Como identificar discurso 'redpill', que está na mira da polícia do Rio após estudo do ISP identificar uso nas redes sociais

Era março deste ano quando Vitor Hugo Oliveira Simonin se entregou à 12ª DP (Copacabana). Ele era um dos homens foragidos pelo estupro coletivo de uma adolescente no bairro da Zona Sul do Rio. Na ocasião, no entanto, sua camisa chamou a atenção por conta de uma frase atribuída ao movimento “redpill”, nome do discurso que representa homens que entendem que estariam se opondo a um sistema que favoreceria as mulheres. Três meses depois, o Instituto de Segurança Pública do Rio (ISP-RJ) se baseou em postagens nas redes sociais para perfilar esse comportamento misógino — como é chamado o desprezo ou ódio contra as mulheres — na web ao divulgar o Dossiê Mulher, estudo anual que se baseava, até então, nos registros policiais.
— Esse tipo de postagem é um crime, uma agressão à mulher. (É necessário) Identificar aquele perfil e responsabilizar, são cinco perfis que se conectam entre si, mas que geram um número grande de visualizações — afirmou o secretário de Segurança Pública do Rio, Victor César Santos, que informou que já há uma investigação da Polícia Civil sobre essas contas analisadas pelo ISP. — Se a investigação apontar que aquele autor ou a pessoa que manipula aquele perfil agiu dolosamente, com a intenção de agredir a mulher, ele será responsabilizado.
Na época da prisão em Copacabana, a veste citava a frase em inglês “regret nothing” (“não me arrependo de nada”, em tradução livre para o português), popularizada pelo coach americano Andrew Tate, um dos principais influenciadores dos redpills, declaradamente misógino. A expressão tem associação com grupos masculinos da chamada “machosfera”, comunidades online que propagam discursos de ódio e de subjugação das mulheres. Na ocasião do crime, a defesa de Vitor Hugo citava que o cliente estava no imóvel em que o estupro ocorreu, mas não teria participado do crime.
Crimes em 1996 e 2006: Estado brasileiro assina acordos de reparação perante à CIDH referentes a casos de violência policial ocorridos no Rio
Análise do Dossiê Mulher sobre discurso red pill na web
Neste ano, o ISP propôs, para além de analisar dados de crimes que já ocorreram, uma reflexão sobre os comportamentos adotados na internet, que podem acabar se transformando em registros policiais futuramente.
Ao todo, cem publicações feitas em cinco perfis diferentes no X (antigo Twitter) da esfera redpill, entre o ano passado e este, foram analisadas pelo Dossiê Mulher.
A amostra é pequena, mas suficiente para entender como esse tipo de discurso se apresenta.
O estudo analisou que essas contas se retroalimentam e, juntas, alcançaram mais de 23 milhões de visualizações, além de 210 mil curtidas.
— É uma média de circulação muito grande. Estamos falando de um comportamento que, apesar de soar como comportamento de nicho, algo escondido, tem um potencial de circulação muito grande que atinge qualquer tipo de público, dos mais jovens aos mais velhos — avalia Laura Mariana da Costa, analista da Coordenadoria de Gestão do Conhecimento do ISP. — O discurso está mostrando uma violência ensaiada, então a gente quer agir para evitar que isso se transforme em dados (com registro em delegacias) de um futuro dossiê.
Duas estratégias discursivas principais foram identificadas nas postagens selecionadas pelo ISP:
A pseudo evidência, com apresentação de dados, informações e estudos, mesmo que falsos ou usados de má-fé
E também a “posição de revelação”, quando o discurso é apresentado como detentor da verdade
O ISP também identificou uma metáfora do relacionamento amoroso como um mercado por trás desses discursos, mesmo que feitos de maneira sutil, para evitar que seja derrubado das redes.
A mulher seria tratada com um valor inato, decrescente e biológico
A idade avançando, a quantidade de filhos e do número de experiências sexuais contariam para diminuir o valor da mulher nessa análise redpill
Carreira e independência também contariam para diminuir o valor feminino na avaliação desses grupos, já que seriam atribuições do universo masculino
Já os homens, por outro lado, teriam um valor construído, crescente e financeiro, com o status e conquistas financeiras como atributos a seu favor, inclusive o tempo
Sem xingamentos, é mais difícil que essas postagens sejam derrubadas. Há ainda a estratégia de mudar termos usados caso pessoas de fora do universo redpill comecem a identificá-los como parte desse discurso, método nomeado de masking pill (para mascarar).
Drones e operações integradas: Avanço das ocupações irregulares leva Niterói a intensificar fiscalização e demolições
Origem da expressão ‘red pill’ e outros grupos
A expressão “redpill” vem do filme “Matrix” (1999): o conceito da obra, de que a pílula vermelha revela a verdade, foi deturpado. No entendimento do grupo, os homens teriam despertado para a realidade, com a pregação de que o masculino deve ter o domínio sobre as mulheres. E esse universo tem ainda outros grupos:
Era março deste ano quando Vitor Hugo Oliveira Simonin se entregou à 12ª DP (Copacabana). Ele era um dos homens foragidos pelo estupro coletivo de uma adolescente no bairro da Zona Sul do Rio. Na ocasião, no entanto, sua camisa chamou a atenção por conta de uma frase atribuída ao movimento “redpill”, nome do discurso que representa homens que entendem que estariam se opondo a um sistema que favoreceria as mulheres. Três meses depois, o Instituto de Segurança Pública do Rio (ISP-RJ) se baseou em postagens nas redes sociais para perfilar esse comportamento misógino — como é chamado o desprezo ou ódio contra as mulheres — na web ao divulgar o Dossiê Mulher, estudo anual que se baseava, até então, nos registros policiais.
Instituto de Segurança Pública: Dossiê Mulher 2026 analisa discurso ‘redpill’ e misógino nas redes sociais para ‘evitar que isso se transforme em dados’ futuros de violência
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— Esse tipo de postagem é um crime, uma agressão à mulher. (É necessário) Identificar aquele perfil e responsabilizar, são cinco perfis que se conectam entre si, mas que geram um número grande de visualizações — afirmou o secretário de Segurança Pública do Rio, Victor César Santos, que informou que já há uma investigação da Polícia Civil sobre essas contas analisadas pelo ISP. — Se a investigação apontar que aquele autor ou a pessoa que manipula aquele perfil agiu dolosamente, com a intenção de agredir a mulher, ele será responsabilizado.
Na época da prisão em Copacabana, a veste citava a frase em inglês “regret nothing” (“não me arrependo de nada”, em tradução livre para o português), popularizada pelo coach americano Andrew Tate, um dos principais influenciadores dos redpills, declaradamente misógino. A expressão tem associação com grupos masculinos da chamada “machosfera”, comunidades online que propagam discursos de ódio e de subjugação das mulheres. Na ocasião do crime, a defesa de Vitor Hugo citava que o cliente estava no imóvel em que o estupro ocorreu, mas não teria participado do crime.
Crimes em 1996 e 2006: Estado brasileiro assina acordos de reparação perante à CIDH referentes a casos de violência policial ocorridos no Rio
Análise do Dossiê Mulher sobre discurso red pill na web
Neste ano, o ISP propôs, para além de analisar dados de crimes que já ocorreram, uma reflexão sobre os comportamentos adotados na internet, que podem acabar se transformando em registros policiais futuramente.
Ao todo, cem publicações feitas em cinco perfis diferentes no X (antigo Twitter) da esfera redpill, entre o ano passado e este, foram analisadas pelo Dossiê Mulher.
A amostra é pequena, mas suficiente para entender como esse tipo de discurso se apresenta.
O estudo analisou que essas contas se retroalimentam e, juntas, alcançaram mais de 23 milhões de visualizações, além de 210 mil curtidas.
— É uma média de circulação muito grande. Estamos falando de um comportamento que, apesar de soar como comportamento de nicho, algo escondido, tem um potencial de circulação muito grande que atinge qualquer tipo de público, dos mais jovens aos mais velhos — avalia Laura Mariana da Costa, analista da Coordenadoria de Gestão do Conhecimento do ISP. — O discurso está mostrando uma violência ensaiada, então a gente quer agir para evitar que isso se transforme em dados (com registro em delegacias) de um futuro dossiê.
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Duas estratégias discursivas principais foram identificadas nas postagens selecionadas pelo ISP:
A pseudo evidência, com apresentação de dados, informações e estudos, mesmo que falsos ou usados de má-fé
E também a “posição de revelação”, quando o discurso é apresentado como detentor da verdade
O ISP também identificou uma metáfora do relacionamento amoroso como um mercado por trás desses discursos, mesmo que feitos de maneira sutil, para evitar que seja derrubado das redes.
A mulher seria tratada com um valor inato, decrescente e biológico
A idade avançando, a quantidade de filhos e do número de experiências sexuais contariam para diminuir o valor da mulher nessa análise redpill
Carreira e independência também contariam para diminuir o valor feminino na avaliação desses grupos, já que seriam atribuições do universo masculino
Já os homens, por outro lado, teriam um valor construído, crescente e financeiro, com o status e conquistas financeiras como atributos a seu favor, inclusive o tempo
Sem xingamentos, é mais difícil que essas postagens sejam derrubadas. Há ainda a estratégia de mudar termos usados caso pessoas de fora do universo redpill comecem a identificá-los como parte desse discurso, método nomeado de masking pill (para mascarar).
Drones e operações integradas: Avanço das ocupações irregulares leva Niterói a intensificar fiscalização e demolições
Origem da expressão ‘red pill’ e outros grupos
A expressão “redpill” vem do filme “Matrix” (1999): o conceito da obra, de que a pílula vermelha revela a verdade, foi deturpado. No entendimento do grupo, os homens teriam despertado para a realidade, com a pregação de que o masculino deve ter o domínio sobre as mulheres. E esse universo tem ainda outros grupos:
Machosfera: comunidades online que propagam discursos de ódio e de subjugação das mulheres
Incel: celibatários involuntários, que dizem ser incapazes de encontrar parceiras românticas ou sexuais
Men Going Their Own Way (MGTOW): grupo que prega o afastamento de relacionamentos com mulheres
Chans: espaços de discussão anônimos na internet, usados para propagação de discursos de ódio e misoginia
Há ainda o uso de termos como “80/20” — teoria que prega que 80% das mulheres competiriam por 20% dos homens, deixando o restante do grupo masculino sem alternativas — e o All Women Are Like That (AWALT), traduzido como “todas as mulheres são assim”, que estereotipa os comportamentos femininos.Há ainda o uso de termos como “80/20” — teoria que prega que 80% das mulheres competiriam por 20% dos homens, deixando o restante do grupo masculino sem alternativas — e o All Women Are Like That (AWALT), traduzido como “todas as mulheres são assim”, que estereotipa os comportamentos femininos.



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