‘A vida fica mais leve’: os benefícios da arte e cultura aos 60+

Assistir novelas à noite, ouvir músicas que marcaram a juventude ou sair de casa para assistir a um show ou peças de teatro são formas de lazer. E, segundo especialistas, o contato com a cultura tem mais efeitos do que apenas entreter os idosos. Essas experiências colaboram para estimular o cérebro, fortalecer vínculos sociais, despertar emoções e dar um novo significado à rotina.
A fisioterapeuta e presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Isabela Oliveira Azevedo Trindade, explica que atividades culturais mobilizam diferentes áreas do cérebro ao mesmo tempo.
— Quando a pessoa idosa acompanha uma novela ou um filme, ela precisa seguir uma narrativa, reconhecer personagens, lembrar acontecimentos anteriores, interpretar emoções e estabelecer relações entre as situações — explica — Já a música, por sua vez, pode mobilizar a memória, a emoção, a atenção e até exigir respostas motoras.
Além do estímulo cognitivo, a arte também é uma conexão com lembranças de uma vida. Uma canção pode transportar o idoso para momentos importantes da sua trajetória, resgatando memórias de relacionamentos, viagens, festas e outras experiências marcantes.
— Determinadas experiências artísticas despertam memórias autobiográficas da vida do idoso, o que tem um valor enorme. Em alguns casos de demência, as memórias musicais podem permanecer relativamente preservadas ainda que outras capacidades cognitivas já estejam comprometidas — destaca Isabela.
O comerciante aposentado Ricardo Lobato, de 60 anos, conhece bem a relação entre cultura e memória. Apaixonado por novelas desde a infância, ele associa algumas produções a momentos e pessoas especiais.
— As novelas A Viagem e Alma Gêmea são especiais, a última me lembra a avó da minha esposa. Ela amava rosas e eu cheguei a cultivar algumas no jardim de casa por um tempo. Sempre que penso na novela, lembro dela — afirma.
A psicóloga Aline Santos ressalta que os benefícios da arte na vida do idoso são expressivos e colaboram para que eles ainda sintam conexão e propósito com a vida.
— A cultura pode trazer prazer e sentido para a rotina. Afinal, saúde mental não se trata apenas de estar doente, é também ter interesse pela vida e ter momentos de prazer — explica.
Para Ricardo, ficar diante da televisão para assistir à novela é mais do que um simples hábito, é um momento para relaxar e se envolver com as histórias.
— Além de ajudar a relaxar, eu sinto que mantém a minha mente ativa. Em alguns momentos, dá para sentir que também somos autores. Às vezes, eu até esqueço o nome dos atores, mas os chamo pelos nomes dos personagens que foram marcantes — conta.
Embora as novelas, os programas de TV e filmes ofereçam benefícios importantes, sair de casa para frequentar espaços culturais pode trazer outros efeitos positivos.
— Tudo isso faz com que o idoso tenha uma participação social, mobilidade e movimento emocional. Para a gerontologia isso é muito importante pois saúde na velhice não significa apenas ausência de doenças, falamos também de funcionalidade, autonomia, participação social e capacidade de continuar fazendo aquilo que tem valor para a pessoa — destaca Isabela. — Alguns estudos acompanham essa questão há anos e identificaram uma associação entre a participação em atividades culturais e melhores indicadores de bem-estar e desempenho cognitivo na velhice.
A aposentada Heloiza Arias, de 63 anos, tem as peças de teatro, musicais e shows como parte de sua vida desde a adolescência.
— Vou a teatros, musicais e shows desde os meus 12 anos. O que mais me atrai, além do entretenimento em si, é poder me teletransportar para lugares que jamais sonhei e de sempre sair dali com algum aprendizado — conta.
Ela costuma ir acompanhada do marido, Eduardo Arias, de 64 anos, e diz que compartilhar esses momentos com quem ama é o que torna tudo mais especial, pois acontecem trocas de experiências.
Curiosidade não tem idade
Para muitos idosos, a aposentadoria ou mudanças na dinâmica da família podem alterar alguns papéis que foram exercidos durante décadas: cuidar da casa, dos filhos, do companheiro ou da companheira e trabalhar. Sendo assim, ter hobbies e interesses culturais colaboram para que o idoso tenha uma identidade individual e reconhecimento além das atividades que já desempenhou ao longo da vida. Descobrir novos gostos também é importante.
— Continuar descobrindo interesses ajuda com que o idoso tenha uma relação melhor com a própria vida. A idade traz experiência, mas não precisa tirar a curiosidade — afirma Aline. — Existe um ganho muito importante na experiência de descobrir algo novo: a pessoa percebe que ainda pode aprender, se surpreender e se interessar por coisas que não conhecia.
Heloiza conta que fica muito animada toda vez que tem um espetáculo ou show marcado na agenda. Segundo ela, os programas culturais ajudam a enxergar a vida de outra forma.
— A vida fica mais leve e eu consigo ter um olhar diferente para os acontecimentos. Além disso, são momentos em que você esquece o mundo e foca apenas no momento que está vivendo — conclui.
Mas além de consumir cultura, muitos idosos têm encontrado benefícios em atividades nas quais participam ativamente, como aulas de dança, teatro, música, pintura e clubes de livro. Nesses casos, a socialização, expressão cultural e o desenvolvimento de novas habilidades fazem com que eles tenham ganhos significativos em seu bem-estar.
— Em um clube de leitura, por exemplo, a pessoa não apenas lê. Ela compartilha opiniões, escuta outros pontos de vista e se expressa. Existe uma experiência mais ampla de participação — enfatiza Aline. — A pessoa pode pensar: “Eu achei que não conseguiria, mas consegui aprender”. Essa experiência de perceber que ainda é capaz de aprender, experimentar e se desenvolver pode ser muito significativo emocionalmente.
As especialistas enfatizam que não existe atividade cultural ideal para todos. O mais importante é respeitar o gosto, interesse e limitações de cada um.
— Estimular não é obrigar – ressalta Isabela – A melhor atividade é aquela que desperta interesse e faz sentido para a vida daquele idoso.
*Estagiária sob supervisão de Constança Tatsch



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