Da Maré para um dos maiores festivais da Europa: jovens da OMA embarcam para Portugal

“Quero ver se esse pastel de Belém é bom mesmo.” A brincadeira ajuda Caio Fiamo Jerônimo, de 22 anos, a driblar a ansiedade antes de subir ao palco do NOS Alive, um dos maiores festivais de música da Europa, no próximo dia 9, em Portugal. Integrante da Orquestra Maré do Amanhã (OMA), o violinista fará sua estreia em solo português. Do outro lado do Atlântico, o grupo vai se apresentar no festival e também lançar, em Lisboa, o livro Concerto para um sonho.
A obra conta a história do projeto que já atendeu mais de 17 mil crianças e jovens do Complexo da Maré nos últimos 16 anos, tornando-se uma das maiores referências brasileiras em inclusão social por meio da música.
“Dizem que é um festival grande, e a gente vai estar lá, junto com outros artistas, assistindo, tocando no mesmo lugar que eles”, comemora Caio, que já viajou com a orquestra pela América do Sul e a China. “Sou a primeira pessoa da minha família a viajar para fora do Brasil. Meu pai e minha mãe ficam tão curiosos que tenho que mandar fotos todos os dias.”, conta, entre risos.
Filho de um eletricista e de uma costureira, Caio começou a estudar música aos 11 anos na OMA e hoje divide o violino com a carreira de recém-formado em Ciências da Computação. “Não tem como largar a orquestra. Além de eu gostar muito de música, a maioria dos meus amigos está aqui. É a minha família fora de casa”, resume.
A história da Orquestra Maré do Amanhã começou muito antes de sua criação. O projeto foi fundado, em 2010, pelo jornalista Carlos Eduardo Prazeres, filho do maestro português Armando Prazeres, um dos nomes mais importantes da música de concerto no Brasil e criador da Orquestra Petrobras Sinfônica.
Orquestra Maré do Amanhã vai tonar no NOS
Marco Brendon
Em 1999, Armando foi sequestrado e assassinado no Rio. O carro dele foi encontrado na Maré. Em vez de guardar mágoa do lugar, Carlos decidiu voltar anos depois para criar ali um projeto que oferecesse oportunidades a crianças e jovens por meio da música. “Quando o meu pai foi assassinado, decidi que a violência não teria a última palavra. A música que ele tanto amava seria o caminho para ajudar a transformar a realidade daquele território. Assim nasceu a Orquestra Maré do Amanhã”, afirma o fundador.
Veterana no grupo, a violoncelista Debora Choi, de 28 anos, calcula que esta será sua 11ª viagem internacional com a OMA, mas garante que a emoção continua a mesma: “Tocar em festival é uma outra energia. Quando a gente se apresenta em salas de concerto, as pessoas gostam, mas em festival a vibe é diferente. As pessoas cantam junto, gritam. A apresentação da orquestra no Rock in Rio, em 2023, é uma das memórias que guardo com mais carinho. Só de falar, fico arrepiada.”
Uma das primeiras alunas do projeto, Debora hoje vive da música, dando aulas e se apresentando em eventos. “A orquestra abre portas. Não só para a música. Tenho colegas que hoje se formam em Direito, Farmácia, Psicologia e Pedagogia. Eu mesma já me aventurei pela Aviação. Fiz curso de Comissária de Bordo, mas a música, por enquanto, falou mais alto”, conta.
Foi dando aulas em uma escola da Maré que Debora conheceu Stephany Grativol, hoje com 20 anos e líder do naipe de violoncelos da orquestra.
“Stephany sempre se destacou por ser muito estudiosa e centrada. Hoje, não só toca ao meu lado, como está assumindo a liderança”, diz a professora orgulhosa.
Stephany entrou na OMA, aos 9 anos, inspirada pela própria família: a tia foi uma das primeiras violinistas do projeto e a avó trabalha até hoje na sede da instituição. “Eu até tentei seguir os passos da minha tia no violino, mas não me adaptei. Acabei trocando pelo violoncelo e me encontrei.”, explica.
A musicista sonha em abrir seu próprio estúdio de tatuagem, mas sem abandonar a música. “Quero que ela me acompanhe pela vida inteira. A OMA representa possibilidades que eu nem imaginava. Quando comecei a tocar, nunca imaginei que faria viagens para o exterior. E as pessoas também não imaginavam isso para mim.”
Em Portugal, ela e os colegas vão apresentar um repertório que mistura música portuguesa e sucessos internacionais, com versões para artistas como Carolina Deslandes, Maro, Dino D’Santiago, Napa, Shakira, Nelly Furtado, Twenty One Pilots e Red Hot Chili Peppers.



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