Norte e Lagos: cidades ainda têm carências que vão muito além dos royalties

Regiões conhecidas pela exploração do petróleo e pelos cartões postais que atraem milhares de visitantes, Norte e Lagos ainda enfrentam problemas estruturais que vão na contramão das receitas dos royalties e da indústria do turismo. Entre os desafios do novo governador estão a recuperação de estradas, incentivos econômicos para novos negócios que reduzam a dependência do petróleo, melhorias no transporte intermunicipal e na saúde.
Com a economia associada à indústria de petróleo e gás, Campos dos Goytacazes, a maior cidade do interior fluminense, convive com uma tradicional base agroindustrial focada na produção de cana-de-açúcar. Moradores apontam o crescimento da violência e problemas na rede pública de saúde como gargalos da cidade, que atrai pacientes de municípios vizinhos. Já São João da Barra abriga o Porto do Açu. Apesar de ser o maior terminal privado do país e o segundo em volume geral de cargas, o porto enfrenta problemas no acesso, como a manutenção precária da rodovia estadual RJ-238.
Análise dos perfis de notícias locais nas redes sociais aponta para temas ligados à violência em Campos, São João da Barra e São Francisco de Itabapoana, como assaltos a postos de combustíveis e furtos a estabelecimentos comerciais, mortes por armas de fogo e tráfico de drogas.
Candidato do PSD a governador, Eduardo Paes prevê em seu plano de governo melhorias nas rodovias estaduais RJ-216 e RJ-238 e a construção da RJ-244 (ligação entre o Porto do Açu à BR-101). Também pretende oferecer benefícios fiscais para atrair novas empresas e empregos. Douglas Ruas, candidato do PL, destaca a regionalização da Saúde, com criação de polos para consultas, exames e emergências, evitando o deslocamento de pacientes para a capital. Ruas sugere ainda a desburocratização de abertura de empresas e o aumento do efetivo da Polícia Militar (PM). Já Anthony Garotinho, do Republicanos, pretende recuperar rodovias estaduais, oferecer uma linha de crédito para produtores rurais e implantar ensino integral nas escolas estaduais, com ênfase, no período da tarde, no ensino técnico.
De hospital regional a shows na orla
A Região dos Lagos reúne cidades — como Cabo Frio, Armação dos Búzios, Rio das Ostras e Saquarema — que compartilham desafios: crescimento urbano acelerado, pressão sobre infraestrutura, investimentos em saúde e educação, sazonalidade do turismo, dependência das receitas do petróleo, transportes e necessidade de maior integração regional.
Segundo seu plano de governo para Lagos, Garotinho pretende construir um hospital regional, além de criar um programa de recuperação de estradas vicinais e promover melhorias as rodovias RJ-106, RJ-140 e RJ-102. O plano ainda prevê linha de crédito rural. Já Ruas quer ampliar o efetivo dos batalhões da PM, incentivos fiscais para a indústria do turismo e recuperação de rodovias. Paes aponta para investimentos na segurança, com mais policiais militares, e no turismo, como incentivos fiscais para novos negócios. Também sugere eventos para atrair turistas nos moldes dos shows do “Todo Mundo no Rio”.
Levantamento feito nos principais perfis de notícias locais mostra demandas da população na região. Preocupam os moradores segurança pública, trânsito caótico, principalmente durante os períodos de alta temporada, rede de saúde pública lotada — as maiores cidades acabam recebendo moradores de municípios vizinhos —, melhorias na educação pública e no abastecimento de água e energia elétrica.
A Região Norte tem o segundo menor Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM) médio: 0,5941 (4,5% abaixo da média do estado, veja quadro), à frente apenas da Baixada Fluminense. Lagos registra 0,6434 (3,4% acima da média estadual). O índice avalia educação, saúde, emprego e renda.
Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM)
Editoria de Arte
Terra de rivalidades históricas; entenda o contexto político
No Norte e no vizinho Noroeste, Campos dos Goytacazes exerce o maior peso político regional, marcado por oligarquias tradicionais, rivalidades históricas entre famílias e atuação de lideranças que projetam força na Assembleia Legislativa (Alerj), na Câmara e no Poder Executivo municipal. Um dos principais grupos políticos é a família Garotinho, que tem o patriarca Anthony na busca por um novo mandato de governador.
Ao longo de décadas, ele consolidou uma base populista: foi prefeito de Campos por dois mandatos, governador, candidato a presidente e deputado. Elegeu a mulher, Rosinha, sua sucessora no Palácio Guanabara e a filha, Clarissa, deputada. Sua trajetória é marcada por condenações na Justiça. Hoje, se mantém na disputa pelo estado por meio recursos judiciais. Ex-deputado federal, o filho de Garotinho, Wladimir (PL), representa a continuidade do grupo familiar, apesar de protagonizar embates políticos com o pai. Foi eleito e reeleito prefeito de Campos, cargo que deixou para se candidatar neste ano a deputado federal.
Campos também é berço político de Rodrigo Bacellar, rival político de Garotinho e ex-presidente da Alerj, preso sob suspeita de vazamento de informações sigilosas e obstrução de investigações de organizações criminosas.
No Norte, Eduardo Paes conquistou o apoio de pelo menos seis prefeitos e Garotinho, um. Douglas Ruas acertou alianças com deputados estaduais e federais. Na Região dos Lagos, Ruas segue com o apoio de ao menos cinco prefeitos, enquanto Paes fechou quatro alianças. Garotinho conta com apoio de lideranças de seu partido.
O que a população quer para as regiões
Saúde e transporte são áreas apontadas por moradores das regiões Norte e Lagos como problemáticas. A longa fila de espera para consultas e exames estão entre as reclamações mais comuns.
Álex Moreira Frankling
Arquivo pessoal
— Já tive que ir várias vezes a médicos, hospitais, prontos-socorros e fazer exames mais complexos e a demora sempre foi absurda em todas as vezes — disse a auxiliar de controle de manutenção Mirela dos Santos Silva, 20 anos, moradora em Macaé.
Para o estudante de Serviço Social Álex Moreira Franklin, 23 anos, morador em Rio das Ostras, o transporte precisa ser melhorado:
— Existem as microvans, que não é a melhor opção. Tem alguns ônibus intermunicipais, que não passam toda hora.
A reclamação é compartilhada pela professora Jane Dantas Félix Moreira, 49 anos, de Cabo Frio:
— Os ônibus são novos, mas a tarifa é alta.
* Milena Dias e Niara Retana: graduandas em Ciências Sociais (UFRJ), sob a supervisão de Marcelo Remigio
PROJETO TAMO JUNTO: É uma parceria do EXTRA com o Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em que jornalistas e pesquisadores focalizam o processo eleitoral deste ano em sete regiões do Estado do Rio de Janeiro, abordando problemas, apontando soluções e apresentando propostas dos planos de governo dos principais candidatos.



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