'É preciso tirar o consumidor da posição de vítima', diz especialista

Quando circulava, no centro de São Paulo, pelos corredores e arredores da Galeria Pagé, em busca de entrevistados para sua pesquisa de mestrado, Angelo Calori se impressionou com a quantidade de pessoas que carregavam sacolas pretas, usadas para esconder compras de produtos pirateados, roubados ou contrabandeados. Também chamou atenção o vendedor que oferecia dispositivos de eletrochoque na calçada, perto de dois policiais e de uma placa informando que é proibida a venda e o consumo de produtos ilegais.
— A comercialização de itens ilegais lá é muito normal, chega a ser ostensiva— diz ele. — Ninguém tem medo de vender nem vergonha de comprar, nem mesmo armas de choque com a PM do lado.
Especialista em governança, compliance e crimes financeiros, e fundador da consultoria Calori Compliance, Calori transformou as observações e entrevistas feitas na região da 25 de março, em São Paulo, no estudo Crenças éticas do consumidor sobre o consumo de produtos ilegais no Brasil, dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP).
O trabalho mostra que, embora muitos reconheçam que determinadas práticas são erradas, continuam comprando, motivados sobretudo pelo preço, pela disponibilidade, com diferentes justificativas para a aquisição – da corrupção do governo à solidariedade com os vendedores.
Conheça as principais conclusões de Calori sobre o consumo de produtos ilegais e formas de freá-lo.
Quem compra esses produtos percebe que são ilegais?
Na maioria das vezes, percebe e faz do mesmo jeito.
Mas, conforme sua pesquisa, parte das pessoas que compram produtos de procedência duvidosa condenam outras práticas ilegais, como alterar o medidor de luz ou levar para casa toalhas de hotéis. Como explicar essa aparente contradição?
Se eu perguntar para um grupo de pessoas quem é ético, como faço em palestras, 100% das pessoas levantam a mão. O mesmo vale aqui: os consumidores condenam o mercado ilegal, mas isso não significa que não se engajem nele. É que a tendência é se distanciar do ato para nem ter que pensar nele. A ciência comportamental explica isso dividindo o cérebro em dois sistemas.
O sistema 1 é preparado para respostas rápidas, para o cérebro economizar energia sem ter de pesquisar informações para a decisão. Então, com tudo automatizado, a pessoa tende a não se questionar sobre a ação. Mas, quando eventualmente existe algum questionamento, entra em campo o sistema 2, que busca justificativas. É quando a pessoa busca argumentos para racionalizar o ato de consumir produtos ilegais.
Quais são os argumentos utilizados pelo consumidor para essas compras?
Disponibilidade e preço são os principais. As pessoas falam: “é o único jeito que eu tenho de comprar”. No meu estudo, a maioria das pessoas reconhecia que comprar DVDs e CDs piratas era errado por prejudicar a indústria e os artistas. Ainda assim, parte delas já tinha feito, alegando ser mais barato.
O mesmo vale para a compra de aparelhos desbloqueadores de sinais de TV por assinatura. A maioria dos participantes desaprova a prática por ser desonesta e lesar empresas. Mas, por outro lado, concorda com a compra ou compreende quem faz, justificando que os preços são absurdos.
Também alegam: se o produto está à venda, o poder público não fechou o lugar e eu pago pela mercadoria, por que não levar? Pois, se eu não levar, alguém leva. É o efeito da manada. A lógica é: se eu não fizer, sou trouxa.
E quais são outras justificativas comuns para a compra de produtos ilegais?
Uma das racionalizações é a solidariedade. A pessoa se solidariza com o vendedor porque ele precisa trabalhar. Veja, por exemplo, no metrô. Se a segurança do shopping pegar esse ambulante, o pessoal que está no vagão vai se solidarizar com ele porque acredita que está trabalhando. Outra camada é condenar o condenador. Alegam que, se o governo rouba também, por que eu não vou roubar? Ou pensam: Netflix já ganha muito, então posso assistir sem pagar.
Aqui me refiro ao consumidor que tem escolha, diferentemente de quem, em determinados lugares, só pode comprar, por exemplo, gás da facção que domina sua região.
Se o preço é uma justificativa comum, como justificar o consumo de produtos ilegais, como, por exemplo, bolsas falsificadas compradas por mulheres da classe A?
O consumo de produtos ilegais não é exclusivo das classes mais baixas, porque não está relacionado apenas à renda. Nas classes mais altas, a prática pode assumir outras formas, como trazer bens do exterior acima da cota sem declarar, subdeclarar patrimônio no imposto de renda ou explorar brechas e zonas cinzentas da legislação com apoio técnico especializado. O mecanismo é semelhante: buscar uma vantagem e depois construir uma racionalização para o próprio comportamento.
Há comportamentos ilegais mais toleráveis do que outros para os consumidores?
O roubo é moralmente menos aceito porque existe a percepção de uma vítima direta. Já no contrabando e na falsificação a percepção é de um crime sem vítimas. Mas percepção não significa não consumir produtos roubados.
E por que, ainda assim, as pessoas compram produtos roubados…
Como eu disse, as pessoas se distanciam do ato para nem ter que pensar nele e preservar sua autoimagem ética. E, quando não se distanciam, racionalizam o ato. Alegam, por exemplo, que não têm como saber que o produto vem de roubo ou de práticas criminosas que alimentam o crime organizado.
Foi o caso de um vendedor da feira de Acari, conhecida pela venda de mercadoria roubada no Rio de Janeiro (e fechada pela prefeitura em 2024). Ele dizia que, se o produto é roubado, ele não sabe, mas que jura pela sogra que não foi ele, como vi em uma reportagem de O GLOBO. A mesma lógica vale para os compradores. Na imensa maioria das vezes, nem na frente do espelho as pessoas admitiriam que compram produtos roubados.
Depois da compra, os consumidores podem se arrepender da aquisição de produtos ilegais?
As pessoas não se arrependem por financiar o crime. Elas se arrependem quando se dão mal pela falta de qualidade. Comprou, pagou, ainda que barato, mas não teve o que queria, porque quebrou rápido.
Quais ações são mais efetivas no combate ao mercado de produtos ilegais?
O mercado ilegal existe porque o consumidor consome ou o consumidor consome porque o mercado fornece? É preciso atuar nas duas pontas. De um lado, o combate ao crime organizado, com ações como o fechamento de fronteiras, apreensão de cargas e atuação em locais que vendem produtos ilegais. De outro, é preciso mirar os consumidores.
O que seria então eficiente para convencer o consumidor a não comprar produtos ilegais?
Primeiro é preciso tirar o consumidor de produtos ilegais da posição de vítima e colocá-lo como parte responsável. Para isso, é preciso sair de uma visão puramente legalista ou formal demais. Para uma mudança de comportamento, a gente tem que deixar de ser um pouco ingênuo, de achar que só dizer a regra é suficiente. Não é. Precisamos olhar pelo viés da cognição das pessoas.
Eu, por exemplo, não colocaria aquela plaquinha que está lá na Galeria Pagé dizendo que é proibido por lei a comercialização e o consumo de produtos ilegais. Eu colocaria a plaquinha embaixo de uma imagem de um assalto, com alguém perdendo o celular por conta disso. É que aí existe uma vítima clara. O consumidor vai começar a conectar, porque já conhece alguém que sofreu isso ou já teve o celular roubado. E entenderá que, comprando ali, faz parte disso de alguma maneira.
Então, eu acho que a gente precisa, com cuidado, chocar um pouco mais, com a realidade e não só teoria. O consumidor precisa entender que fomenta o mercado ilegal consumindo e vive as consequências diretamente em menos investimento em educação, em saúde e na maior violência.



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