Permanecer com uma pessoa doente enquanto ama outra é o caminho a seguir? Novela levanta debate

Na novela Quem Ama Cuida, Pedro continua casado com Bruna porque ela está doente, embora ame Adriana. Pronto: temos os ingredientes necessários para dividir o público, provocar discussões e fazer muita gente gritar conselhos para a televisão.
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Alguns consideram a atitude de Pedro uma grande prova de amor. Outros acham que ele está sendo injusto com as duas mulheres. E há quem torça apenas para a doença desaparecer milagrosamente e liberar o casal preferido. Novela também tem dessas facilidades.
Mas a situação existe fora da ficção. Muitas pessoas permanecem em um casamento por culpa, gratidão, medo de abandonar alguém fragilizado e, principalmente, receio de serem julgadas.
Afinal, quem teria coragem de deixar uma pessoa doente?
Talvez a pergunta devesse ser outra: quem gostaria de descobrir que o marido só continua ao seu lado por pena?
Cuidar e amar não são exatamente a mesma coisa
Uma doença grave muda completamente a rotina de um casal. De repente, os programas românticos são substituídos por consultas, exames e uma coleção de remédios grande o suficiente para abrir uma pequena farmácia.
O companheiro pode assumir o papel de cuidador. Ele se preocupa, acompanha o tratamento e deseja sinceramente que a pessoa melhore. Isso, porém, não significa que o amor romântico e a atração continuem iguais.
Sentimentos mudam até quando todos estão saudáveis, bonitos e com os exames em dia. A doença não cria uma proteção especial contra o fim do amor.
O problema não é deixar de amar. Ninguém consegue manter um sentimento por ordem médica. O problema começa quando a pessoa finge que nada mudou e mantém o outro dentro de um casamento que já terminou, mas ainda não recebeu o comunicado oficial.
A pessoa doente tem direito à verdade
Às vezes, familiares passam a tratar o doente como se ele também tivesse perdido a capacidade de pensar.
Escondem problemas, evitam determinados assuntos e decidem o que a pessoa pode ou não saber. Tudo é feito “para protegê-la”, uma frase que costuma autorizar os outros a tomar conta até da vida alheia.
Mas estar doente não significa ter perdido o direito de conhecer a verdade sobre o próprio casamento.
Naturalmente, ninguém precisa anunciar a separação enquanto a pessoa está entrando numa cirurgia:
– Boa sorte na operação. Quando você voltar, precisamos conversar.
Existem momentos e maneiras mais cuidadosas de abordar o assunto. Entretanto, adiar essa conversa indefinidamente também pode ser cruel.
Para algumas pessoas, descobrir que o casamento acabou será devastador. Para outras, pior será descobrir que todos sabiam, menos elas, inclusive a vizinha que nunca perde uma informação importante.
É possível terminar sem abandonar?
Sim. O fim da relação amorosa não precisa significar pegar as malas, desaparecer e deixar a pessoa sozinha com a doença e três boletos vencendo.
Dependendo da situação, o ex-companheiro pode continuar ajudando no tratamento, participando das decisões, mantendo responsabilidades financeiras e organizando uma rede de apoio.
É claro que nada disso é simples. Podem existir filhos, dependência financeira, tratamentos caros e doenças que exigem cuidados permanentes.
Quem cuida também sofre. A rotina pode provocar cansaço, irritação, culpa e até revolta. Exigir que o cuidador suporte tudo calado, sorrindo como personagem de propaganda de margarina, não ajuda ninguém.
Na maioria das vezes, os dois precisarão de apoio psicológico para entender o que ainda existe naquela relação e o que se tornou apenas obrigação.
Permanecer é bom para a pessoa doente?
Depende do motivo.
Se ainda existe carinho verdadeiro e o companheiro escolhe permanecer, sabendo das dificuldades, isso pode ser uma grande demonstração de amor.
Mas, se ele ama outra pessoa, mantém uma vida escondida e continua casado apenas para não parecer um sujeito abominável, talvez esteja protegendo mais a própria reputação do que a esposa.
No caso de Pedro, a novela encontrará uma maneira de resolver a confusão. Na vida real, infelizmente, não aparece um autor no último capítulo para organizar os casais e punir os culpados.
Cuidar é não abandonar alguém em seu pior momento. Mas respeitar também é não decidir sozinho que uma pessoa doente deve continuar vivendo dentro de um casamento que só existe para ela.
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