Nova geração de chips cria categoria de celulares 'acima do topo de linha'

Imagine um celular com um assistente de inteligência artificial disponível 24 horas por dia executando as mais diversas funções a partir de um simples comando de voz e com processador que consegue ao mesmo tempo rodar jogos de última geração, gerar e editar fotos e vídeos com um baixo consumo de bateria.
É assim que fabricantes de smartphones e de chips estão redesenhando sua estratégia para a próxima temporada de lançamentos com a criação de uma espécie de categoria “ultra premium” de celulares, no qual os preços elevados se tornam apenas um mero detalhe.
Nessa nova segmentação do setor, os modelos posicionados nesse “novo topo da pirâmide” vão contar agora com chip específico destinados à chamada inteligência artificial avançada. A estratégia foi anunciada pela Qualcomm, um dos maiores fornecedores de chips para aparelhos que utilizam o sistema Android, do Google.
Primeiros modelos
O novo processador será produzido pela TSMC e ganha os primeiros modelos pelas mãos de Motorola, que anunciou o Signature 27, e a Xiaomi, com o 18 Pro Max. Na lista ainda há outros peso-pesados como Samsung, Asus e Honor.
Com a criação dessa nova segmentação de mercado, a estratégia tende a ajudar as empresas a lidarem com o aumento dos custos de componentes por conta da maior demanda de IA por data centers, ao diluir as maiores despesas entre outros componentes. Até então, a maior parte dos fabricantes contava com apenas um tipo de processador para os modelos mais sofisticados, além de outras versões para os segmentos de entrada e intermediário.
A nova aposta foi revelada pelo brasileiro Cristiano Amon, presidente global da americana Qualcomm, em evento nos Estados Unidos, que reúne diversos fabricantes do setor de tecnologia ao longo desta semana. Em sua apresentação, o executivo apresentou pela primeira vez dois novos chips para aparelhos premium. Há o Snapdragon 8 Elite da sexta geração e a versão mais robusta, chamada de Snapdragon 8 Elite Extreme.
Assistentes inteligentes
Segundo Amon, o setor está passando da fase dos aplicativos e assistentes inteligentes nos celulares para agentes com inteligência artificial. Por isso, os smartphones já começam a ser desenvolvidos tendo essas novas funções que vão exigir mais capacidade de processamento, disse o executivo:
— E estamos apenas no começo da era dos agentes e isso vai exigir que o dispositivo faça muito mais do que simplesmente executar comandos. Será menos sobre navegar por aplicativos e mais sobre concluir tarefas para o usuário. Por isso, nossa plataforma está sendo construída para essa nova era. Temos falado que a IA é a nova interface de usuário.
Centro da experiência
Para Amon, os agentes de IA passam a ser o centro dessa experiência, e não o telefone. Para ele, isso muda o papel do smartphone, já que os agentes agora precisam perceber o que está acontecendo, entender a intenção, compreender o contexto, raciocinar, planejar, lembrar e agir em nome do usuário:
— Até então, a IA permitia uma experiência personalizada. Ela teria muita inteligência baseada no seu próprio contexto e seria integrada não apenas ao seu telefone, mas também aos dispositivos ao seu redor. E estamos realmente chegando a esse ponto de transição, saindo de um modelo muito centrado no telefone para um modelo centrado em agentes, que dará origem a novas experiências.
A IA está mudando tão rapidamente que vimos o desenvolvimento de uma combinação de agentes, orquestradores e modelos completamente novos.
Processamento no aparelho
Segundo a companhia, os dois chips terão arquiteturas próprias. A principal diferença é que a versão Extreme foi projetada para executar modelos de inteligência artificial maiores diretamente no aparelho, reduzindo a dependência de processamento em servidores externos da nuvem.
Durante a apresentação, executivos mencionaram modelos com até 30 bilhões de parâmetros rodando localmente. Na prática, isso permite que recursos de IA mais sofisticados funcionem diretamente no aparelho, com menor dependência de uma conexão com a internet.
Os novos chips serão de dois nanômetros, uma das principais tendências do setor hoje. Quanto menor esse número, mais potentes são os smartphones.
Um bilhão de usuários no Gemini por mês
Rick Osterloh, vice-presidente sênior de Plataformas e Dispositivos do Google, destacou a velocidade de como a IA está alterando a forma como as pessoas usam os celulares. Ele lembrou que o Gemini chegou a 1 bilhão de usuários mensais, se tornando o produto do Google que mais rapidamente alcançou a marca. Ele disse ainda que 1 bilhão de pessoas usam o AI Mode no sistema de busca todos os meses.
— Já testemunhamos diversas mudanças na computação ao longo da nossa vida, mas definitivamente nunca houve nada parecido com essa transformação provocada pela IA. Os níveis de investimento que estão acontecendo em toda a indústria, o ritmo de inovação, tudo isso está claramente acelerando. Não se trata mais apenas de chatbots respondendo perguntas, mas de algo em que as pessoas realmente passam a confiar para realizar outras tarefas.
IA na captura de foto
Uma das principais novidades é que essa nova inteligência artificial agora será aplicada à imagem durante a captura, e não apenas posteriormente. Com a sexta geração do Snapdragon 8 Elite Extreme, a Qualcomm garante ter quadruplicado a capacidade de processamento de vídeo. Pela primeira vez em um celular, será possível gravar vídeos em 8K a 60 quadros por segundo, dando maior fluidez. Também será possível gravar vídeos em câmera lenta em 4K a 240 quadros por segundo.
Tecnicamente, o sistema permite que a inteligência artificial melhore a qualidade de uma imagem sem que o aparelho precise processar todos os detalhes na resolução máxima. Nos jogos, a tecnologia também pode ajudar a gerar mais quadros por segundo e aumentar a resolução das imagens, tornando os movimentos mais reais e a experiência visual mais detalhada.
Na prática, é possível analisar 256 vezes mais informações por pixel por meio de inteligência artificial.
Crise dos chips
Amon lembrou que o aumento dos custos atuais na indústria levou a companhia a desenvolver as novas plataformas:

— Alguns dos problemas que agora vemos nos data centers, em que as necessidades de processamento estão crescendo mais rápido do que a disponibilidade de energia, são problemas que existem nos smartphones desde o primeiro dia. Você tem muitas demandas de processamento, mas não tem energia ilimitada. Por isso, é preciso projetar computação especializada para cada uma dessas tarefas. Aproximamos a memória e o processamento de IA, proporcionando a velocidade e a eficiência.
‘Era agêntica’
A nova leva de smartphones foi pensada para a chamada “era agêntica” da inteligência artificial. Nesse modelo, em vez de apenas responder a um comando, um agente de IA pode executar uma sequência de tarefas no celular.
Um usuário, por exemplo, pode pedir ao celular para organizar uma viagem, e o sistema pode pesquisar informações, comparar opções, montar um roteiro e executar diferentes etapas da tarefa de forma autônoma. Isso acontece porque as diversas partes processador vão trabalhar de forma coordenada.
Para apoiar esse tipo de experiência, a empresa criou o recurso “Personal Scribe”, uma espécie de memória digital dentro do chip que é capaz de preservar informações essenciais para que a IA compreenda melhor e gere respostas mais rápidas levando em conta o contexto ao longo do tempo.
Para tornar as tarefas mais rápidas, o Extreme terá uma área maior de armazenamento usada pelo processador para manter os dados que precisam ser acessados de forma instantânea.
Controle térmico
A Qualcomm reformulou ainda a arquitetura de cache (uma área de memória usada para armazenar temporariamente informações acessadas com frequência) do chip, permitindo que CPU, GPU e NPU compartilhem informações de forma mais eficiente. Segundo a empresa, essa mudança reduz gargalos no processamento e ajuda a sustentar o desempenho em aplicações avançadas de inteligência artificial.
Segundo Amon, todo o sistema precisa trabalhar em conjunto para oferecer desempenho, eficiência e capacidade de resposta.
— Você vai precisar da CPU, que será muito importante para oferecer ainda mais desempenho na orquestração dos agentes. Você terá o acelerador NPU, que vai fornecer inferência de IA de maneira muito eficiente. E isso é fundamental, porque tudo precisa acontecer preservando a autonomia da bateria durante o dia inteiro.
Já o Snapdragon 8 Elite Gen 6 ocupará o papel de flagship tradicional, permitindo que assistentes inteligentes, tradução em tempo real, recursos contextuais e sistemas de personalização funcionem continuamente com baixo consumo de energia.
Segundo o CEO de uma empresa presente no evento, a nova estratégia cria uma divisão semelhante à observada em outros segmentos da indústria de tecnologia: de um lado, aparelhos premium voltados ao grande público; de outro, dispositivos destinados aos usuários que desejam extrair o máximo desempenho possível de recursos avançados de inteligência artificial.
“A indústria percebeu que nem todo consumidor quer pagar pela capacidade máxima de processamento local de inteligência artificial, então passou a criar diferentes níveis de desempenho e preço”, observou.
*O repórter viajou a convite da Qualcomm



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