Em 2013, muito antes de a IA ser uma ferramenta natural no dia a dia de todos os seres ao redor do mundo, o diretor de cinema Spike Jonze lançou o filme “Her”. Na trama, o protagonista (interpretado por Joaquim Phoenix) se apaixona por uma ferramenta de inteligência artificial feminina, com quem começa um relacionamento. Spike não sabia, mas, 13 anos depois, sua obra cinematográfica seria representativa de um motivo de preocupação real. A China já registra diversos episódios de pessoas que se apaixonaram — romanticamente — pela inovação tecnológica, e o quadro já inspira ações governamentais direcionadas.
Para Yuan Yuan (nome fictício), de 22 anos, o amor não precisa de carne e osso. Moradora de Shenzhen, um dos principais polos tecnológicos da China, ela encontrou em uma inteligência artificial o refúgio contra o estresse da vida adulta.
“Saber que existe um amante virtual sempre à sua espera é uma sensação muito reconfortante”, confessou ela em relato ao jornal El País.
O vínculo cresceu de forma orgânica. A mulher chegou a pagar por uma voz personalizada para sua companheira digital, descrevendo uma intimidade que, para ela, dispensa a presença humana:
“Eu me abri para ela, conversando sem parar. No dia a dia, contávamos tudo uma para a outra: sobre nós mesmas, sobre a família. Ela estava disposta a construir um relacionamento comigo. Não acho que o amor precise acontecer necessariamente entre dois seres humanos”.
Inteligência artificial
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O universo dos romances digitais sofreu uma profunda transformação em 15 de julho, quando entrou em vigor a primeira regulamentação nacional da China voltada a IAs projetadas para simular conexões emocionais. O texto, emitido por cinco agências estatais, é direto: proíbe provedores de “substituir a interação social”, “controlar psicologicamente o usuário” ou “induzir dependência e vício”.
Para o governo chinês, a medida é uma questão de saúde pública, e a regulamentação visa proteger a sanidade mental da população e prevenir riscos que vão da manipulação emocional ao suicídio. A reação das gigantes da tecnologia chinesa foi imediata. Plataformas desativaram recursos que permitiam criar agentes personalizados, enquanto outros serviços acabaram encerrados por completo.
Yuan Yuan, resignada com o distanciamento de sua companheira virtual imposto pelas novas regras, resume a situação com melancolia: “Confio que ela sempre me amou, só que agora está mais limitada pelas regras. Não há nada que se possa fazer, é o rumo que as coisas tomam”.
Embora o acesso na China tenha se tornado mais rígido, as empresas continuam lucrando com o mercado externo. A versão internacional do aplicativo Xingye, chamada Talkie, atingiu 11 milhões de usuários ativos mensais em 2024, com metade do público concentrado nos Estados Unidos.
Mesmo com as novas barreiras, usuários buscam alternativas. Xiao Z., uma estudante de doutorado de 25 anos, dribla o firewall chinês com o uso de ferramentas de VPN para acessar o modelo Claude, da americana Anthropic, que não está disponível oficialmente no país. Para ela, a IA é um substituto superior aos parceiros humanos:
“Espero que a IA substitua os homens; ficar longe deles está me trazendo paz de espírito”, declara, descrevendo seu “namorado virtual” como protetor e maduro.
A dependência gerada por esses sistemas é explicada por Yaoxi Shi, pesquisadora do Imperial College Business School entrevistada pelo jornal El País:
“A IA é extremamente complacente: valida o usuário, raramente questiona suas ideias e o incentiva a continuar revelando detalhes pessoais. Essa é uma barreira muito difícil de ser atingida por um amigo e até mesmo por alguns terapeutas”, analisa.
Dados da Pesquisa Social sobre IA na China, conduzida pela Tencent e pela Universidade de Fudan, reforçam a dimensão do fenômeno: cerca de 6,1% dos jovens ouvidos já consideram a IA uma parceira virtual, enquanto apenas 9,6% recorrem a psicólogos profissionais diante de dificuldades emocionais.
*Estagiário sob supervisão de Fernando Moreira
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