeiro' foi exibida pela primeira vez

Clássico da teledramaturgia brasileira, que teve sua primeira versão censurada dez anos antes, “Roque Santeiro” estreou no horário nobre em junho de 1985. Agora, 41 anos depois, a novela que parou o Brasil (“Tô certo ou tô errado?”) reestreia nesta segunda-feira na faixa Edição Especial, substituindo “Além do tempo”.
E como era o Brasil quando Viúva Porcina, interpretada por Regina Duarte, virou mania nacional? Para responder essa pergunta, o EXTRA ouviu o autor do livro “De volta para o passado – O Brasil de 1985 e o que fizemos depois” ( Editora Jaguatirica), o jornalista e publicitário Rafael Simi.
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“A primeira coisa que precisamos falar quando lembramos de ‘Roque Santeiro’ é que ela foi lançada exatamente no ano em que o regime militar acabou. E isso não foi à toa. Dias Gomes teve a novela censurada na beira da estreia durante a ditadura. Foi uma loucura que, ironicamente, acabou com resultados positivos: a novela de 1985 foi muito melhor do que teria sido em 1975 e a história colocada no lugar foi ‘Pecado capital’, da Janete Clair, outro clássico”, lembra Rafael.
O livro “De volta para o passado”, de Rafael Simi
divulgação
Para qualquer noveleiro, 1985 foi um ano mágico. Em agosto, por exemplo, era exibida uma espécie de trinca de ouro das novelas: “A gata comeu” (às 18h), “Ti Ti Ti (às 19h) e “Roque Santeiro” (às 20h).
“Ainda tinha umas loucuras naquela época que são até difíceis de acreditar. ‘Armação ilimitada’ tinha o que se chama de “trisal”: Juba, Lula e Zelda. E tudo bem. O público amava. Um ano antes, o Faustão começou a fazer o ‘Perdidos na noite’ na Gazeta e na Record. E era uma doideira aquilo. Banda de rock, humorista doidão, o Fausto falando maluquices ao vivo”, cita o autor.
Kadu Moliterno, Andréa Beltrão, André de Biase e Jonas Torres no seriado “Armação ilimitada”
Arquivo/Globo
Meses antes da estreia de “Roque Santeiro”, em janeiro, teve a primeira edição do Rock In Rio. Foi o ano também do surgimento de bandas, como Legião Urbana, que logo se tornaria um fenômeno:
“Quem viu a edição de 2026 não sabe a luta que foi para colocar aquele festival de pé, com tantas atrações nacionais e internacionais. No mesmo ano, foi lançado o RPM, que talvez tenha sido o maior fenômeno do rock brasileiro por um curtíssimo período. E a Legião Urbana lançou também seu primeiro disco”.
Rock in Rio 1985 – Queen – Freddie Mercury
Jorge Marinho
No futebol, quem diria, o Coritiba foi o campeão brasileiro daquele ano, e, no Rio, o Fluminense seria tricampeão carioca. No carnaval, a Mocidade Independente de Padre Miguel levava o título, de olho no futuro imaginado pelo carnavalesco Fernando Pinto.
“Mas a sensação do futebol na época foi o Bangu, com grana do Castor de Andrade. Na final do Brasileirão, os torcedores de outros clubes foram ao Maracanã apoiar o time da Zona Oeste. E o Castor foi o primeiro presidente da LIESA e campeão do carnaval daquele ano. Mas olha: não teve marmelada. ‘Ziriguidum 2001’ foi um desfile inesquecível, futurista, debochado, maravilhoso”, relembra Rafael Simi.
O “Ziriguidum 2001” da Mocidade em 1985
Otávio Magalhães
Na política, José Sarney era o primeiro presidente civil após 21 anos de regime militar. Tancredo Neves havia sido eleito pelo Colégio Eleitoral em janeiro, mas ficou doente e morreu sem tomar posse.
“Teve muita euforia com o fim do regime militar. E olha só: esse período de 41 anos seguidos de democracia é o mais longo que já tivemos consecutivamente. É bom viver num país com liberdade de expressão. A censura incomodava muito os jornalistas e artistas daquela época”, relembra o autor do livro “De volta para o passado – O Brasil de 1985 e o que fizemos depois”.
5/03/1985 – Comemoração da Posse de José Sarney como presidente da República
Sérgio Marques / Agência O Globo
Lima Duarte e Regina Duarte, como Sinhozinho Malta e Viúva Porcina, em ‘Roque Santeiro’
Cezar Loureiro
Betty Faria e Lima Duarte na versão censurada de “Roque Santeiro”
arquivo tv globo



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