O futebol nem sempre é um esporte justo. Mas foi nesta quarta-feira, na vitória por 2 a 1 contra a Inglaterra que classificou a Argentina para a segunda final de Copa do Mundo consecutiva, e a sétima da história do país. Com os gols de Enzo Fernández e Lautaro Martínez, o time de Lionel Scaloni terá, no próximo domingo, na decisão com a Espanha, a oportunidade de fechar com chave de ouro uma campanha que resume a expressão: “se não vai na técnica, vai na raça”. Foi essa a cara da seleção argentina do novamente espetacular e decisivo Lionel Messi, que disputará sua terceira final.
Antes de falar do espírito aguerrido argentino, porém, é preciso reverberar o quanto a Inglaterra provou não estar preparada para chegar à uma final de Copa do Mundo, mesmo com uma espera de 60 anos. Com a faca e o queijo na mão após sua equipe abrir o placar com Anthony Gordon aos 10 minutos do segundo tempo, o técnico Thomas Tuchel praticamente personificou a postura assustada que esteve estampada no rosto dos atletas ingleses nos 35 minutos finais que decidiram o confronto em Atlanta. Além de demorar para mexer no seu time, que se viu nas cordas com a pressão argentina, Tuchel não teve sucesso em nenhuma substituição feita.
A sensação foi de que a Inglaterra, por saber que já não estava bem na partida quando conseguiu o gol em rara escapada pelo lado direito, se apequenou frente à uma Argentina que teve um senso de urgência exemplar. Melhores ao longo da maior parte dos 90 minutos, os “hermanos” praticamente dobraram o ímpeto ofensivo. A cada recuperação no campo de ataque possibilitada por uma pressão alta que esbanjava coragem, ou em cada lance perigoso em que a bola insistia em não tocar as redes de Pickford, a impressão de quem assistia ao jogo era de que a seleção argentina estava apenas construindo um enredo melhor para mais uma vitória épica nesta Copa do Mundo.
Messi resolve mesmo sem balançar as redes
Resiliência. Foi isso que a Argentina demonstrou contra Cabo Verde (3 a 2), Egito (3 a 2), Suíça (3 a 1) e Inglaterra (2 a 1). Em comum está o fato de todas as partidas terem sido decididas nos minutos finais após tons dramáticos para os argentinos, que, mesmo quando tudo jogava contra, sabiam que tinham em Lionel Messi o ponto de partida para a construção de resultados que já estão eternizados na história da Copa do Mundo.
Autor das duas assistências para a virada argentina contra os ingleses, o craque foi eleito o melhor em campo mais uma vez neste Mundial. Pelo lado direito, como tanto fez durante a carreira, o camisa 10 achou Enzo Fernández na entrada da área por meio de passe rasteiro, e Lautaro Martínez no segundo pau após cruzamento milimétrico com a perna não dominante.
No domingo, contra a Espanha, o melhor jogador de futebol do século terá, no maior palco que este esporte pode providenciar, o reencontro contra o país que o formou na modalidade. O povo argentino até poderia preferir uma final contra o Brasil, maior rival, ou a própria Inglaterra, novamente superada com o contexto político de plano de fundo. Mas é difícil não cair na tentação de supor que, na ótima de Messi, essa é a decisão perfeita para encerrar uma trajetória que pode consagra-lo como o maior da história da Argentina no lugar do eterno Maradona.



