A penúltima semana de setembro chega trazendo a esfuziante alegria das crianças, que ocupa as ruas, os Terreiros e o coração de muita gente. No Candomblé e na Umbanda, esse período também está ligado a tradições que atravessaram o Atlântico e ganharam novas formas no Brasil.
Entre elas está o culto a Ibéjì, os gêmeos sagrados da tradição yorùbá.
Ibéjì representa a força dos nascidos gêmeos e está relacionado à proteção, à alegria, à continuidade da família e à celebração da vida. Para a tradição yorùbá, o nascimento de gêmeos possui um significado especial. O primeiro a nascer recebe o nome de Táíwò e o segundo, Kẹ́hìndé. Quando nasce um terceiro filho depois dos gêmeos, ele é chamado Ìdòwú.
Essa tradição atravessou o oceano com os africanos escravizados e, aqui no Brasil, encontrou outras referências religiosas e culturais. Foi assim que Ibéjì passou a ser relacionado, em muitas comunidades afro-brasileiras, a São Cosme e São Damião, celebrados tradicionalmente em 27 de setembro.
Mas é importante entender que não estamos falando simplesmente de uma divindade africana que “virou” santo católico. São tradições religiosas diferentes que, no Brasil, estabeleceram aproximações e correspondências dentro de um processo histórico de convivência, resistência e transformação cultural.
São Cosme e São Damião, segundo a tradição cristã, eram irmãos gêmeos e médicos que ficaram conhecidos pela caridade e pelo atendimento aos necessitados. Essa imagem de dois irmãos dedicados ao cuidado e à solidariedade ajudou a aproximá-los, no imaginário religioso brasileiro, das celebrações de Ibéjì e das crianças.
E é justamente aí que setembro e outubro ganham uma beleza especial.
Porque uma festa de criança não precisa ser apenas uma mesa cheia de doces. Ela também pode ser uma oportunidade para lembrar que existe gente passando necessidade, criança sem brinquedo, família sem alimento e pessoas que precisam de acolhimento.
Por isso, em muitos Terreiros, a celebração se transforma também em solidariedade. Distribuem-se doces, brinquedos, roupas, alimentos e carinho. A alegria deixa de ser apenas uma palavra e vira atitude.
E onde entram os Erês?
No Candomblé, Erê não é sinônimo de Ibéjì.
O Erê é uma manifestação de caráter infantil que ocorre no iniciado e estabelece uma comunicação importante entre o Orixá e a comunidade do Terreiro. Ele canta, dança, brinca, conversa e participa da vida religiosa de uma maneira própria.
É uma manifestação que possui características relacionadas ao Orixá daquele iniciado. Por isso, encontramos nomes e comportamentos que fazem referência ao universo daquele Orixá.
É importante também não confundir o Erê do Candomblé com a Ibejada da Umbanda. Na Umbanda, a Ibejada reúne Entidades infantis, dentro da organização própria daquela religião. São tradições diferentes, embora compartilhem, no Brasil, muitos símbolos ligados à infância, à alegria, à pureza e à renovação.
E essa diferença é importante porque falar de religiões de matriz africana exige respeito à tradição de cada Terreiro.
Ibéjì também aparece no jogo de búzios
Quando falamos de Ibéjì dentro do Mérìndìlogún, o jogo dos dezesseis búzios, encontramos uma relação importante com o Odù Éjìòkò.
Éjìòkò traz a ideia da duplicidade, da parceria e daquilo que precisa ser observado em relação ao outro. A presença de elementos ligados aos gêmeos nos lembra que ninguém vive completamente sozinho. Família, relacionamentos, amizades e alianças fazem parte da caminhada.
Mas o jogo de búzios não serve para dizer somente aquilo que a pessoa deseja ouvir.
O jogo orienta. Mostra situações, aponta caminhos, revela questões que precisam ser compreendidas e, quando necessário, indica os procedimentos tradicionais para buscar equilíbrio.
É por isso que eu sempre digo: quem procura um jogo precisa estar preparado não apenas para ouvir coisas boas, mas para ouvir a verdade que precisa ser compreendida.
Se você quer saber o que o jogo revela sobre sua vida, sua relação com os Orixás e as orientações que podem ser necessárias neste momento, você pode marcar seu atendimento comigo pelo WhatsApp (21) 99400-7107
E um dos grandes ensinamentos de Ibéjì é: a alegria não significa ignorar as dificuldades. Significa encontrar força para atravessá-las sem perder a esperança. Porque criança não nos ensina que a vida é fácil; criança nos ensina que, mesmo diante das dificuldades, a vida ainda pode encontrar um motivo para sorrir.
Ṣe ki Ibéjì agbára fun ayọ̀ ni gbogbo! (Que os poderosos gêmeos proporcionem felicidade para todos!)
Ibéjì ẹ̀rọ̀!
Oní Ibejada!
Axé prá todos e salve as crianças!
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