Sexo não deveria exigir aquecimento de atleta

A sexualidade moderna sofre de um problema grave: virou prova de desempenho. Não basta sentir desejo, encontrar alguém e passar alguns momentos agradáveis. Agora parece necessário ter corpo impecável, disposição permanente, criatividade de roteirista e preparo físico de quem vai representar o país nas Olimpíadas.
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A pessoa entra na cama e não sabe se vai fazer amor ou disputar uma vaga na ginástica artística.
As redes sociais ajudaram a criar a impressão de que todo mundo, menos você, mantém uma vida sexual extraordinária. Casais aparecem sorridentes, apaixonados e aparentemente descansados. Ninguém publica: “Hoje tentamos, mas ele teve câimbra e eu aproveitei para descongelar o frango, e fomos dormir”.
A vida real não rende fotografia bonita e na maioria das vezes não causa inveja.
Na vida real, existem joelhos, coluna, azia, sono, gato arranhando a porta e o temor legítimo de fazer um movimento ousado e precisar chamar a ambulância.
Mesmo assim, muita gente acredita que precisa apresentar desempenho inesquecível. Principalmente os homens, ensinados desde cedo a funcionar como eletrodomésticos: apertou o botão, tem que ligar.
Se alguma coisa falha, surge o pânico. E o pânico, como se sabe, é um excelente método para garantir que tudo falhe ainda mais.
A mulher também sofre cobrança. Precisa estar linda, cheirosa, disponível, sentir prazer rapidamente e alcançar o auge com elegância e, de preferência, sem borrar a maquiagem.
Se demorar, preocupa-se. Se não conseguir, acha que possui um defeito de fabricação.
Enquanto isso, ambos estão tão ocupados avaliando o próprio desempenho que esquecem de sentir qualquer coisa.
Um pensa: “Será que estou indo bem?”. O outro pensa: “Será que ele percebeu que estou pensando na conta de luz?”. E ninguém está verdadeiramente presente.
O sexo transforma-se numa avaliação com banca examinadora imaginária. Há nota para duração, técnica, entusiasmo, aparência e originalidade. Só falta entregar certificado: “Declaramos que o casal concluiu satisfatoriamente a atividade, embora tenha demonstrado pouca flexibilidade no módulo avançado”.
Também existe a obrigação da novidade. Parece que repetir algo prazeroso virou falta de criatividade.
Na alimentação, ninguém considera fracasso gostar sempre de feijão com arroz. Mas, na vida sexual, o casal teme ser julgado porque aprecia a mesma posição há quinze anos. Se funciona, por que mudar? Ninguém troca a poltrona confortável por um banquinho apenas para evitar a rotina.
Experimentar coisas novas pode ser ótimo, desde que haja curiosidade verdadeira. Fazer contorcionismo porque uma reportagem prometeu “revolucionar sua relação” talvez revolucione apenas sua vértebra lombar.
O prazer não precisa ser espetacular. Precisa ser prazeroso.
Pode haver risada, pausa, tentativa frustrada e mudança de planos. Corpos humanos não são máquinas perfeitamente sincronizadas. Fazem barulhos inesperados, perdem o ritmo e às vezes precisam interromper tudo porque alguém deixou a porta destrancada ou a vontade de fazer xixi foi mais forte.
Isso não significa fracasso. Significa que havia seres humanos no recinto.
Talvez esteja na hora de aposentar a fantasia de desempenho perfeito. Uma boa relação sexual não precisa deixar ninguém sem andar, sem voz ou com necessidade de reposição de eletrólitos.
Precisa deixar duas pessoas confortáveis, respeitadas e satisfeitas, mesmo que uma delas adormeça logo depois e a outra vá verificar se realmente descongelou o frango.
Quando a obrigação de impressionar sai da cama, o prazer finalmente encontra espaço para entrar. E, se alguma posição exigir alongamento, capacete e autorização médica, não é preliminar. É modalidade olímpica.
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