Risco na Linha Vermelha: estudo mapeia 113 tiroteios e 78 baleados em regiões do entorno da via

Uma das principais portas de entrada do Rio, por onde passam diariamente cerca de 90 mil veículos, e acesso ao principal aeroporto internacional da cidade, a Linha Vermelha virou também um corredor sob ameaça frequente da violência armada. Na manhã de segunda-feira, bandidos abordaram três ônibus com estudantes de um colégio particular na altura do Parque das Missões, em retaliação a uma operação que acontecia na área dominada pelo Terceiro Comando Puro (TCP), no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio.
Só este ano, a RJ-071 já foi interditada pelo menos oito vezes em razão de ocorrências policiais — em duas delas, criminosos tentaram bloquear o trânsito em represália a operações nos complexos da Maré e de Israel. No entorno da via, desde janeiro, foram registrados 113 tiroteios e 78 pessoas baleadas, segundo levantamento do Instituto Fogo Cruzado feito a pedido do GLOBO.
Os dados revelam que a Maré concentrou o maior número de tiroteios nos arredores da Linha Vermelha: foram 35 registros neste ano, com 31 pessoas baleadas. Em seguida aparecem Cordovil, com 23 tiroteios e 19 baleados, e Vigário Geral, com 17 ocorrências e cinco pessoas atingidas.
Esse levantamento mostra ainda que, enquanto o total de tiroteios registrados caiu 7% (de 122 em 2025 para 113 em 2026), houve 13% mais pessoas baleadas. O número de mortos e feridos passou de 69 em 2025 para 78 neste ano, até o dia 28 de setembro.
Linha Vermelha e arreadores
Editoria de Arte
Das oito vezes em que a Linha Vermelha foi interditada em 2026, em pelo menos duas ocasiões o fechamento teve relação direta com operações policiais em comunidades do entorno. No início de maio, as pistas foram fechadas pela Polícia Militar após criminosos jogarem objetos na via em retaliação a uma operação que acontecia na parte do Complexo da Maré dominada pelo CV. No dia 24 de agosto, a Polícia Militar fechou preventivamente a Linha Vermelha por cerca de 30 minutos durante a madrugada, enquanto equipes da corporação entravam no Complexo de Israel.
A prática de fechar vias em retaliação a operações policiais, porém, não se restringe à Linha Vermelha: tornou-se uma resposta recorrente de facções criminosas, tanto em áreas dominadas pelo CV quanto pelo TCP. A disseminação desse tipo de ação levou a Polícia Militar a adotar novos protocolos de segurança para reduzir os riscos de quem circula pelas estradas. A mudança foi estabelecida pelo comando da corporação após três pessoas morrerem baleadas ao passar pela Avenida Brasil durante uma operação policial no Complexo de Israel, em outubro de 2024.
Ordem de Peixão
As investigações apontaram que integrantes do TCP, sob ordem do traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, teriam iniciado ataques nas vias expressas contra pessoas que não tinham relação com a operação, em uma tentativa de forçar a retirada das forças de segurança da comunidade.
Além dos ataques diretos e dos tiroteios no entorno, a Linha Vermelha também chama a atenção pela incidência de roubos de veículos e de celulares, bem como por servir como rota de bandidos. Não são raros na região os relatos de motoristas e passageiros rendidos por assaltantes armados que aproveitam os congestionamentos para abordar ocupantes dos carros.
No fim de julho, por volta das 7h15, um homem foi abordado por um criminoso de pistola na mão enquanto seguia em direção à Zona Sul. Ele estava no banco traseiro de um carro que saía do Aeroporto Internacional do Galeão, na altura da Maré. O criminoso levou o celular da vítima e o do motorista, além de alianças e outros pertences pessoais.
As vias expressas da região também são utilizadas por criminosos em deslocamentos para investir contra comunidades rivais. No mês passado, um documento interno da Polícia Militar pediu atenção para a movimentação de traficantes do Complexo do Alemão.
De acordo com informações levantadas pela corporação, eles poderiam estar utilizando a Linha Vermelha e a Avenida Brasil para se deslocar até Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e realizar ataques no bairro do Pantanal. Segundo a PM, pelo menos 12 homicídios registrados no mês anterior estariam relacionados a conflitos entre o CV e o TCP.



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