conheça a história de Bruno Guimarães, cria da Zona Norte do Rio


Maestro silencioso do meio-campo da seleção brasileira nesta Copa do Mundo, Bruno Guimarães está acostumado com os grandes palcos do futebol mundial. Na sua infância, na Zona Norte do Rio de Janeiro, cresceu como vizinho do Maracanã e precisou passar por diferentes obstáculos para viver o sonho de ser um jogador de futebol. O objetivo foi conquistado e hoje ele virou até samba em Vila Isabel, um dos bairros onde foi criado. Esse é o terceiro capítulo da série Meninos do Rio, que conta as raízes dos atletas que vestem a amarelinha.

A trajetória de Bruno começou em São Cristóvão, próximo também de São Januário, estádio do Vasco, seu time de infância. Apesar do sonho de ser jogador, sua mãe, Márcia, preferia que o filho trocasse as chuteiras pela touca da natação. O menino até ficou nas águas por alguns meses, mas insistiu no futebol. Assim, deu seus primeiros passos justamente no cruz-maltino, e também na Escolinha do Professor Matéia, no Morro da Mineira.

Ainda em São Cristóvão, Bruno Guimarães conheceu Julio Cesar Elias, o Julinho, um de seus grandes amigos até hoje e que o acompanhou na escolinha de futsal do Helênico, no Rio Comprido, sua próxima parada nessa história. E foi lá, com cerca de 9 anos, que o jogador conheceu outro personagem importante na sua carreira: o técnico Mário Jorge, que atualmente comanda o Volta Redonda.

No início no Helênico, Bruno não conseguia controlar o nervosismo e a ansiedade de entrar em quadra e passava mal. Tinha dores no estômago, febre e vomitava. Até que um conselho de Mário Jorge o ajudou a ficar mais confiante.

— Eu falei para ele: “Bruno, é só jogar. Vai lá, brinca um pouquinho e se diverte” — contou Mário Jorge, que ainda revelou uma outra dificuldade do jogador: amarrar o cadarço.

— Eu fazia uma brincadeira: colocava todo mundo descalço em uma área e os tênis na outra. Eles tinham que correr e só valia voltar para o meio da quadra com o tênis amarrado, e o Bruno não conseguia fazer isso porque não sabia amarrar o cadarço — explicou o treinador.

Mário Jorge e Bruno Guimarães no centro de treinamento do Newcastle, relação de técnico e pupilo virou amizade — Foto: Arquivo pessoal

Superado o “bloqueio”, Bruno fez testes no Fluminense e no Botafogo, mas foi dispensado. Já aos 11 anos, chegou ao Flamengo, e depois passou por CFZ e reencontrou Mário Jorge no Audax-RJ — na época chamado de Sendas —, que foi vendido ao Bradesco.

Bruno chegou a pensar em desistir do futebol de campo e seguir no futsal, mas Mário Jorge o convenceu a mudar de ideia. Depois, ele quis atuar como lateral-direito, e outra vez, o treinador precisou intervir. Anos depois, Bruno foi para o Audax paulista, passou pelo Athletico-PR e decolou no Lyon, da França, e no Newcastle, da Inglaterra, onde brilha atualmente com a camisa 39 — número inspirado no táxi de seu pai, Dick. A vida de taxista, inclusive, era o plano B de Bruno Guimarães caso a carreira nos gramados não desse certo. Mas ele sempre esteve muito determinado de que alcançaria seu objetivo.

Pedro Henrique e Julio Cesar, amigos de infância de Bruno Guimarães, na Rua Pereira Nunes, em Vila Isabel — Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Pedro Henrique e Julio Cesar, amigos de infância de Bruno Guimarães, na Rua Pereira Nunes, em Vila Isabel — Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

Após alguns anos em São Cristóvão, o volante se mudou para Vila Isabel, onde passou boa parte da sua infância e adolescência — depois foi para o Engenho Novo e, na sequência, para São Paulo, onde jogou pelo Audax. Além do futebol, outra paixão dele era ver sua casa cheia de amigos. Assim como Julinho, Pedro Henrique é outra amizade de longa data que cresceu com Bruno.

— O Bruno amava encher a casa dele de gente. Hoje, já adulto, eu queria entender como a tia Márcia conseguia aturar todo fim de semana aquela casa cheia de crianças — disse Julinho.

— O Bruno tinha uma bola e ficava driblando os móveis dentro de casa, o cachorro (Pingo) e chutando na parede. Algumas vezes fazia besteira, mas a tia Márcia nunca proibiu — completou Pedro Henrique.

Bruno Guimarães e Pedro Henrique: amigos de infância — Foto: Arquivo pessoal
Bruno Guimarães e Pedro Henrique: amigos de infância — Foto: Arquivo pessoal

Fominha por futebol desde pequeno, Bruno tinha Ronaldinho Gaúcho como seu grande ídolo e até um pôster do craque no quarto. Agora, em 2026, consolidado como titular da seleção brasileira na Copa, Bruno deixou de ser apenas um fã e virou o ídolo dos amigos.

— Perto da casa dele vendia um picolé do Ronaldinho, no qual você colecionava os palitos e depois trocava pelo pôster. Ele também tinha diversas camisas da seleção brasileira do Ronaldinho, bolas… O Ronaldinho sempre foi o ídolo do Bruno na infância — revelou Julinho.

Bruno Guimarães cumprimenta Ronaldinho antes do jogo Brasil x Haiti na Copa do Mundo — Foto: Reprodução / Instagram
Bruno Guimarães cumprimenta Ronaldinho antes do jogo Brasil x Haiti na Copa do Mundo — Foto: Reprodução / Instagram

Agora, em 2026, consolidado como titular da seleção brasileira na Copa do Mundo, Bruno Guimarães deixou de ser apenas um fã e virou o ídolo de quem o acompanhou nessa trajetória.

— O Bruno, além de meu irmão, é um ídolo para mim pela sua dedicação. Ele superou todas as barreiras. O Bruno nem sempre foi o melhor, mas sempre foi o mais dedicado — destacou Pedro Henrique.

Bruno Guimarães com sua esposa e amigos Pedro Henrique (E) e Julio Cesar (D) — Foto: Arquivo pessoal
Bruno Guimarães com sua esposa e amigos Pedro Henrique (E) e Julio Cesar (D) — Foto: Arquivo pessoal

— Eu lembro do primeiro gol que ele fez no Maracanã. Foi um Athletico-PR e Fluminense num jogo da Sul-Americana de 2018. A família dele se emocionou, a gente se abraçava no estádio. E depois que ele foi para a Europa e começou a ser convocado para a seleção, foi aquela felicidade dentro de mim. Esse cara, o meu amigo, que sempre acreditou muito nele, está conseguindo fazer isso e jogar uma Copa do Mundo. Eu fico totalmente realizado — declarou Julinho.

Julio Cesar e Bruno Guimarães: amigos de infância — Foto: Arquivo pessoal
Julio Cesar e Bruno Guimarães: amigos de infância — Foto: Arquivo pessoal

Grandes fãs de Bruno Guimarães, os amigos acompanham o jogador até hoje. Sempre que a seleção brasileira joga no Brasil, o meio-campo da amarelinha faz questão de levar os amigos. Até quando estão longe, como agora, na Copa do Mundo, eles mantêm contato e não perdem o costume de jogar videogame.

Para os dois que ficam no Brasil, a alegria é grande de ver o amigo em campo, mas a tensão também. Quando Bruno vai mal, eles já sabem que vão escutar críticas. Mas, quando joga bem, os pedidos por vídeos e autógrafos do jogador também são certos.

Julio Cesar e Pedro Henrique, amigos de infância de Bruno Guimarães, na Rua Pereira Nunes, em Vila Isabel — Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Julio Cesar e Pedro Henrique, amigos de infância de Bruno Guimarães, na Rua Pereira Nunes, em Vila Isabel — Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo

— O brasileiro cobra muito da seleção e eu fico apavorado quando vai começar o jogo. Eu faço uma oração, peço para que ele faça sempre uma boa partida e não se lesione. Eu não sei ele, mas acho que o meu nervosismo é muito maior, muito maior mesmo — contou Julio Cesar.

Quem também não deixa de acompanhar o jogador da seleção é seu antigo técnico, Mário Jorge. Ele segue muito próximo do atleta, já visitou a sua casa em Newcastle e assistiu a jogos da Premier League.

— O Bruno tem uma idolatria muito grande lá em Newcastle, e isso se deve muito à personalidade dele, pela forma como trata as pessoas, os pais, a esposa… Para mim é um motivo de muito orgulho ver o homem que o Bruno se tornou, o pai que ele se tornou.

Diante do sucesso do cria nesta Copa do Mundo, a Vila Isabel resolveu até fazer um samba em homenagem a Bruno Guimarães. A ideia partiu do Macaco Branco, mestre de bateria da escola Unidos de Vila Isabel, em parceria com a Galera da Pereira Nunes, que decora a rua nas cores do Brasil para o Mundial.

Vila Isabel se vestiu na tradição

Pintou as ruas e acendeu o coração

Da Pereira Nunes e do Rio de Janeiro

Estamos na torcida com o povo brasileiro

Canta, Vila, com muita emoção

Bruno Guimarães, você já é campeão

Da terra de Noel, saiu nosso guerreiro

E vai trazer o hexa para o Brasil inteiro

Lembra da Escolinha do Professor Matéia, citada logo no início desta matéria? Bruno Guimarães não se esqueceu dela e já fez doações de chuteiras para as crianças que jogam por lá. Em dezembro de 2020, por exemplo, doou 110 chuteiras em uma parceria com a Adidas, fornecedora de material esportivo.

Dentre as crianças beneficiadas pela doação estavam Thiago Nascimento e Maria Luiza Nascimento, filhos de Josy Silva.

— A gente não sabia que ia ter a doação e as crianças chegaram em casa, cada uma com sua caixinha, felizes da vida. Até porque, naquele momento, eles ainda não tinham uma chuteira de uma marca reconhecida. Comprávamos as mais baratas que cabiam no nosso orçamento. Para nós, como pais, foi muito gratificante ver os olhinhos deles brilhando — contou a mãe.

Hoje, Thiago e Maria Luiza, de 18 e 16 anos, respectivamente, não estão mais na escolinha, mas a gratidão por Bruno Guimarães segue na família.

Josy e os filhos: a família na torcida pela seleção brasileira na Copa do Mundo — Foto: Arquivo pessoal
Josy e os filhos: a família na torcida pela seleção brasileira na Copa do Mundo — Foto: Arquivo pessoal

— Ver o Bruno hoje na Copa do Mundo, para a gente, é um orgulho imenso. A gente, inclusive, torce muito para que ele consiga mais e mais ajuda, porque é uma escolinha que depende muito dessas doações. Desejamos para o Bruno tudo de maravilhoso, que ele consiga seus objetivos e, principalmente, continue sendo esse jovem de coração bom — concluiu Josy.



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