Hoje, o Candomblé está silêncio. Em poucas horas, despedimo-nos de duas personalidades que dedicaram suas vidas à preservação, ao fortalecimento e à valorização da nossa religião: o Ogan José Beniste e o Tata Osvaldo de Mutalê.
José Beniste foi um dos maiores intelectuais da cultura afro-brasileira. Professor de língua yorùbá, escritor, Ogan e pesquisador incansável, transformou o conhecimento em instrumento de preservação da tradição. Seus livros, cursos, programas de rádio e seu trabalho pioneiro permitiram que milhares de pessoas conhecessem a profundidade da filosofia yorubá e a riqueza do Candomblé. Graças ao seu compromisso com o saber, uma parte importante da história de nossa religião foi registrada para as futuras gerações.
Tata Osvaldo de Mutalê trilhou caminho iluminado. Fez do Terreiro um espaço de acolhimento, orientação e continuidade da tradição. Como dirigente do AOM – Inzo Ia Mutalê e respeitado sacerdote da nação Angola, dedicou sua vida à formação espiritual de seus filhos de santo, ao respeito aos ancestrais e ao fortalecimento da comunidade religiosa. Sua liderança era marcada pela simplicidade, pela firmeza e pelo cuidado com as pessoas.
Um preservou a memória por meio da palavra escrita. O outro preservou a tradição pela vivência cotidiana do Terreiro. Um ensinou nas páginas dos livros e nos microfones do rádio. O outro ensinou pelo exemplo, pelo acolhimento e pela convivência. Ambos compreenderam que o verdadeiro legado não está no reconhecimento pessoal, mas na capacidade de formar novas gerações.
Tive o privilégio de conviver com os dois. Conheci suas histórias, testemunhei suas contribuições e compartilhei momentos que hoje se transformam em lembranças preciosas. A amizade que construímos reforçou em mim a certeza de que ambos tinham o mesmo propósito: servir ao Candomblé com dignidade, responsabilidade e amor.
Hoje, nossa religião perde duas referências insubstituíveis. Perdemos duas vozes que, cada uma à sua maneira, ajudaram a construir o respeito que o Candomblé conquistou ao longo das últimas décadas.
O legado permanece
Permanece nos livros de José Beniste, que continuarão ajudando estudiosos e sacerdotes. Permanece no terreiro de Tata Osvaldo de Mutalê, em seus ensinamentos, em seus filhos de santo e na continuidade de sua linhagem espiritual.
As grandes lideranças não desaparecem quando partem. Permanecem vivas naquilo que ensinaram, nas vidas que transformaram e na história que ajudaram a escrever.
Que José Beniste e Tata Osvaldo de Mutalê sejam recebidos pelos ancestrais com a mesma honra com que viveram entre nós.
Hoje, o Candomblé chora. Amanhã continuará caminhando, sustentado pelo legado daqueles que fizeram da própria vida um ato de devoção ao sagrado.
Amigos prestam homenagens
Pai Márcio de Jagun ao Pesquisador José Beniste
“José Beniste é referência importante para toda uma geração. Foi um dos mais dedicados pesquisadores de campo. Nos terreiros de Umbanda e de Candomblé, ouvia os antigos, ouvia os jovens, ouvia os ancestrais. Cumpriu com destreza e afinco sua tarefa nesse mundo. Somos gratos pelo seu legado.”
Babalorixá Marcelo Fritz homenageia o Professor
“José Beniste foi meu professor, minha referência na luta por direitos humanos e na difusão das tradições afro. Sempre foi generoso em compartilhar pesquisas, conhecimentos e saberes.”
Anderson Kia Kitembu
“Hoje o dia está triste. Estou perdendo mais do que um zelador. Perco um amigo, um confidente. Éramos parceiros nas visitas às casas de nossos amigos zeladores, participávamos de festas e vivi grandes aprendizados ao seu lado. Só tenho a agradecer por essa pessoa maravilhosa que, por onde passou, fez o bem a todos e deixará muitas saudades. Descanse em paz, meu Tata, meu amigo.”
Pai Nando de Oxaguian
“Mutalê teve um papel fundamental na vida de nosso amado Pai Renato e, principalmente, em sua passagem espiritual. Em um dos momentos mais difíceis de nossa caminhada, esteve presente com carinho, acolhimento, amizade e orientação, oferecendo apoio não apenas como pai espiritual, mas como um verdadeiro amigo de toda a nossa família.
Sua dedicação, seu compromisso com a espiritualidade e seu amor ao próximo marcaram profundamente nossa história. Como padrinho de nosso Ogan Rodrigo, fortaleceu ainda mais os laços de afeto, respeito e união entre nossas famílias.
Hoje nos despedimos com dor no coração, mas com a certeza de que seu legado permanecerá vivo. Assim como nosso Pai Renato, seguirá como um espírito de luz, guiando, protegendo e inspirando todos aqueles que tiveram o privilégio de compartilhar sua caminhada.
Agradecemos por cada gesto de amizade, cada palavra de conforto e cada ensinamento deixado ao longo dos anos.
Que os ancestrais o recebam em paz e que sua luz continue iluminando nossos caminhos.
Vá em paz, Pai Osvaldo de Mutalê. Sua história jamais será esquecida.”
Mãe Mirian de Oyá sobre Tata Osvaldo de Mutalê
“Mutalê era um grande irmão. Meu amigo, meu compadre por várias vezes. É um sentimento de perda muito grande. Ainda não estou acreditando.
Tivemos momentos maravilhosos na Irmafro, onde ele foi vice-presidente.
Mutalê era um lutador pela nossa religião, um verdadeiro militante. Tinha uma casa estruturada, onde recebia seus amigos com muito carinho. Era um homem que tinha vontade de viver e dedicava sua vida à religião.
Era um amigo daqueles que moram para sempre no coração. Eu, o falecido Renato e ele éramos conhecidos como ‘Os Três Mosqueteiros’. Apresentamos inúmeros eventos juntos. Também fui madrinha da casa quando ele inaugurou o terreiro.
Hoje sinto como se estivesse faltando uma parte de mim. Ele fará muita falta. Merece uma grande homenagem. Era muito presente nas caminhadas e extremamente generoso.”
Mãe Mirian de Oyá sobre o Ogan José Beniste
“Que triste o meu dia. Meu Deus… Eu estava agora pensando no professor.
Conheci José Beniste em 1968, no SORI, que era do Mário Barcelos. Eu tinha apenas 21 anos. Até hoje guardo a carteirinha assinada por ele, pois era meu diretor. Quantas vezes, eu e Paulo, apresentamos juntos o programa que ele tinha na Rádio Solimões, em Nova Iguaçu. Foi uma honra. Uma grande escola.
Ele era muito generoso em compartilhar seus conhecimentos com todos. Foi fundamental na difusão das nossas tradições.
Um ícone. Um grande nome da história do Candomblé. Um escritor, um radialista ímpar, um homem generoso que dividia seu saber com todos. Um grande pesquisador. Seu legado ficará marcado para sempre.”
Sérgio Carvalho-presidente da ANMA – Associação Nacional de Mídia Afro sobre José Beniste
Neste momento de luto, expressamos nossas mais sinceras condolências à família, amigos e todos que tiveram a honra de conhecer e conviver com esse grande homem. Que a sua memória seja sempre celebrada e que seu exemplo continue a guiar as novas gerações em nossa luta por representatividade e valorização das tradições afro-brasileiras.
Informe:
O corpo do Tata Osvaldo de Mutalê será velado nesta terça-feira, dia 23, a partir das 8h, no Cemitério São Francisco Xavier. O sepultamento está previsto para as 10h.
Até o fechamento desta matéria, ainda não haviam sido divulgadas informações sobre o velório do Ogan José Beniste.
Olódùmarè kí fún wọn ní ìsinmi pípé. (Que Olódùmarè lhes conceda o merecido descanso.)
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