Moacyr Luz faz relato sincero sobre a rotina com o Parkinson: 'Muitas vezes eu chorava no meio do show'

Há cerca de 20 anos convivendo com o Parkinson, Moacyr Luz transformou a própria experiência com a doença em uma conversa franca com pacientes do Instituto de Neurologia Deolindo Couto, da UFRJ, na Praia Vermelha. O encontro, realizado esta semana, reuniu o músico, o reitor da universidade, Roberto Medronho, integrantes do Grupo de Estudos na Doença de Parkinson e pessoas em tratamento. A memória do início de tudo permanece nítida. O compositor relembrou o exato momento em que percebeu que algo estava errado no seu corpo.
Saúde: Especialista elogia destaque para fibromialgia em ‘Quem ama cuida’: ‘Marco positivo e necessário’; veja perguntas e respostas sobre a doença
Cultura: Após decisão da Justiça sobre ‘Tataruê’, Geovana publica longo posicionamento e afirma que nunca autorizou a gravação
— Quando senti a primeira vez que tinha uma coisa errada, eu estava fazendo um show em Cuba, em Havana, no Teatro Karl Marx. O meu dedinho mindinho ficou travado e não voltava. Parou. Eu pensei: “Será que é porque estou viajando, ansioso?”. Mas o troço foi subindo, como uma maré. O Parkinson parece aquela onda batendo no teu pé na praia e, daqui a pouco, está na sua garganta. Você não sabe o que fazer — recorda.
Com o tempo, os sintomas visuais começaram a chamar a atenção de quem assistia às suas apresentações, antes mesmo que os tremores característicos se estabelecessem no corpo.
— Eu ia fazer um show e, quando acabava, alguém vinha e dizia: “Você tem Parkinson?”. Eu dizia que não. Não tremia ainda, mas era a boca fina, a expressão do rosto. Aí decidi: “Já que é isso, então eu tenho Parkinson mesmo e vou começar a tocar assim mesmo”.
Moacyr Luz faz relato sincero sobre a rotina com o Parkinson: ‘Muitas vezes eu chorava no meio do show’
reprodução
Moacyr contou que, no início, teve dificuldade para aceitar o diagnóstico. Em alguns shows, chegou a chorar no palco enquanto tentava compreender o que estava vivendo.
— Muitas vezes eu chorava no meio do show. Eu pensava: “Como é que isso foi acontecer comigo? Eu, compositor, músico”. Depois entendi que não existe escolha. Pode acontecer comigo, com você ou com qualquer pessoa. O que fiz foi nunca me abater.
Entenda: Whindersson Nunes e Luísa Sonza rompem de vez após piada sobre eliminação do Brasil
Ator: Greg de ‘Todo mundo odeia o Chris’ se declara ao Brasil após eliminação na Copa: ‘Torcerei pela seleção brasileira pelo resto da minha vida’
Ao longo da conversa, Moacyr explicou que o Parkinson vai muito além dos tremores, percepção que ainda é comum entre quem desconhece a doença. Segundo ele, sintomas como fadiga intensa, alterações na fala, excesso de saliva e dificuldades motoras fazem parte da rotina.
— Às vezes penso: “Será que estou deprimido?”. Mas não. É a doença. Tem dias em que o cansaço é tão grande que eu não consigo levantar. Eu vou reagindo para seguir. Se você ficar esperando a morte chegar, está ferrado. Tem que aproveitar o máximo que você puder. Só eu sei como chego aos lugares, mas continuo indo.
O músico também lembrou que as quedas são frequentes entre pacientes com Parkinson. Em fevereiro deste ano, sofreu um acidente pouco antes de subir ao palco.
— Faltavam uns 50 metros para eu entrar no palco quando caí e quebrei o braço. Já tenho nove parafusos de outra queda. O Parkinson também tem isso.
Initial plugin text
Moacyr também relembrou uma conversa que teve anos atrás com o ator Paulo José (1937-2021), que conviveu com o Parkinson por décadas. O músico questionou o amigo sobre como superar aquele momento, e Paulo comentou sobre as promessas tecnológicas da época (como o exoesqueleto de Miguel Nicolelis na Copa de 2014) que ganharam os holofotes, mas “esqueceram do Parkinson”.
— Quando comecei a pesquisar por conta própria, alguns diziam assim: “Parkinson em 5 anos e Alzheimer em 50, tudo vai se solucionar”. Eu já estou com 20 anos de Parkinson e essa solução tão prática não aconteceu. A gente tem que pesquisar por conta própria e seguir vivendo — pontuou.
O Samba do Trabalhador
Mesmo enfrentando as limitações impostas pela doença, Moacyr segue comandando todas as segundas-feiras o tradicional Samba do Trabalhador, criado há 21 anos. Ele contou que, em alguns momentos, pensou em interromper a roda, mas desistiu ao perceber a importância social que o evento passou a ter para dezenas de trabalhadores informais que vivem do movimento gerado no entorno. Uma das histórias que mais o marcou foi a de uma ambulante que vende toucas e bandanas na região.
— Ela me disse: “Você não vai parar com isso agora, não. Acabei de comprar um quartinho para morar e dependo daqui”. Aquilo mexeu comigo. E eu pensei: “Meu Deus, e agora? Logo hoje que eu cogitei parar…”.
Segundo o compositor, o entorno do Samba do Trabalhador se transformou em uma rede de sustento para vendedores de comida, artesanato, bebidas e outros ambulantes.
— Tem gente que vende bolo, churrasco, sardinha, colar, brinquedo… Essas pessoas olham para mim como alguém que ajuda a manter aquele trabalho. É tudo por eles — concluiu Moacyr, sob aplausos calorosos da plateia do instituto.



Source link

- Advertisement -spot_img

More From UrbanEdge

Terreirada Junina, Forró de Pife e shows grátis na Maré

A Praça do Parque União, no...
- Advertisement -spot_img